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Jonathan Demme (1944-2017)

por José V. Raposo em 30 Abril, 2017 © Marc Platt/Shutterstock

2017 a produzir uma baixa de vulto no cinema: deixou-nos Jonathan Demme, aos 73 anos. Cineasta de carreira com bases diversas, deixa-nos um corpo de trabalho com impressão digital no grande cinema norte-americano, mas com uma marca e estilo próprios.

De Nova Iorque para a Universidade da Flórida na juventude, começou a carreira, tal como Francis Ford Coppola, a colaborar com o rei da série B, Roger Corman. Com este escreveu e co-produziu Angels Hard As They Come (1971) e The Hot Box (1972) – o primeiro com o substrato sofisticado típico de Corman, sendo liberalmente baseado em Rashomon, de Akira Kurosawa.

Demme tardia muito a alcançar a notoriedade: já em 1980, o seu Melvin and Howard, comédia baseada num testamento nulo de Howard Hughes, arrecadaria prémios em barda, incluindo Óscares de melhor argumento original para Bo Goldman, de melhor actriz secundária para Mary Steenburgen, uma nomeação para melhor actor secundário para o saudoso Jason Robards e o prémio de melhor filme do ano da National Society of Film Critics. Realizaria, em 1984, Swing Shift, produção de parto difícil e que seria deserdada pelo próprio Demme.

Também em 1984 uma obra-prima: Stop Making Sense. Concerto dos Talking Heads filmado em Los Angeles ao longo de várias noites, utiliza toda a espécie de truques (e também simplesmente filmar a música) para construir a narrativa de que a banda de David Byrne e companhia era e é uma das melhores de sempre. De um começo num palco despido de gente e adereços até ao fato gigante de Byrne e correrias pelo palco à moda do eurodance, será porventura o melhor concerto de rock filmado de forma profissional.

Dentro das bases diversas da sua obra, Jonathan Demme levou ao grande ecrã a peça do malogrado Spalding Gray, Swimming to Cambodia (1987), um misto de documentário e monólogo sobre as experiências deste na produção de The Killing Fields (1984, drama de Roland Joffé sobre a ignomínia no Cambodja de Pol Pot), dramas pessoais e a busca da perfeição enquanto actor.

Também a década de noventa foi produtiva, com a chegada às grandes produções mainstream (e aos Óscares de topo). Em 1991, The Silence of the Lambs, o clássico thriller de horror que não precisou de vidros, camisas-de-forças ou açaimes para fazer a manita dos Óscares: melhor filme, realizador, actriz e actor e argumento adaptado. Consagrou Demme, Hopkins e Foster como nomes cimeiros e ficaram as frases e imagens que, um quarto de século depois, perduram.

Não se ficaria por aqui em termos de sucesso comercial e com a crítica pois que, em 1993, seria a vez de Philadelphia, drama pioneiro sobre a epidemia da SIDA, arrecadar nomeações e prémios (desta feita a estatueta de melhor actor para Tom Hanks). O trabalho com músicos continuou: realizaria, com o sobrinho Ted (que o precedeu na morte), o vídeo de Streets of Philadelphia de Bruce Springsteen, sem esquecer o magistral vídeo de A Perfect Kiss, dos New Order (1985) e trabalhos com os Suburban Lawns e o rapper KRS-One.

Recentemente, um remake menos conseguido de The Manchurian Candidate (original de John Frankenheimer, 1962), algum sucesso com Rachel Getting Married, veículo de Anne Hathaway – no qual se nota a afeição de Jonathan Demme pela música, contando com a participação de Fab Five Freddy e Tunde Adebimpe. Termina a carreira com Justin Timberlake + The Tennessee Kids, novo documentário musical, um episódio-piloto para a revista nova-iorquina The New Yorker e uma colaboração com o Rock and Roll Hall of Fame.

Sempre, sempre com alguns dos melhores e mais expressivos grandes planos da História do cinema, que deixariam orgulhosos Leone, Eisenstein ou Welles – fosse a retratar Jodie Foster, Anthony Hopkins, Peter Hook, Tom Hanks ou Denzel Washington.

Uma carreira ímpar e de particular interesse para quem segue as últimas quatro décadas do cinema norte-americano e o que de melhor se fez na música popular. Dito isto, vão ver o Stop Making Sense, mas em vez de pipocas, com uma dose de favas e uma garrafa de chianti.


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José V. Raposo

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