MENUMENU

Hector Babenco (1946-2016)

por José V. Raposo em 19 Julho, 2016

  A grande maldição de 2016 continua, sendo particularmente penosa para o cinema, que já é o terceiro cineasta com obra relevante que nos deixa nas últimas três semanas. Hector Babenco, o realizador argentino mais brasileiro de sempre, despede-se das câmaras e da vida aos setenta anos.

  Apesar de ter um corpo de trabalho à primeira vista relativamente escasso, ficou conhecido do grande público através de Kiss of The Spider Woman (de 1985, adaptado a partir do romance homónimo de Manuel Puig), que lhe valeu nomeações de melhor filme e realizador em Cannes, nos prémios BAFTA, nos Globos de Ouro e nos Óscares e granjeou títulos de melhor actor para William Hurt em Cannes, BAFTA e nos Óscares.

 Porém, foi com Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981) e Carandiru (2003) que marcou o cinema, ao retratar a miséria, a corrupção moral e financeira e o vazio de Humanidade que perpassam pelo país. Fortemente influenciado pelo neo-realismo europeu nos dois primeiros, a lente da sua câmara mostrou a degradação, o esmagamento e emudecimento dos descamisados, desde que nascem até à sua morte – seja no crime ou na cadeia. Com Carandiru (baseado no livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella) fechou o retrato do ciclo de pobreza, apresentando o massacre de 2 de Outubro de 1992 como o desfecho da negação e abandono a que as instituições estão votadas e votaram o problema da criminalidade em São Paulo e no Brasil. A violência como cerne cultural, social e político.

  Ainda este ano apresentou Meu Amigo Hindu, com William Dafoe.

  Sobre Pixote…, a vida trágica do actor da personagem homónima, Fernando Ramos da Silva, daria ela própria um filme. Semi-analfabeto, teve dificuldade em tornar-se actor por não conseguir ler os argumentos, virando-se para o crime e acabando morto pela polícia em 1987, num chavão de a vida imitar a arte. Nick Cave e os seus Bad Seeds dedicariam Tender Prey a Ramos da Silva.


sobre o autor

José V. Raposo

Partilha com os teus amigos