Especial Óscares: Tão bom e nem foste nomeado!

por Arte-Factos em 17 Fevereiro, 2017 © Fight Club

Com a cerimónia de entrega das cobiçadas estatuetas douradas cada vez mais próxima, é impossível não evocar as tradicionais arbitrariedades na atribuição destes prémios. Como no caso dos realizadores, a lista dos filmes e actores que integram a lista dos inexplicavelmente esquecidos pela Academia de Ciências Cinematográficas é extensa. Deixamos aqui apenas alguns exemplos.

 

LÉON: THE PROFESSIONAL (1994)
Léon (Jean Reno) é um assassino profissional que vê a sua vida a ser interrompida por Mathilda (Natalie Portman), uma rapariga de 12 anos sua vizinha, filha de uma família severamente disfuncional. No dia em que toda a família de Mathilda é morta por agentes da DEA, liderada pelo sanguinário Stansfield (Gary Oldman), Mathilda refugia-se no apartamento de Léon, que a acolhe relutantemente. A partir daqui desenvolve-se uma trama tragicamente bonita. Ao mesmo tempo que Mathilda vê em Léon uma oportunidade para vingar a morte do seu querido irmão de 4 anos, desenvolve por ele uma relação de afecto, pautada por um complexo misto de emoções. Por sua vez, Léon vê em Mathilda uma porta para a vida que nunca teve, para a criação de raízes e laços. Esteticamente agressivo, este é um filme de Luc Besson que não teve nem uma nomeação para os Óscares. As actuações, o enredo e a cinematografia bem mereciam algum reconhecimento da Academia. Rita Torres

 

 

NOCTURNAL ANIMALS (2016)
O segundo trabalho de Tom Ford enquanto realizador é uma exploração bem sucedida de uma nova linguagem do Cinema. Apresenta-nos duas histórias em simultâneo que são, na verdade, a mesma e supera convenções estéticas para nos trazer uma narrativa poderosa sobre lealdade, perda e conformismo. A excelência da escrita e execução que foi esquecida pela academia em prol de outros trabalhos menores e facilmente esquecíveis. Uma verdadeira tragédia. José Santiago



SILENCE (2016)

Há muitas razões para perder a fé nos Óscares e e o silêncio da Academia em relação ao último filme de Scorsese é apenas um motivo mais para ser herético: um mundo que não aprecia e dá graças quando o distinto realizador lhe oferece um poderoso dilema de fé e crença, um drama histórico onde o animismo ocidental e a sobranceria ocidental se encontram no verde das florestas, na imensidão do mar e na irrevogabilidade da fé. Há uma nomeação para a assombrosa fotografia de Rodrigo Prieto, mas melhor filme, que é bom, nem lhe
toquem. Um dos projectos mais pessoalíssimos do diminuto italo-americano, o final (até ver) da sua trilogia da fé merecia mais do que uma palmadinha nas costas nas categorias técnicas: assim de cabeça, entre realização e filme, entre a montagem de Schoonmaker e a performance de Issey Ogata, muita vassalagem ficou por prestar. Querem dizer-me que Andrew Garfield está bom naquele filme de guerra, mas neste é bicho? Vade retro, Academia e orat pro nobis, Martin: não lhes perdoes, mas a verdade é que não sabem mesmo o que fazem. Bruno Fernandes

 


ETERNAL SUNSHINE OF A SPOTLESS MIND (2004)
Uma obra que, como alguém terá dito um dia, merecia uma elegia ou um tratado, Eternal sunshine of a spotless mind de Michel Gondry foi uma das mais dolorosas ausências da lista de melhores do ano de 2005, tendo a Academia tentado redimir-se (mediocramente) com a sua nomeação para melhor argumento original e a de Kate Winslet para melhor actriz – deixando de fora o génio dramático de Jim Carrey naquela que terá sido, talvez, a prova que os menos atentos precisariam ainda face ao ingrato rótulo associado a grande parte da sua filmografia.  Ana Amaro

GONE GIRL (2014)
Na fresquinha do 15 de Janeiro de 2015, quando Gone Girl apenas surgiu na boca de Chris Pine e da Presidente da Academia para nomear de forma justíssima Rosamund Pike como melhor actriz, um homem entre vários não riu, nem chorou. Aposto até que estava bem ferrado a dormir, que por lá ainda eram 5 e meia da manhã. Falo do realizador David Fincher, que conhece bem, depois da vergonha de 2010, quando The King’s Speech (ainda se lembram? Rei gago, filme de emoção, sentimentalão? Não? Pois, bem me parece.) ganha e deixa o seu The Social Network a ver navios. Os filmes que ganham são os que se sentem, principalmente com mensagem e fundo histórico bonito. Gone Girl não é isto: é humor negro em esplendor, cinismo e realismo de mãos dadas, pessoas que se comportam como gente e não ideias. É a realidade suja do quotidiano, onde estar casado é um jogo de enganos e de espelhos, onde se tenta mostrar o melhor para se reflectir o pior. Interessa pouco a qualidade efectiva nesta corrida: o que conta é se o filme faz sentir bem ou é importante. Gone Girl só tem importância como objecto de excelente qualidade cinematográfica, como atrás dele Zodiac, Fight Club ou Seven a tinham. É preciso entender que a não nomeação não é surpresa: é injustiça, se consideramos uma feira de vaidades como um validar de gostos. Não é. A malta do feel good mostrou-se incapaz de lidar com o medo de uma mulher violentamente castradora e da verdade da mentira. Um papão com vagina, o medo da mulher, o medo que a intimidade seja falsa. Fincher sabia, e por isso não se surpreendeu. É um homem que desvenda o que está à margem, trabalhando dentro do sistema. O preço que paga é este, o de ser deixado de fora da festa. Bruno Fernandes

 

 

 

TO HAVE AND HAVE NOT (1944)
Em 1944, o realizador Howard Hawks resgatou da carreira de modelo uma muito jovem Lauren Bacall (na altura, com apenas 19 anos), juntou-a a um elenco encabeçado pelo astro do momento (Humphrey Bogart) e criou um clássico que recupera o ambiente de Casablanca e se alicerça no sucesso e carisma do seu protagonista. Passado em 1940 em Martinica, com a Segunda Guerra em pano de fundo, o filme centra-se na personagem de Harry Morgan (Bogart), dono de uma pequena embarcação que aluga a turistas – cínico, desencantado e politicamente neutro (como a sua personagem em Casablanca) – que é assediado pela resistência francesa para um serviço (que inicialmente recusa). O seu caminho cruza-se com o de Mary Browning, uma bela trapaceira (Bacall) que passa a tratar ironicamente por Slim… (ela chama-lhe Steve) e uma série de peripécias levam-no a aceitar o trabalho.

Livremente baseado na obra homónima de Ernest Hemingway (1937), com um argumento escrito em parceria por William Faulkner e Jules Furthman e produzido pela Warner Bros., To have and have not é hoje um filme de culto que surpreendentemente, apesar do seu enorme sucesso junto do público e da crítica, não recebeu qualquer prémio. Embora não seja um noir tradicional, reúne alguns dos seus temas habituais, os jogos de luz e sombras, a femme fatale, o ambiente de conspiração, os diálogos sarcásticos, perfeitamente combinados através do sábio trabalho de realização de Hawks – que criou também, através das suas escolhas de iluminação, aquela que viria a ser a imagem de marca de Bacall, a quem chamavam “O Olhar”. Mas há um filme dentro do filme que converte To have and have not numa obra maior: a relação entre Bogart e Bacall, com uma química de tal forma arrebatadora que dificilmente se acredita que é a primeira vez que trabalham juntos. Os olhares, os silêncios e os sorrisos trocados, que sugerem uma cumplicidade de longa data, foram na realidade o início de um dos romances mais sólidos e duradouros de Hollywood que apenas terminou com a morte de Bogart, em 1957. Na memória do cinema, ficou também a célebre frase: You know how to whistle, don’t you, Steve? You just put your lips together and blow. Edite Queiroz

 

FIGHT CLUB (1999)
Como assim, não foi nomeado? O ícone da viragem do século, o retrato delirante da frágil sociedade do consumo e do excesso material, o six-pack do Brad Pitt, a fotografia que ainda hoje produz belíssimos stills, “Where Is My Mind” dos Pixies, o maior-que-a-vida David Fincher. Porém, a Academia reconheceu-lhe apenas o mérito de sound effects editing, numa nomeação sem vitória. Um filme recheado de anti-heróis inconformistas, que se entregam à vida mundana e lasciva, num espírito de anarquia e total desrespeito pela norma. É claro que a Academia não nomeou para as mais respeitadas categorias; como poderia? #freethenipple Isabel Leirós

 

 

FOXCATCHER (2014) / GONE GIRL (2014)
Na cerimónia de 2015, a Academia escolheu apenas oito dos dez possíveis nomeados para melhor filme. Deixou dois de fora. Foram precisamente esses dois que aqui são referidos. Duas falhas inacreditáveis.
Foxcatcher. Porque é um filme complexo e consistente sobre a América e sobre as suas contradições (ao contrário dos Snipers desta vida). Porque tem uma tensão subliminar fortíssima. Porque é um retrato poderoso sobre o domínio psicológico e as fragilidades emocionais. Porque tem uma combinação de actores altamente improvável e que funciona na perfeição. Porque Bennett Miller foi nomeado pelo demasiado aborrecido Capote (apesar do estrondoso desempenho de Philip Seymour Hoffman) e pelo demasiado banal Moneyball (apesar de ser uma boa narrativa e outra história de desporto para lá do desporto) e falha a nomeação no seu melhor filme até ao momento.
Gone Girl. Porque é o melhor Fincher dos últimos anos. E porque, se até um Fincher mediano merece ser nomeado (e nada contra a nomeação de A Rede Social), é uma falha que um dos grandes thrillers dos últimos tempos seja assim ignorado pela academia. João Torgal

 

JAKE GYLLENHAAL
A Academia sempre provocou críticas altamente polarizadas, tanto nas nomeações, como na entrega do prémio de cada categoria. Em particular este ano, temos American Sniper como o principal responsável da controvérsia, em que vemos uma divisão quase (ou totalmente?) política das críticas a este filme. Talvez o exemplo mais claro para mim este ano terá sido a exclusão de Jake Gyllenhaal como Louis Bloom em Nightcrawler. Jake Gyllenhaal representa neste filme alguém cheio de ambição, no entanto, irreconhecívelmente arrepiante. Gyllenhaal foi capaz de desenhar, através da sua personagem, os limites da ambição e brilhantismo na profissão e a implicação com a moral pessoal. Uma personagem absolutamente assombrosa. Jake Gyllenhaal foi, no entanto, nomeado para o Globo de Ouro por Nightcrawler e já foi anteriormente nomeado pela Academia por Brokeback Mountain, para o Óscar de melhor actor secundário. Outras participações excelentes que vale a pena mencionar são claramente Donnie Darko e Enemy, a mais recente uma adaptação do romance de José Saramago, ambos demasiado bons para perder. Mafalda Castro

 

 

MIA FARROW
«Cabelo à Joãozinho», olhos grandes e expressivos, um rosto delicado pincelado por leves sardas, corpo esguio e franzino. Esta pequena descrição poderia ser uma rápida análise sobre a compleição física de Mia Farrow, quando se tornou mundialmente conhecida. Uma imagem de marca que deambula entre a imagem de girl next door e uma nova personificação do feminino que a tornou um ícone e que Roman Polanski conseguiu captar na perfeição em Rosemary’s BabyCertamente não foi este corte de cabelo o segredo do bom desempenho da actriz (no papel de uma jovem esposa enamorada, que se vê engendrada no meio de uma seita perigosa.) e muito menos o do sucesso do filme. No entanto, a estranha imagem de Mia Farrow para a época potencializou a aura de inocência que a personagem acarretava. Apesar de o seu desempenho ter sido elogiado e nomeado na categoria de melhor actriz nos Globos de Ouro e nos BAFTA, a Academia não seguiu o mesmo rasto e ignorou-a. Posteriormente, ao lado do marido (Woody Allen), teve durante anos e anos desempenhos dignos de pelo menos uma nomeação para melhor actriz – como por exemplo em The purple Rose of Cairo, Hannah and Her Sisters ou Alice – mas sem sucesso. Porquê? As hipóteses são várias, e necessitaria de um espaço mais alargado para escrever sobre o assunto, mas uma coisa é certa: se outras actrizes mais novas com o mesmo tipo de registo interpretativo e de certo modo físico, como Gwyneth Paltrow, Keira Knightley, Anne Hathaway, agradaram a Academia (no caso das duas últimas continuam a agradar), o singular caso de Mia Farrow só pode ser visto como mais uma grande injustiça. Paulo Lopes


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura.

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