MÚSICAS DA SEMANA

#209

com

Terrakota

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Escolhas de Terrakota

Bob Marley - Concrete Jungle

Pouca gente tem o dom que Bob Marley teve para a canção. Não poderia faltar uma música dele, o difícil é escolher. Concrete Jungle vem do álbum Catch a Fire, que trouxe o psicadelismo do rock de 70 introduzido pelo produtor Chris Blackwell,  ainda com groove dos Wailers originais, com o Peter Tosh e o Bunny Wailer e fala de uma “selva de cimento” que cresce tipo geração espontânea.

Fela Kuti - Zombie

Pai do afro-beat. Está na nossa escolha por ser um músico que para além de ter uma forte mensagem política na sua música, vive totalmente a sua mensagem. Zombie é uma crítica ao exército tão forte que, meses depois de ser lançada, em 76, os militares Nigerianos queimaram a sua casa/sala de espectáculos e atacaram  brutalmente as muitas pessoas que lá viviam.

Sierra Leone Refugge all Stars - Bull to the weak

Uma banda única no panorama musical da world music. Formaram-se em 1998, num campo de refugiados na Guiné Conacri fugidos da sangrenta guerra que explodiu na Serra Leoa na mesma década. A partir das experiências e traumas fortes que carregaram consigo, começaram a surgir canções que partilhavam em grupo à volta de uma fogueira em serões nocturnos no campo de refugiados. Desses serões de partilha e cura colectiva, nasceu a ideia de formar o grupo e de começarem a fazer concertos em diversos campos de refugiados com o objectivo de alegrar as pessoas e transmitir uma mensagem de esperança, em busca da cura dos traumas de guerra. Actualmente, após terem sido protagonistas de um documentário com o nome da sua banda que foi vencedor de vários festivais internacionais de cinema documental, actuam por todo o mundo e após a paz ser restabelecida na Serra leoa voltaram para casa e já gravaram quatro álbuns. Este tema é uma análise muito real e simples do que está na origem das grandes guerras civis… as diferenças sociais e os constantes jogos de poder.

Jimi Hendrix - Voodoo child

No fundo, nós, músicos de Terrakota, crescemos a ouvir Rock, entre muitas outras coisas, mas muito Rock, de todos os tipos. Muitos génios lançaram músicas fenomenais durante o “período hiper fértil” ( anos 60 e 70),  mas perante o dilema de escolher um, tem ser o Jimi Hendrix. Dono de um feeling e liberdade criativa incrível, reinventou muitos blues negros antigos com a electricidade e pedais de efeito de guitarras, que tinham acabado de surgir na época de uma forma completamente alucinante e única. Voodoo Child é uma das suas grandes pérolas pois passa na perfeição a carga mística que ele pretendia transmitir e tem um fraseado de guitarra que permanece desconcertante a cada escuta. Impossível de descrever! Só ouvindo mesmo…

Irakere - Juana 1600

Banda mítica de Cuba que levava o experimentalismo ao extremo tomando como ponto de partida a sua música tradicional. Este é um tema de fusão dos ritmos yoruba afrocubanos com  jazz psicadélico, cheio de fervor rock e entrega espiritual. Um grande marco da história da música do mundo multifacetada.

Escolhas de José Raposo

Woods - Moving to the Left

Mesmo com álbum lançado este ano, revisitar material mais antigo dos Woods vale sempre a pena. O Verão de 2016 acabou, mas recorda-se aqui o de 2015, que teve direito a duas actuações da banda, no mesmo dia, em Paredes de Coura. Se a obra mais recente é porventura mais acessível, também é mais musculada no que concerne a arranjos e letras. “We speak in tongues to hold the shame” serve, aqui, de perfeita descrição para aqueles momentos em que se quer falar de prazeres musicais “proibidos” e a melodia do coda final colocam “Moving to the Left” entre as melhores canções dos Woods.

Death in June - But, What Ends When The Symbols Shatter

O projecto neofolk de Douglas P.(earce) actua amanhã no Porto, depois de cinco anos de ausência de território nacional. Por entre a imagem provocatória e as letras niilistas, de profundo pessimismo e certa misantropia, encontra-se reflexão filosófica sobre as instituições, os símbolos e a própria História – e as pilhas de cadáveres que os desvarios à esquerda e à direita nos deixaram. “But, What Ends When The Symbols Shatter” traz-nos interrogações sobre a apatia e a anomia de quem olha demasiado para cima e se esquece de que tem alma e cabeça para pensar, vivendo numa eterna desilusão. Para pessoas sem histerias, queixinhas, preconceito e ignorância.

Kangding Ray - Amber Decay

A semana não pode ser só lo-fi e guitarras acústicas, portanto aqui fica um pouco de pedal. O negrume de “Solens Arc”, álbum no qual se insere esta “Amber Decay”, acaba por consubstanciar, sem quaisquer letras, só mesmo com a intensidade da sonoridade, uma versão electrónica dos Death in June – o Fernow que nos desculpe, mas a berraria e o noise não são marca registada dos Death in June.  Abrasividade dançável a quatro tempos, suficiente para transformar um estado de espírito numa manhã que tenha começado sonolenta – e enfrentar o dia com uma lixa na alma.

Miles Davis - All Blues

Há quatro dias atrás passaram vinte e cinco anos da morte de Miles Davis, um dos grandes que definiu a música do século XX. Numa carreira longa e profícua muito haveria por escolher, mas preferiu-se um pouco de “Kind of Blue”, disco fundamental para quem queira ouvir música – sim, apenas e só música. Composição relativamente simples, tem o protagonismo equitativamente repartido: ligeiro crescendo, Davis na dianteira solando com o seu trompete, seguido da dupla de saxofonistas Julian “Cannonball” Adderley (saxofone alto) e John Coltrane (saxofone tenor) e, por fim, o piano de Bill Evans. Pela quantidade de Deuses da música presentes e pelo óbvio resultado final e por ser parte integrante de uma obra seminal da música popular, “All Blues” merece ser ouvida sempre que se puder, nas melhores condições possíveis.

John Coltrane - Part II - Resolution

Falava-se acima de John Coltrane? Pois bem, no dia 23 de Setembro comemoraria noventa anos. Morreu novo, mas deixou-nos tanto material que parece que ainda hoje edita música nova; deixou, também, uma família de talento: a mulher, Alice (1937-2007), e o filho, Ravi, eles próprios autores de relevo. Se com Miles Davis falámos de “Kind of Blue”, com Trane falamos de “A Love Supreme”, outro álbum que fez a música do século XX. Aqui deixamos a segunda peça, “Resolution”, na qual Coltrane, enviado por um poder superior, desfila a sua afeição por modos musicais e confirma ser o único proprietário das suas convenções melódicas no saxofone tenor – tudo devidamente acompanhado pelo bom gosto do piano de McCoy Tyner, pela paradoxal truculência sóbria da bateria de Elvin Jones e, lá ao fundo, um discreto Jimmy Garrison. Em 1965, John Coltrane era já um sacerdote que tinha o saxofone por paramento e que acreditava que a música era religião e não mercadoria tipo sabonetes.

Escolhas de Hugo Rodrigues

Brand New – Degausser

Esta semana serviu para voltar a pegar num dos meus discos preferidos, o The Devil And God Are Raging Inside Me, dos Brand New, e ouvi-lo de uma ponta à outra várias vezes. A escolha desta música acaba portanto por ser um bocado aleatória, mas serve para representar o conjunto.

Nine Inch Nails – Every Day Is Exactly The Same

E não é?

A Perfect Circle – Pet

Andava já há algum tempo para recordar o Thirteen Step dos A Perfect Circle, e foi esta semana. A Pet continua a minha preferida.

dredg – Ode To The Sun

O Verão em Outubro.

Mogwai – How To Be A Werewolf

A explicação acaba por ser sempre a mesma: Hardcore Will Never Die, But You Will. Isso, e a minha farta barba, nem preciso da lua.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura.

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