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The Wolfpack
Título Português: The Wolfpack | Ano: 2015 | Duração: 90m | Género: Documentário, Comédia, Drama
País: EUA | Realizador: Crystall Moselle | Elenco: Bhagavan Angulo, Govinda Angulo, Jagadisa Angulo

O que se passa para lá das paredes e dos vidros que separam um lar da Humanidade é, por vezes, tão distante da nossa realidade que até parece ficção. A história de The Wolfpack, estreado em Portugal no festival Porto/Post/ Doc, remota a 2010 quando a realizadora Crystal Moselle se viu fascinada por aquele grupo de rapazes em plena Nova Iorque, os irmãos Angulo – protagonistas em pé igualdade do documentário-sensação de 2015. A amizade aproximou-a do grupo e a paixão pelo cinema revelou a história da sua infância: catorze anos vividos em clausura ditada pelo pai, em que apenas os filmes que passavam na televisão mostravam a vida lá fora.

Aprenderam cenas que recriam de memória de clássicos como Reservoir Dogs (1992) ou Batman, dão fruto à imaginação e fabricam os próprios fatos, constroem com as suas mãos réplicas das armas tão presentes na filmografia de Hollywood. Eles próprios parecem saídos de um argumento ficcional, com os seus cabelos compridos, de fato e gravata em acima do tamanho, e de óculos de sol que escondem algumas fragilidades (e revelam extrema timidez).

O documentário viaja pela sua intimidade, recuperando vídeos e fotografias do acervo familiar, e permite-nos assistir esses momentos em que encenavam os filmes mais amados.

É uma história de emancipação, sobretudo. Percebemos como foi desafiar a autoridade parental e explorar a vida fora do apartamento. De sorriso rasgado, ouvimo-los relatar a primeira saída, aquela que permitiu o lento regresso à (nossa) normalidade, os desafios que se colocaram e a necessidade de adequação ao mundo. Torna-se demasiado fácil encontrar o vilão: um pai vê a corrupção e a depravação do indivíduo dentro do colectivo e que sucumbe ao vício. Incute o medo na família e usa da força para mudar vontades, mas vê-se incapaz de privar os filhos do oxigénio da alma: a liberdade.

A realizadora acompanha os rapazes no seu processo de transição e integração social, em que o mais velho encontra o seu lugar no mundo como cineasta e – mais importante ainda – a sua própria casa, fora do apartamento em que cresceu.

O filme é extremamente enternecedor por nos mostrar a vitória das “personagens” oprimidas – o little guy. À medida que se revelavam as diferentes camadas, surgem os sentimentos que não consigo ainda traduzir. Nem sei ainda o que pensar sobre tudo o que assisti, sobretudo por considerar a situação demasiado surreal para ser verdade.  No fundo, assistimos a um fenómeno que resvala o senso-comum e o que o olhar amador não pode explicar – ou sequer compreender! -, pelo isolamento a que os jovens foram sujeitos e pela forma deturpada que os pais encaram o mundo.

Mas apesar de todo o afastamento que marcou a infância dos rapazes, só pelo espírito e a bondade que nos revelam, saí da sala com a enorme certeza de que os super-heróis existem.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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