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The Nightmare Before Christmas
Título Português: O Estranho Mundo de Jack | Ano: 1993 | Duração: 76m | Género: Stop motion, Musical
País: EUA | Realizador: Henry Selick | Elenco: Danny Elfman, Chris Sarandon, Catherine O'Hara, William Hickey, Glenn Shadix, Paul Reubens, Ken Page, Ed Ivory

“It was a was a long time ago, longer now than it seems / In a place that perhaps you’ve seen in your dreams / For the story that you are about to be told / Took place in the holiday worlds of old /Now you’ve probably wondered where holidays come from / If you haven’t, I’d say it’s time you begun …”

Assim começa a singular animação musical em stop motion que para sempre ficará associada à imaginação e ao génio criativo de Tim Burton – o autor da história e responsável pela produção e desenho das personagens. A história vem de um pequeno poema que Burton escreveu em 1982, depois de observar a desmontagem de uma montra decorada para o Halloween, para montagem da montra de Natal. Na altura, trabalhava como animador na Disney e acabava de lançar a sua primeira curta-metragem animada – o delicioso Vincent, narrado por Vincent Price, o seu actor favorito. Dois anos mais tarde, estreava Frankenweenie (1984), uma curta com contornos autobiográficos acerca de um cão atropelado que é ressuscitado pelo dono (a história teve direito a um remake em stop motion o ano passado); a Disney achou o argumento demasiado sombrio para o público jovem, motivo que levou os estúdios a dispensar os serviços de Burton. No entanto, o estúdio já adquirira parte dos direitos da história de The Nightmare before Christmas, conto que encarava com igual estranheza. O projecto foi mantido em stand-by até ao início da década de 90, altura em que, na sequência do sucesso de Beetlejuice (1988) e Batman (1989), a Disney começou a ponderar o financiamento. Tim Burton regressou para fazer o filme (cuja produção decorreu de 1990 a 1993) e apenas não pode dirigi-lo por motivo de conflitos de agenda (encontrava-se a filmar Edward Scissorhands e, logo de seguida, Batman Returns). A realização foi por isso entregue a Henry Selick (um veterano na técnica de animação utilizada), mas toda a produção se manteve a cargo de Burton, que se rodeou de profissionais da sua confiança: o poema foi adaptado por Michael McDowell (argumentista de Beetlejuice), o argumento foi escrito por Caroline Thompson (co-autora de Edward Scissorhands), a banda-sonora foi composta por Danny Elfman (autor das bandas-sonoras dos seus filmes, empresta ainda a sua voz cantada ao protagonista). O resultado final continuou a não preencher os critérios da Disney, que lançou o filme com a chancela da Touchstone Pictures por considera-lo “demasiado assustador para crianças”. Hoje, porém,The Nightmare before Christimas, é um filme de culto.

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Quem conhece o trabalho de Tim Burton saberá que a maioria das suas obras é pautada por aspectos autobiográficos, e não ficará surpreendido por saber que o Halloween é o seu feriado preferido. Muitos advogam que Edward terá sido criado à sua imagem (a criança solitária e incompreendida que Burton terá sido), outros que Jack Skellington, o herói da sua sui generis fábula de Natal, representará o seu subconsciente melancólico. The Nightmare before Christimas reflecte um sonho convertido em pesadelo onde Jack (voz de Chris Sarandon) é o carismático líder de um lugar distante povoado por fantásticas e macabras criaturas, onde é organizada a festa mais assustadora do ano: o Dia das Bruxas. Apesar de venerado na sua comunidade, o espírito curioso de Jack está cansado de assombrações, sustos e pesadelos: o homem-esqueleto de coração enorme enfrenta uma crise existencial e ele anseia por algo novo. Durante um passeio meditativo na companhia de Zero, o seu fiel cão-fantasma, ele descobre a Cidade do Natal, fica encantado com a felicidade dos seus habitantes, com as cores, sons e cheiros (tão alegres e tão diferentes dos que conhece) e é tomado de assalto pelo chamado “espírito natalício”. Decide então raptar o Pai Natal e apropriar-se do feriado de 25 de Dezembro, criando uma versão do Natal, no mínimo, idiossincrática. No entanto, apesar do entusiasmo de Jack, nem ele nem os seus dedicados súbditos, habituados a sustos e partidas, entendem o espírito do Natal. Apenas Sally (voz de Catherine O’Hara), a boneca de trapos criada pelo Dr. Finklestein, cientista louco da Cidade do Halloween, percebe que as boas intenções de Jack poderão ter consequências desastrosas…

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The Nightmare Before Christmas é um trabalho extravagante, técnica e artisticamente imaculado, que permanece arrebatador apesar dos seus 20 anos: É uma obra-prima. O processo stop motion é de extrema minúcia, é necessário ver o filme várias vezes para devidamente apreender todos os pormenores na caracterização de cada personagem e de cada cenário. A utilização da cor e seus contrastes estabelece a ambiência certa de cada secção do filme, alternando uma Cidade do Halloween escura e monocromática com um ambiente de Natal risonho e multicolorido. A banda-sonora é um dos melhores trabalhos de Danny Elfman – colaborador de longa data de Tim Burton – que escreveu canções inesquecíveis, com acordes que encaixam como peças de um puzzle na sombria narrativa. As personagens são adoráveis, não apenas do ponto de vista do desenho (da autoria de Tim Burton) mas da sua construção psicológica: Jack é, provavelmente, o monstro de coração de manteiga mais humano do cinema, bem-falante e com uma palete completíssima de afectos, frustrações, e desassossegos. A humanização de personagens quiméricas (como esqueletos, monstros, vampiros e bonecas de trapos), atribuindo-lhes comportamentos e valores apelativos para o universo infantil (a curiosidade, o espírito de aventura, a amizade, o companheirismo) retira-lhes o seu potencial “assustador”, apesar do negrume do conto. Mas subtilmente, o habitual humor negro de Burton aflora ainda a pertinência filosófica dos festejos natalícios (deliciosa, a sequência em que Jack faz experiências com base no método científico para encontrar a lógica do Natal), satiriza a vassalagem política (fabuloso, o prefeito de duas caras que segue Jack para todo o lado), critica a violência gratuita (os humanos a disparar contra Jack na noite de Natal). O enredo, sinistro mas encantador, consubstancia todo o universo gótico de Tim Burton, presente na maioria dos seus trabalhos – que poderiam ser definidos como filmes de terror para crianças ou, de um ponto de vista mais analítico, como formas de desdramatizar a questão da morte ou o mundo dos mortos aos olhos da infância.

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O Natal de Jack não corre como ele sonhou, mas em contrapartida, ele entende e abraça a sua verdadeira vocação (“I am the Pumpkin king!”), voltando para casa e para os braços de Sally – para a Cidade cinzenta do Halloween, onde, em celebração do Natal, neva pela primeira vez. Jack e o Pai Natal fazem as pazes e trocam cumprimentos – “Happy Halloween!”. “Happy Christmas!” – demonstrando que universos opostos podem não ser necessariamente incompatíveis… tal como a infância e a vida adulta. Se às crianças é permitido saborear aqui um espaço de fantasia, aos adultos são oferecidos os pormenores o subtexto: É um filme perfeito para todas as idades. E para todos os Natais. A mensagem essencial, como noutros filmes de Tim Burton, diz-nos que o mais importante é não desistir nunca dos sonhos absurdos, são esses que conservam a criança em cada adulto e permitem manter um certo pensamento mágico, sem o qual a vida não teria a mesma graça.

“And finally, everything worked out just fine. Christmas was saved, though there wasn’t much time / But after that night, things were never the same – Each holiday now knew the other ones’ name (…) So many years later I thought I’d drop in, and there was old Jack still looking quite thin (… ) And I asked old Jack, “Do you remember the night when the sky was so dark and the moon shone so bright? (…) And would you, if you could, turn that mighty clock back / to that long, fateful night, now think carefully, Jack. / Would you do the whole thing all over again, knowing what you know now, knowing what you knew then?”/ And he smiled, like the old Pumpkin King that I knew, then turned and asked softly of me:

“Wouldn’t you?”


sobre o autor

Edite Queiroz

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