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The Lobster
Título Português: A Lagosta | Ano: 2015 | Duração: 119m | Género: Distópico, Comédia, Drama, Sci-fi
País: Grécia, Irlanda, Holanda, França, Reino Unido | Realizador: Yorgos Lanthimos | Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Jessica Barden

Se citarmos a expressão It’s a match, é provável que a primeira palavra que venha a cabeça seja Tinder (para quem não sabe, uma famosa plataforma de engate pelo telemóvel). Pois bem, esta é a frase que encaixa que nem uma luva a The Lobster. Só que, definitivamente, por vias pouco simpáticas.

Estamos no futuro (próximo?). Um futuro que não admite solteiros. Quem está sozinho vai para um estranho hotel (prisão?), com poucos dias para encontrar uma alma gémea. É o que sucede com David (Colin Farrell), o nosso protagonista, após uma longa relação de 11 anos. E a solidão é o demónio, com consequências fatídicas: quem não encontra par, é transformado num animal. O irmão Bob já é um cão, David pretende ser uma lagosta.

O filme parece bizarro, mas só o é em parte. Há condimentos realistas muito particulares, na linha do melhor cruzamento entre o quotidiano e a ficção científica. Toda a construção do hotel é um esmero e sentimos, com impacto, toda a lavagem cerebral, como nas encenações para mostrar aos hóspedes as vantagens de estar acompanhado. Pelo meio, por mais diferentes que sejam os filmes, parece haver, no claustrofóbico jogo de planos de uma perseguição, uma curiosa homenagem a The Shining.

The Lobster é realizado pelo grego Yorgos Lanthimos. Tal como no perturbador Canino, que também estreou em Portugal, este volta a ser um retrato duro sobre as convenções sociais, o falso conservadorismo e o controlo absoluto sobre a individualidade. Só que troca a escala familiar por um plano mais alargado, mais centralizado (Big Brother is watching you…). E fica também na retina a inspecção no centro-comercial…

Este é, assim, um filme distópico em que as relações sentimentais são francamente controladas. Não basta arranjar uma companhia, é preciso que ela seja… compatível. E essa compatibilidade surge, como vamos observando ao longo do filme, com contornos muito especiais, perversos e perfeitamente instalados na cabeça destes seres humanos. Ou do que resta de humanidade.

Para além da força da história, The Lobster tem uma banda-sonora escolhida a dedo, entre Nick Cave & Kylie Minogue, Marc Almond e música clássica com contornos sinistros, e reúne um elenco ultra-coeso. Colin Farrell é uma grande surpresa neste papel marcado por uma contenção psicológica muito forte. Há ainda Léa Seydoux, John C. Reilly e Rachel Weisz. Ou os mais desconhecidos Michael Smiley (em evidência num dos episódios de Black Mirror) e Ben Whishaw (Q do último 007).

Canino era um belo filme que desperdiçava alguns méritos numa componente excessivamente burlesca e bizarra. Embora com menor impacto, pode acontecer o mesmo em The Lobster quando muda de habitat, após uma primeira parte quase imaculada. Perde-se algo, mas muito pouco. É uma das grandes estreias do ano e, depois de Son of Saul, confirma-se o esperado: os irmãos Coen deram os dois lugares mais baixos do pódio do Festival de Cannes 2015 a grandes filmes. Falta a Palma de Ouro. Falta ver Dheepan, de Jacques Audiard.


sobre o autor

Joao Torgal

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