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The Doors
Título Português: The Doors: O Mito de uma Geração | Ano: 1991 | Duração: 140m | Género: Biopic
País: E.U.A. | Realizador: Oliver Stone | Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kevin Dillon, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan

Oliver Stone sempre foi um realizador controverso. Acumulando funções de produtor, actor, argumentista, para além de trabalho de edição e cinematografia, o seu nome é habitualmente associado a histórias verídicas, como Nixon, JFK ou Born on the 4th of July ou semi-verídicas como Natural Born Killers, Wall Street,Platoon ou Any Given Sunday. The Doors foi lançado em 1991 e é, até hoje, um dos melhores filmes do realizador, retratando a mítica banda americana The Doors.

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O filme acompanha a história de Jim Morrison desde os dias na UCLA a estudar cinema até à sua morte em Paris em 1971. Atravessa os principais momentos da banda, sobretudo os que estão envoltos em controvérsia: o comportamento rebelde de Jim, a conturbada relação com Pamela, o relacionamento entre Jim e cada um dos membros da banda, a dinâmica com Patricia, as drogas, a música, a poesia e todo o misticismo que envolve a banda e o vocalista.

Stone é um realizador imponente que consegue cativar o espectador desde os primeiros instantes. Goste-se ou não, ninguém é indiferente aos seus filmes e a toda a violência e sexualidade que os percorrem, quase como se uma besta tivesse sido libertada no momento em que a tela se abre. Precisamente por essa razão, Stone foi o realizador perfeito para dar vida ao filme sobre uma das maiores e mais místicas lendas do mundo da música: The Doors. Com mãos de mestre percorremos os momentos chave de cena em cena, saboreando todo o percurso, quer do lado público, quer do lado privado.

O filme abre com um momento da infância de Jim Morrison, que ficaria para sempre gravada na sua memória e que – em última instância – o definiria. Reza a lenda que o nome The Doors foi inspirado na célebre frase de William Blake If the doors of perception were cleansed, everything would appear to man as it is: infinite!. Na bela cena da praia entre uns jovens Morrison e Ray Manzarek, Stone traz-nos essa mesma citação antecipando o início de todo o mito.

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O começo da banda foi meteórico, quer o momento de criacão de Light My Fire da autoria de Robby Krieger, mas creditada a todos, que se tornaria um dos maiores êxitos da banda, quer a rápida gravacão em estúdio, quer a ida ao deserto, quase em peregrinacão numa busca de inspiracão, quer a emissão televisiva em que Morrison – depois de ter sido explicitamente pedido à banda – profere em directo a palavra “higher” do verso “we couldn’t get much higher” e que dá início a toda a controvérsia que rodeia os rodeia e que afirmaria The Doors como um símbolo de liberdade, irreverência e misticismo.

Stone mostra um Jim místico, mas também humano. Um ser dividido entre o lado espiritual e todos os prazeres terrenos, que mais do que qualquer outra coisa almeja atingir um nirvana, uma transcendência que muitas vezes são justamente os sentidos que desbloqueiam, como a frase inicial de inspiração para o nome da banda indica. Stone mostra os dois lados: o lado poético levando ao endeusamento e também os vícios, as traições, o lado menos místico e mais terreno de prazeres e pecados. Stone mostra um homem que tenta, acima de tudo, encontrar-se e encontrar aquela paz a que tanto se aspira. Mostra a morte, sempre presente, como certeza última, tão central em toda a poesia e letras de Morrison. Outro ponto importante que é bem focado por Stone é a união e ligação entre todos os membros dos The Doors que, mesmo com atribulações, se conseguiu manter ao longo de todo o tempo.

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As imagens e a música estão perfeitamente alinhadas, tornando o filme muito cativante, sobretudo para fãs dos The Doors. A cena entre Jim e Patricia, após a saída da prisão, está particularmente bem conseguida, com a When The Music’s Over como pano de fundo. Parece que cada tema foi escolhido para o momento exacto como Back Door Man num dos concertos ou a escandolosa The End na primeira vez que a tocam ao vivo. Ou, ainda, a maneira como Love Street começa a ser passada em off envolvendo-nos naquela cena entre Jim e Pamela.

O trabalho de caracterização é brilhante e todas as personagens estão muito parecidas com as pessoas que interpretam, nomeadamente Val Kilmer que se assemelha extraordinariamente a Morrison. As interpretações são notáveis e o filme não cai em maneirismos – apesar de todo o drama que acompanha a relação entre Jim e as mulheres da sua vida – mantendo-se tão actual ontem como hoje. Mais uma vez, Kilmer está particularmente extraordinário, pois consegue dar vida a esta lenda, usando toda a sua linguagem corporal, particularmente durante as cenas que retratam concertos.

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Em português chamaram-lhe The Doors: O Mito de uma Geração, nome que se mantém actual e que, mesmo tendo na altura um contexto sócio-político, diria ser o mito de todas as gerações, devido ao som único e místico das músicas da banda com o qual se viaja sem sair do sítio mas que não está associado a nenhuma época em particular, mas sim mais a uma viagem interior; às letras poéticas, que dizem tanto com tão poucas palavras e ao estilo de profeta/poeta/orador do vocalista na maneira de se expressar em cada tema.

Tal como a música do grupo, este não é um daqueles filmes que se experiencie todos os dias – mesmo para quem adore o mito – mas The Doors é um filme ao qual vale sempre a pena voltar, sobretudo para fãs da banda que gostem de ter uma overdose destes acordes tão belos como intensos de tempos a tempos.


sobre o autor

Natália Costa

“Sometimes nothing can be a real cool hand.”

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