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Fai bei sogni
Título Português: Sonhos Cor-de-Rosa | Ano: 2016 | Duração: 234m | Género: Drama, Romance
País: Itália | Realizador: Marco Bellocchio | Elenco: Bérénice Bejo, Valerio Mastandrea, Fabrizio Gifuni, Emanuelle Devos, Barbara Ronchi, Nicolò Cabras, Dario Dal Pero

Num dos vários episódios desconexos da autobiografia do jornalista e escritor Massimo Gramellini que Marco Bellocchio decidiu incluir na sua adaptação cinematográfica de Fai bei sogni, a personagem de Massimo adulto (Valerio Mastandrea) encontra-se na Sérvia a cobrir a guerra dos Balcãs e desloca-se a uma casa onde uma mulher jaz morta no chão. O fotógrafo do grupo vai à divisão vizinha buscar, sentada numa cadeira a jogar numa consola portátil, uma criança que, precisamente devido ao alheamento face à tragédia, irá abrilhantar a sua fotografia. Esta é a melhor metáfora para um filme que, na tradição de Bellocchio, pretende retratar os traumas familiares da infância do seu protagonista, para, num género de confissão rousseauniana, desculpar a sua apatia adulta. O retrato construído pelo realizador não é, no entanto, capaz de cumprir o seu intento, viajando entre uma realidade pouco verosímil e uma ficção pouco cativante durante mais de duas horas.

Desde a morte da sua mãe que Massimo se refugiara na negação e na construção de figuras imaginárias e, em adulto, a sua insensibilidade face aos amigos e mesmo ao trabalho são justificados pelo estado emocionalmente frágil revelado à revelia do protagonista. Os primeiros minutos de Fai bei sogni, passados nos dias que antecedem a morte da mãe (Barbara Ronchi) são auspiciosos, em especial devido à brilhante interpretação de Massimo enquanto criança (Nicolò Cabras). Daí, a narrativa parte, com avanços e recuos, para cerca de trinta anos depois, nos anos noventa. Segue-se um excessivo número de episódios desconexos que vão desde o momento, após a morte do pai, em que Massimo volta a Torino para esvaziar a casa de infância, até à sua vida de jornalista em Roma, ou à reportagem na Sérvia. Muitos capítulos seriam escusados, por não ser imediato aquilo que acrescentam à descrição de Massimo e do seu trauma, enfadonhamente presente. Ao tentar descrever demasiado, Bellocchio põe em causa da unidade de um filme que, independentemente do curso do livro que adapta, teria ganho muito em se afastar da obsessão do seu protagonista.

A cena da carta sobre o ódio a uma mãe a que Massimo é chamado a responder e a publicar no jornal é, de longe, a mais escusada do filme. Não fora a corrosiva reacção da mãe realmente visada pela missiva original e a consequente ridicularização da resposta do jornalista, o caldo estaria irremediavelmente entornado. O jorro de respostas melosas com que Massimo terá de lidar vem acentuar o caricato da situação: um homem adulto indiferente à ambição como à miséria humana, mas que sofre ataques de pânico ao recordar a mãe e que, para justificar o seu amor, tem a falta de bom senso de poetizar a figura materna dos outros, no abstracto.

Este conto de fadas invertido termina quando, quase trinta anos após a morte da mãe, Massimo descobre a sua verdadeira causa, para grande espanto dos espectadores que desde o início a adivinhavam. Ainda assim, e agora sem surpresas, a imaturidade com que lida com a situação, passados tantos anos, é desconcertante e nem a presença de Elisa (Bérénice Bejo) consegue aliviar o desconforto sentido deste lado do ecrã.


sobre o autor

Ana Ferraria

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