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Searching for Sugar Man
Título Português: À Procura de Sugar Man | Ano: 2012 | Duração: 86m | Género: Documentário
País: Reino Unido, Suécia | Realizador: Malik Bendjelloul | Elenco: Sixto Rodriguez

No início da década de 70, um cantor norte-americano de ascendência mexicana grava dois álbuns – Cold Fact (1970) e Coming from Reality (1971) – que, apesar de mal sucedidos nos EUA, são um sucesso estrondoso na África do Sul, tornando as vendas dos seus discos superiores às dos Rolling Stones e o seu nome mais sonante do que o dos Beatles ou dos Doors. Os discos de Sixto Rodriguez chegam a África do Sul na altura do apartheid e as suas canções transformam-se rapidamente em hinos de contestação para os jovens opositores ao regime, sendo por isso censuradas. A popularidade de Sixto é também alimentada pelo facto de ser uma figura estranha e envolta no mais completo mistério; sem o auxílio da Internet e perante a total ausência de informação sobre o homem (do qual apenas se conhecia o nome e as fotos na capa dos discos), proliferaram entre os fãs os mais variados mitos. Que se teria suicidado, que se teria imolado em palco depois de um concerto, que teria dado um tiro na cabeça. Searching for Sugar Man acompanha a procura de dois fãs acérrimos pelo seu ídolo e revela o que realmente aconteceu a Rodriguez depois dos únicos discos gravados; ao encontrá-lo, no final dos anos 90, convencem-no a dar uma série de concertos em grandes salas sul-africanas; os espectáculos rapidamente esgotam; graças à busca persistente destes dois homens, Rodriguez teve uma segunda oportunidade nos palcos obtendo finalmente um reconhecimento global.

O documentário do sueco Malik Bendjelloul é uma oportunidade dourada para conhecer os contornos de uma biografia em que a realidade é realmente superior à ficção, de tão curiosa e comovente. A carreira de Rodriguez é engolida pelos imperativos da indústria discográfica americana (cujos cofres secretamente engordam às custas das vendas dos discos no outro continente) e ele acaba por abandonar a música, sem qualquer ressentimento pelo fracasso das vendas nos Estados Unidos. Dedica-se à construção civil, à família e às causas sociais da comunidade onde vive até hoje. Mantém-se politicamente activo e concorre até a presidente da câmara na década de 80. Não teve, até ao final dos anos 90, qualquer noção da sua fama do outro lado do Atlântico nem fica deslumbrado quando se apercebe dela. O regresso à carreira musical permite-lhe ganhar muito dinheiro, que distribui pelas filhas e pelos amigos próximos, já que de pouco precisa para viver. Habita a mesma casa há 40 anos, num quotidiano muito simples, sem qualquer luxo, computador, carro ou televisão. No momento em que o filme arrebatou o Óscar de melhor documentário em 2013, Rodriguez estava a dormir.

Aproveitando a mística em torno de um homem que permaneceu várias décadas na neblina, Malik Bendjelloul soube articular de uma forma harmoniosa a investigação do seu paradeiro com uma dimensão  afectiva, de contacto com o cantor e a sua família. Composto de testemunhos, reconstituições encenadas e animações (já que o material de arquivo era escasso), o filme tem uma composição feliz, aos poucos reveladora, desvendando uma figura enigmática e doce; a sua imagem é gradualmente construída através das palavras de quem o conheceu, de quem só muito tarde o encontrou, das filhas e sobretudo das letras das suas canções, que acompanham o filme e denunciam o espírito criativo e crítico de um autor que chegou a ser comparado a Bob Dylan. A verdade é que Rodriguez não seria um perfeito desconhecido no seu país – ainda que a sua popularidade em nada pudesse comparar-se à alcançada na África do Sul – mas qualquer documentário é uma visão inevitavelmente parcial. O seu poder reside na capacidade de cativar através da parte que se toma pelo todo, e esta narrativa tem decerto outras versões, tantas quantas as fantasias sul-africanas sobre a morte do homem. De qualquer forma, há algo que convence: independentemente das variantes da história, de eventuais discrepâncias e de todos os detalhes que necessariamente ficaram de fora, dificilmente há divergências no que respeita à natureza enternecedora do protagonista.

Apesar da idade e de estar praticamente cego, Rodriguez continua a dar concertos, tendo cerca de uma dúzia de bandas de apoio espalhadas pelo mundo (nunca teve a sua própria banda). Continua a viver pacatamente em Detroit, dedilhando melodias na guitarra. A sua prioridade é tocar ao vivo enquanto a idade permitir. Humildemente, os fãs agradecem. A Rodriguez e a Malik Bendjelloul, pela maravilhosa celebração de tão rica história de vida.

Filme disponível na plataforma de streaming Filmin.pt


sobre o autor

Edite Queiroz

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