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Olmo e a Gaivota
Título Português: Olmo e a Gaivota | Ano: 2014 | Duração: 82m | Género: Documentário
País: Dinamarca, Brasil, Portugal, França, Suécia | Realizador: Petra Costa, Lea Glob | Elenco: Olivia Corsini, Serge Nicolaï

Para Petra Costa e Lea Glob, falar de maternidade – do que realmente se passa na cabeça de uma mulher perante a maternidade – é um tabu milenar. A intenção inicial das realizadoras seria acompanhar a actriz Olivia Corsini (da companhia parisiense Théâtre du Soleil) durante a exibição da peça A Gaivota, de Tchekhov, mas pouco antes do início das gravações, Olivia descobriu que estava grávida – uma gravidez de risco que implicaria deixar os ensaios e permanecer em casa durante os nove meses de gestação. Perante a notícia, Petra Costa e Lea Glob optaram por continuar a acompanhá-la no seu novo papel, e assim a actriz Olivia Corsini acabou por interpretar a mulher Olivia Corsini durante a gravidez do primeiro filho. Foi o ponto de partida para uma análise inesperada da psique de uma mulher perante uma condição que em todas as sociedades e culturas se mistura com a própria identidade feminina.

Olivia é casada com Serge Nicolai, colega de profissão e de elenco n’ A Gaivota. Este continua a trabalhar na peça, e de resto a fazer a sua vida com normalidade, deixando-a sozinha no apartamento que partilham em Paris. Numa solidão marcada – que nunca deixa de o ser, apesar das conversas (por vezes discussões) com Serge ao final do dia – Olivia percebe que não consegue sentir o processo como natural. A ambivalência instala-se: ela não tem dúvidas sobre a sua vocação mas vê-se na antecâmara de um papel permanente que é sentido como silenciador da sua liberdade e talento; um papel que a paralisa, que a impede de viver e de representar, no qual está necessariamente sozinha. Na frustração de ter que abandonar A Gaivota, ela pensa na suaArkadina, a actriz em decadência com uma atribulada relação com Trigorin (interpretado por Serge), como presságio do seu próprio futuro. Durante os nove meses que se seguem, mergulha numa uma travessia dolorosa acentuada pelo isolamento diário: a transformação e limitação físicas, a culpa de sentir que a maternidade lhe é estranha, a tournée da peça em Nova Iorque, o eventual romance entre Serge e a sua substituta, o declínio inevitável da sua carreira. Para Olivia, ser mãe implica o abandono de tudo o que já foi, e nesse sentido, a sua gravidez é também um processo de luto – que segue mesmo as fases do luto descritas nos manuais de psicologia.

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À primeira vista, o turbilhão emocional de Olívia é consistente com as oscilações hormonais e variações de humor que a ciência refere como típicas desta etapa. Mas poderá o determinismo biológico explicar, para todas as mulheres, as variáveis envolvidas no processo? Movendo-se num território híbrido entre o documentário e a ficção, o filme reivindica um olhar mais apurado da gravidez e da maternidade, recorrendo a um realismo relativo que permite decompor a experiência em muito mais do que o normalmente representado no cinema e demais formas de arte. É certo que a ambiguidade do formato (as realizadoras intervêm várias vezes, dirigindo os actores ou dando indicações para os diálogos) leva a questionar até que ponto Olivia realmente nos mostra o que está a viver ou apenas interpreta uma versão de si mesma. Mas na verdade, a disponibilidade da actriz para o filme é perfeitamente coerente com a dificuldade da personagem em abandonar o processo criativo da actriz para dar lugar a um processo criativo de outra ordem. No entanto, a sua condição não se finge: a realidade começa quando o acto acaba – e se isto é verdade para Olivia, também o é para as realizadoras e para o objecto que tentam investigar. Não deixa por isso de ser um exercício de exposição e de coragem, que desmonta a ideia romântica de que maternidade é intuitiva, ou fácil, ou definidora do que é ser uma mulher. Se hoje a maternidade é uma escolha, é preciso lembrar que qualquer escolha é sujeita aos seus dilemas. Estas e outras questões, directa ou indirectamente formuladas pelo filme (o instinto maternal ou a falta dele, o papel imposto ao homem e à mulher durante a gestação, a forma como as relações são positiva e negativamente afectadas e mesmo os direitos sexuais e reprodutivos, incluindo o aborto), continuam a alimentar o debate e alguma crítica inflamada (o já muito comentado vídeo “Meu Corpo, Minhas Regras“, nascido para responder às críticas mais ferozes, foi justamente idealizado a partir dessas questões).

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Antes de mais, estamos perante a imersão numa experiência de mudança de vida cuja figura central se debate por compatibilizar aspectos antagónicos da sua autopercepção – o Olmo (a solidez, as raízes, a constância) e a Gaivota (a independência, a liberdade, a ambição). É evidente que se trata de uma experiência individual, com as suas especificidades e sujeita a interferências que lhe retiram pureza, no entanto, não seria possível de outra forma contar a história desta gravidez, com todos os seus altos e baixos e aspectos menos belos (pode até intuir-se que as reacções de Olivia seriam apenas mais extremadas na ausência das câmaras). Pode-se gostar ou não de Olmo e a Gaivota como objecto fílmico, mas não há como negar que se trata de um trabalho agitador de consciências, que chama à atenção, entre outras coisas, para a relativa invisibilidade da concepção feminina da maternidade e respectivas vivências, diversas e multideterminadas. Este é o cinema que faz falta – aquele que, incomodando, nos desdobra o pensamento.


sobre o autor

Edite Queiroz

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