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Muvi Lisboa 2015 – The Damned: Don’t You Wish That We Were Dead
Título Português: The Damned: Don’t You Wish That We Were Dead | Ano: 2015 | Duração: 110m | Género: Documentário de música
País: Estados Unidos | Realizador: Wes Orshoski | Elenco: David Vanian, Captain Sensible, Rat Scabies, Brian James

A tarde era dedicada (e bem) ao punk, ainda que a sobreposição de horários não tenha ajudado (um ponto a rever pela organização), tendo de se abandonar um documentário ainda a decorrer e a apanhar outro já em exibição, não havendo necessidade de o fazer. Constituindo a tarde de dia 4 de Dezembro a oferta do Muvi dedicada ao punk, vimos outra proposta (bem escolhida) da organização: The Damned: Don’t You Wish That We Were Dead, de Wes Orshoski, sobre os lendários The Damned, banda britânica da primeira vaga do punk do Reino Unido.

Os The Damned são uma das quatro principais bandas dessa mesma vaga original, a par dos Clash, dos Buzzcocks e dos Sex Pistols, tendo sido os primeiros a editar em disco a sua obra, o single da monumental “New Rose”, editado pela Stiff a 22 de Outubro de 1976; também o seu álbum de estreia “Damned Damned Damned”, de 18 de Fevereiro de 1977, foi o pioneiro em matéria de longas durações das quatro grandes do punk britânico. A sua formação original é, talvez, a melhor, tal a combinação de talento: Brian James (Brian Robertson), Dave Vanian (David Lett), Captain Sensible (Ray Burns) e Rat Scabies (Christopher Millar). Com a saída de James e a passagem de Sensible para a guitarra, estas duas formações são as mais consensuais e que melhor representam o esplendor de uma banda como os The Damned, influente até dizer chega: desde Fred Armisen até Ian MacKaye, passando por Dexter Holland, todos eles citam a pegada dos Damned na sua obra. Também fica registada a passagem de Lemmy dos Motörhead pela banda – intitulada The Doomed – em 1978, prova da imprevisibilidade da banda.

Como em boa parte dos grupos da época, os seus membros trabalhavam em empregos pouco prestigiantes ou andavam a passear pincéis e cavaletes em faculdades de Belas-Artes – destaque para as histórias hilariantes de Captain Sensible enquanto funcionário de uma sala de espectáculos em Londres, que envolvem despiques com colegas mal formados (ou não punks, vá) e dificuldades em desentupir uma sanita; depois desta última, dificilmente se confiará na higiene de muitas cantinas. Vejam o documentário, se quiserem desvendar o mistério.

omo queriam dar uns toques e sentir o pedal da velocidade e o progressivo estava cada vez mais chato e indulgente, lá se juntaram todos, arranjaram a alcunha para o sarnento Christopher Millar (que se tornaria Rat Scabies), e mandaram o progressivo e o glam (este dos London SS, que contavam com Mick Jones, dos melhores de sempre Clash) ao ar. Daí até ao primeiro concerto, a 6 de Julho de 1976, foi um pulo. Isto de sair na pole position tem as suas vantagens, de facto.

Ao contrário da anarquia vácua dos Sex Pistols, da sensibilidade e subtileza dos Buzzcocks e da grandeza musical e obsessão política (nem sempre certeira) dos Clash, os Damned situavam-se algures no meio de todas elas: sem grande consciência política, limitavam a agressividade a algumas letras e ao ritmo, seguindo por um sentido de humor que cruza a rua suja de Londres com a vivência quasi-circense de um punk da época. Mais gozões do que os Clash, mas menos menos desordeiros do que os Sex Pistols – salvo a hilariante e demente digressão de 1979, pelos EUA, na qual a etiqueta foi mesmo de metralhadora.

A primeira parte da obra dos Damned é fundamental para quem queira compreender a primeira vaga do punk; a viragem para paragens góticas deu-se por opção artística e comercial: os veteranos a ouvirem coisas novas, mas a precisarem de uns trocos, nascendo daí canções como “Eloise”. Sobre esta última, uma aparição televisiva revela um Vanian com uma camisa da qual até Jerry Seinfeld se riu – uma pré-puffy shirt.

Contudo, mesmo com toda a sua sede de mudança, os Damned sofrem das mesmas maleitas de muitas bandas de sucesso: problemas internos, zangas por dinheiro (Vanian e Sensible contra Scabies, titular dos direitos de autor do catálogo mais antigo dos Damned), envelhecimento nem sempre misericordioso (a parola pantomina da actual banda de Rat Scabies encheu-nos de vergonha alheia) e alguma desadequação aos tempos e aos modos. Afinal de contas, os Damned também são humanos – no comparativo, os Buzzcocks envelheceram bastante melhor. É, de resto, um dos grandes problemas dos pioneiros do punk: têm agora a mesma idade do que os pioneiros do rock tinham há vinte anos, mas, ao contrário dos primeiros, cristalizaram em muitos casos mal e de forma pouco digna.

Se ao vivo os Damned aparentam estar em boa forma, a imagem levanta algumas dúvidas em matéria de gosto.

Começaram pelo pioneirismo punk, passaram pelo gótico em meados dos oitentas, desceram à irrelevância nos anos noventa e agora jogam no circuito de veteranos, com a idade a mostrar-se e nem sempre da melhor maneira, mas em melhor forma do que muitos dos seus contemporâneos. Certo é que a liderança bicéfala de Sensible (o extrovertido) e Vanian (o contido, menos em palco) acaba por manter os Damned à tona de boa saúde, ainda que longe da dignidade de um Steve Albini ou de um Lee Ranaldo. São felizes assim, contrastando com o azedume de Rat Scabies, para quem parece que foi tudo uma perda de tempo e que quer é que ninguém o chateie, como um J.D. Salinger que só sai para umas digressões com Brian James e para comprar cigarros.

A vida dos Damned continua, para o bem e para o mal. E Wes Orshoski assina uma obra competente e plena de vivacidade, sem fugir a alguns lugares-comuns do género, mas totalmente capaz de figurar numa lista de documentários essenciais sobre estes vultos do punk.

Uma coisa é certa e nunca é demais relembrar: o punk foi a mais importante revolução na música popular após o advento do próprio rock e da maioria das formas de jazz; mais nenhum outro género (salvo o hip hop e parte da música electrónica e a influência dos Kraftwerk) se lhe compara em termos de influência e de bases. Se o proto-punk dos MC5 e New York Dolls deu origem aos Talking Heads, Ramones e aos Clash, o género cresceu, expandindo-se para os Wire, para o post-punk dos Joy Division e New Order, para o industrial, para o rock dito universitário dos EUA e para o alternativo dos Beat Happening, Big Black, Hüsker Dü, Replacements, Mission of Burma e Sonic Youth, para o hardcore dos Black Flag, Bad Brains e Minor Threat e tendo também ramificações no metal (o bom, diga-se). Quer se goste, quer não, os factos provam que é impossível negar que o punk é o ponto de ebulição, o paciente zero, a hora “H” da música popular alternativa relevante dos últimos trinta anos – é “A” vanguarda.

Parte dele envelheceu bem, a outra nem por isso, mas a vitalidade mantém-se e os The Damned fazem parte do seu ADN e do seu cânone. Is she really going with him? Smash it up.


sobre o autor

José V. Raposo

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