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Ma Vie de Courgette
Título Português: A minha vida de Courgette | Ano: 2016 | Duração: 66m | Género: animação
País: Suíça/França | Realizador: Claude Barras | Elenco: (Vozes de) Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccoud e Michel Vuillermoz

A animação digital das duas últimas décadas pode ter desenvolvido muito o cinema do género em termos técnicos, mas ainda não resolveu a tendência dos seus realizadores para moralizarem as histórias que abordam e às quais imprimem sempre uma mensagem sentimentalista. E aqui estou obviamente a referir-me aos filmes saídos dos grandes estúdios americanos, como a Disney, Dreamworks e Pixar.

É que, por mais subversivos ou sofisticados que os filmes desses estúdios queiram parecer, principalmente no humor de alguns diálogos (que, na maioria das vezes, funcionam como um piscar de olhos aos adultos, como que a dizer «sim, esta parte foi especialmente criadas para vocês»), todos eles acabam por seguir uma fórmula narrativa há muito testada e comprovadamente eficaz a nível comercial. Uma fórmula que não admite grandes desvios.

É verdade que, apesar de os filmes de animação terem alcançado muitos fãs adultos, o seu público-alvo continuam a ser os miúdos, porque são eles que puxam pela mão dos pais. E, na lógica da produção de Hollywood, as crianças têm de ser sempre reconfortadas e moralizadas, nunca desafiadas. Por isso, custa-me ver algumas boas ideias serem desperdiçadas pelo facto de terem de obedecer às regras (não escritas) do jogo. Regras que se tornam ainda vez mais evidentes à medida que a tecnologia digital evolui.

Pois bem, Ma Vie de Courgette, a primeira longa-metragem do suíço Claude Barras, não tem absolutamente nada a ver com aquilo que escrevi em cima. Nem em termos formais – a animação em stop-motion pode ser artesanal, mas também confere mais textura às imagens e mais densidade às emoções das personagens – nem em termos narrativos. E, no entanto, a sua história poderia facilmente encaminhar o filme para o sentimentalismo moralizante, até porque as personagens são maioritariamente crianças órfãs ou vítimas de maus-tratos e abandono por parte dos pais.

A figura central é Ícaro, um rapaz de nove anos que prefere que o tratem pela sua alcunha de Courgette, e que, após ter provocado um acidente que resulta na morte da sua mãe (uma alcoólica solitária e agressiva), trava amizade com o polícia Raymond, que fica encarregue do seu caso. É Raymond que o encaminha para o orfanato onde Courgette irá conhecer outras crianças da sua idade. Entre elas está Simon, um rapaz sempre disposto a gozar com outros e com a mania de que é o líder do grupo, mas também Camile, uma rapariga por quem Courgette sente algo tão difícil de admitir como de ocultar.

Ao contrário dos filmes de animação dos grandes estúdios, que são feitos para crianças, mas de maneira a também atraírem os adultos, Claude Barras realizou um filme de animação que, na verdade, não é infantil. Claro que é também um filme para os miúdos, até pela identificação que eles vão sentir com algumas das atitudes, dilemas e brincadeiras das personagens, mas Ma Vie de Courgette vai emocionar, principalmente, os adultos. Pelos temas abordados, pelo simbolismo de algumas cenas, pela mistura de fantasia estilística com o realismo da história, e até pelas próprias personagens, que falam e comportam-se como pessoas e não como figuras de animação industrial.

Já se sabe que o mais difícil, ao abordar o universo infantil em cinema, é tratar as crianças sem paternalismos, mas Claude Barras consegue-o. E consegue também surpreender o espectador, sem que pareça estar a forçar esses desvios inesperados que a história segue. As suas personagens são vítimas da sua própria família, mas a amargura que sentem pela falta de um elemento a quem possam chamar mãe e pai, e em quem possam confiar, não as impede de continuarem a ter imaginação, humor, espontaneidade e, claro, também uma certa maldade ou gosto de provocar.

Uma das melhores cenas do filme é no final, quando as crianças fazem múltiplas perguntas a uma funcionária do orfanato, que acabou de ser mãe, para tentarem saber se ela alguma vez seria capaz de abandonar o filho. Essas perguntas, que se sucedem a um ritmo imparável, conseguem ser ao mesmo tempo cómicas e comoventes por traduzirem tão bem a lógica do pensamento das crianças e a sua tentativa de compreender o comportamento aleatório dos adultos e o que os leva, por vezes, a rejeitar ou maltratar os próprios filhos.

Para terminar, não posso deixar de fazer referência à cena em que as personagens, durante uma visita a uma estância de esqui, dançam no interior de uma cabana ao som de tema “Eisbaer” (que significa “urso-polar”) dos Grauzone, uma banda do pós-punk suíço do início dos anos 80. Essa sequência, à primeira vista inesperada, acaba por ser uma homenagem de Claude Barras à sua própria infância, até porque não é difícil imaginá-lo com a mesma idade das personagens do filme a dançar ao som desta canção. Uma canção que tem a capacidade de seduzir tanto crianças como os fãs de música alternativa.


sobre o autor

Luís António Coelho

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