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Love
Título Português: Love | Ano: 2015 | Duração: 135m | Género: drama erótico
País: França, Bélgica | Realizador: Gaspar Noé | Elenco: Karl Glusman, Klara Kristin, Aomi Muyock, Gaspar Noé

Murphy (Karl Glusman), um estudante de cinema americano a residir em Paris com a mulher e o filho bebé, acorda no primeiro dia do ano com uma enorme ressaca e um sentimento agravado de insatisfação e arrependimento. Recebe então um telefonema da mãe da ex-namorada, que lhe conta que ela desapareceu há vários meses e que está preocupada com a possibilidade de se ter suicidado na sequência da separação. Perante a hipótese da morte de Electra (Aomi Muyock), por quem é ainda obcecado, Murphy mergulha com nostalgia na memória do tempo que passou com ela, um tempo de juventude e de experimentação marcado por afectos contraditórios e consequências irreparáveis. A partir desta primeira cena, o filme desenvolve-se em flashbacks sem cronografia que narram a história de Murphy e Electra – sobretudo, a sexual. Estamos perante mais uma obra do cineasta argentino Gaspar Noé centrado na investigação da natureza do amor com a sexualidade no seu epicentro.

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Depois de dirigir Vincent Cassel e Monica Bellucci em Irreversible (2002), Noé terá convidado o então casal para protagonizar a história de Murphy e Electra – coisa que obviamente declinaram. Esta é uma de muitas curiosidades que se podem encontrar na Internet sobre Love (outros incluem coincidências, no argumento, entre nomes, profissões e aspectos da vida pessoal do realizador e apontamentos auto-referenciais diversos), um objecto que tem causado grande discussão desde a sua apresentação em Cannes – onde foi exibido fora de competição, catalogado como drama erótico mas prometendo sequências de sexo em 3D. Se partirmos de uma distinção simples baseada na quantidade de elementos de cariz sexual explícito, na forma como são representados (subjectividade vs. close-ups) e no tempo que ocupam em cena, estamos perante o primeiro filme pornográfico exibido nos ecrãs do festival de Cannes. É certo que há uma preocupação estética distintiva: a qualidade da banda-sonora e a proposta visual (o director de fotografia Benoît Debie alterna filtros fotográficos distintos, separando o momento presente, pintado de um azul gelado, das analepses filmadas em tons vermelhos). Para além dela, o filme oferece muito pouco: cenas de sexo em vários formatos e feitios, com recurso a muitos partícipes e adereços, a maioria com Murphy e Electra (protagonizados por dois actores que parecem versões mais jovens de Cassel e Bellucci mas que tudo ficam a dever ao seu talento), algumas com o terceiro vértice de um menáge-à-trois imprudente (Omi, protagonizada por Klara Kristin) e outras ainda com elementos dos quais não falamos para não estragar a surpresa.

O primeiro grande problema de Love é a sua proposta narrativa (um argumento débil que o próprio Noé confessa ter escrito em nove páginas), logo seguida do seu elenco. A necessidade de ter relações sexuais frente às câmaras terá afastado potenciais candidatos (a começar por Cassel e Bellucci), e por isso Noé teve que contentar-se com uma manequim aspirante a actriz e um actor um currículo insignificante. Se nas cenas de sexo podem até ser convincentes (talvez não seja este o termo), os actores perdem-se nos diálogos de uma forma confrangedora (de resto, os diálogos são de tal forma pobres que nem Cassel e Bellucci lhes conseguiriam dar forma). A comentadíssima questão sexual, por seu turno, é redundante. De facto, há cenas determinantes na compreensão da trama (não é preciso muito), mas a maioria funciona como um mecanismo obsessivo de exploração do tema, sem qualquer outro propósito.

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Gaspar Noé mantém a sua nota de intenções – filmar o sexo, de uma forma naturalista e sem censura, entre duas pessoas que se amam – mas o realismo dissipa-se na confusão de elementos convencionais e bizarros. O sexo explícito pode ser excitante/desconfortável para o espectador e servir ainda outro desígnio – como, por exemplo, Abdellatif Kechiche tão bem provou no seu La Vie d’ Adéle – mas torna-se cansativo perante o exagero a que aqui se assiste, que cedo abandona um erotismo gráfico e desliza para o hardcore, denunciando a incapacidade de cumprir a premissa de utilizar a sexualidade para expor as sinuosidades da relação ou dissecar a intimidade do casal protagonista. A suposta profundidade da relação perde-se também naquela acumulação desenfreada de experiências, parceiros, cenários, festas e posições até que tamanha paixão, fora da “cama”, é um lugar desabitado. Em suma, perante a vulgaridade do argumento e colocando de parte os recursos artísticos e técnicos do autor, não será imediata a distinção entre o filme e um produto porno banal. Se Noé pretendeu contar uma história de amor sob o prisma da sexualidade, pode dizer-se que Love se esgota no seu dispositivo.


sobre o autor

Edite Queiroz

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