MENUMENU
Partilha com os teus amigos
Listen To Me Marlon
Título Português: Listen To Me Marlon | Ano: 2015 | Duração: 95m | Género: Documentário
País: E.U.A. | Realizador: Stevan Riley | Elenco: Marlon Brando

Listen to me Marlon – filme-tributo apenas exibido em Portugal no DocLisboa 2015 – é o documentário definitivo sobre Marlon Brando. Construído a partir do material do arquivo pessoal do actor, composto de centenas de horas de gravações inéditas, o documentário de Stevan Riley é uma viagem aos pensamentos e emoções do maior actor de todos os tempos – transmitidos nas suas próprias palavras. A voz inconfundível de Brando guia-nos pelo seu percurso, que Riley justapõe com fotografias, imagens de arquivo e entrevistas. O resultado é um relato confessional póstumo, no mínimo perturbador. A abertura do filme tem mesmo qualquer coisa de sinistro, mostrando, em fundo preto, uma imagem digitalizada a três dimensões da cabeça de Brando (nos anos 80, Brando permitiu que o amigo e artista de efeitos visuais Scott Billups fizesse uma digitalização do seu rosto envelhecido): Let your mind drift back… way back in time… Esta imagem espectral em movimento define o tom do filme e não mais nos esquecemos de quem estamos a ouvir – como se Brando nos falasse além do túmulo. Nunca num momento público teria Brando explanado desta forma os seus pensamentos e fragilidades – aqui fá-lo para si próprio. Algo nos diz que ele saberia que um dia seria ouvido.

É impossível continuar a falar do filme sem falar quase apenas de Brando – o filme é o actor. Assistir a um documentário biográfico relatado na primeira pessoa por uma das mais discretas figuras da indústria cinematográfica é um acontecimento estranho. Brando valorizou sempre a sua privacidade e era avesso à exposição. A vida trocou-lhe as voltas neste propósito, em virtude do enorme sucesso da sua carreira e do rol de acontecimentos trágicos que pautaram a sua vida – e que os tablóides exploraram até à exaustão. As gravações áudio e vídeo de que o filme faz uso remontam à década de 60, altura em que Marlon Brando começou a registar sessões de reflexão e auto-hipnose, para além de outros registos que incluem telefonemas, reuniões, conversas (parece que tinha microfones escondidos em todas as divisões da casa) ou exercícios de construção de personagem. Sabemos que O Método de Stanislavski implica que o actor procure desenvolver os pensamentos e emoções da personagem recorrendo às suas próprias memórias e experiências, mas depois de Listen to me Marlon, reflectir sobre O Método adquire toda uma outra dimensão. Brando seguiu à risca os preceitos da escola que o formou – de tal forma que aquelas que recordamos como algumas das suas personagens mais fortes ou atormentadas relatam, sem que algum dia o tivéssemos sabido, aspectos da sua própria vida. Bertolucci aproveitou-o bem no seu Last tango in Paris, bem como Coppola n’ O Padrinho (em que o actor convoca a dureza da figura paterna na construção da personagem). Para Marlon Brando, O Método era procurar a sua verdade, e por isso, ele era realmente todas as personagens que compunha – é essa a primeira janela para a sua intimidade.

Mas como é que um gigante como Brando geriria aspectos como o auto-conceito (o que pensa um homem tão bem sucedido de si próprio) ou a auto-imagem (um galã muitíssimo atraente que se veio a tornar num homem obeso e com dificuldades de locomoção)? Listen to me Marlon, que rouba o seu título a uma das gravações de auto-hipnose em que o actor dialoga consigo próprio, responde a essas e a muitas outras questões e permite conhecer o homem que ninguém conheceu: os medos e aspirações de alguém que pensava muito pouco de si. As suas fraquezas, escondida por detrás de uma imagem de impenetrabilidade. A sua imensa solidão. Enfim, a sua versão dos acontecimentos. A história que nos conta tem já lugar cativo no imaginário colectivo, e na certeza disso, a narrativa não se preocupa demasiado com cronologias. O tom de voz altera-se ao longo do filme, mais pesado e avelado nos relatos menos felizes, mais jovial nos mais risonhos. De forma interpolada, vamos revisitando o trajecto do actor desde a sua infância algo traumática (marcada por um pai agressivo e uma mãe alcoólica), a sua mudança para Nova Iorque, o seu trabalho com a lendária Stella Adler (pioneira no ensino d’ O Método nos Estados Unidos), o primeiro Óscar (On the Waterfront), os grandes filmes em que participou (e as memórias amargas dos pequenos), a relação com as mulheres, o exílio no Tahiti (depois de Mutiny on the Bounty), as lutas sociais e políticas (seria inevitável relembrar o discurso da índia Sacheen Littlefeather, que Brando enviou para recusar o seu segundo Óscar, por O Padrinho, em protesto contra a representação dos índios americanos nos filmes de Hollywood) e as tragédias pessoais que assolaram os últimos anos (quando o filho Christian matou o namorado de meia-irmã, que de seguida se suicidou). O gigante revela-se como um homem só e extremamente triste, escoriado e incompreendido. Um homem que afinal não gostava de si e que desejava ter feito tudo diferente. When what you are is unwanted, you look for an identity that will be acceptable…  the first person you fool is yourself.

Encomendado pelos seus gestores de património (a Brando Enterprises terá decidido que estava na hora de apresentar o legado), o filme de Stevan Riley é um documento único, muitíssimo emotivo e nada convencional. A história de Brando contada por Brando destrói o estereótipo do astro rebelde e difícil, esclarece os motivos dos seus actos e sua postura recolhida – durante anos, o actor foi comparado à aspereza da sua personagem de Stanley Kowalski em A Streetcar Named Desire – explica que pôs de si nas suas personagens e entra realmente na privacidade de uma das mais talentosas e intrigantes estrelas de cinema de todos os tempos. Mas é também um exímio trabalho de montagem, que aproveitou o privilégio do acesso a todo este material, foi sensível e respeitoso na selecção do que deveria ser mostrado e manteve o compromisso da total honestidade, sem adição de segundas opiniões. Um registo marcante para a memória do cinema.

Life is an improvisation. I’m going to have a special microphone placed in my coffin so that when I wake up in there, six feet under the ground, I’m going to say: “do it differently.”

Marlon Brando (1924-2004)


sobre o autor

Edite Queiroz

Partilha com os teus amigos