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Lincoln
Título Português: Lincoln | Ano: 2012 | Duração: 150m | Género: Biografia, Drama, História
País: Estados Unidos | Realizador: Steven Spielberg | Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathaim, Tommy Lee Jones

Um ano depois de War Horse, eis Spielberg de regresso ao património histórico. No caso, dando a sua visão sobre Abraham Lincoln e sobre os meados do século XIX nos Estados Unidos, período de Guerra Civil, de clivagens profundas entre o Norte e o Sul e de abolição da escravatura.

Pelo tom emocional frequente na obra do realizador, seja com melhores ou piores resultados (aproveitando o contexto histórico, destaque para a obra-prima Schindler’s List), seria de esperar uma de duas coisas: um retrato fascinante e forte do carismático presidente ou, por uma uma via bem menos interessante, um simples contraponto à magnífica postura de confronto de Django Unchained, aliviando a consciência americana e exaltando os seus maiores feitos. Vendo o filme, é certo que Lincoln está completamente nos antípodas na deliciosa paródia de Tarantino, mas não será bem por esses motivos.

Ao invés da tensão nos limites, da violência latente, dos diálogos plenos de ironia,Lincoln é um filme parado, arrastado, a espaços algo entediante. Dificilmente esperaríamos isto de Spielberg. É certo que, embora seja esse o tom dominante, nem sempre o seu cinema é épico e efusivo, seja em que dimensão for. Por exemplo,Munich é pausado e sóbrio, mas, no seu retrato complexo e tendencialmente imparcial da realidade que apresenta, mantém um ritmo forte que aqui não existe.

Inevitavelmente, o melhor de Lincoln são as interpretações. Daniel Day-Lewis apropria-se da personagem com o brilhantismo esperado e, daqui em diante, a caricatura do presidente mistura-se inevitavelmente com o desempenho do actor australiano. Mas também há um belíssimo Tommy Lee Jones (congressista Stevens), encarnando um acérrimo, impulsivo e desbocado abolicionista, Sally Field como a infeliz e instável esposa de Lincoln, a nova coqueluche de Hollywood Joseph Gordon-Levitt ou o ultra-talentoso John Hawkes, aqui num papel muito curto. Mas acaba por saber a pouco, especialmente porque os momentos de aparente maior intensidade dramática são algo precipitados e pouco consistentes, como o final ou a relação de Lincoln com o filho Robert, nomeadamente no contexto da vontade do primogénito de se alistar no exército.

Significa que Lincoln é francamente mau? Não, até porque Spielberg tem quase sempre a capacidade de manter as suas obras dentro de um certo patamar de bom-gosto (enfim, é certo que houve esse pastelão chamado Artificial Intelligence: AI). E há momentos apreciáveis, como o início do filme, onde Lincoln sai do suposto pedestal da presidência para uma conversa frontal e quase horizontal com soldados americanos, ou a intervenção de Stevens no Congresso. Mas não deixa de ser um filme menor do cineasta. Que esteja, possivelmente, uns furos abaixo da fábula naivee quase sentimentalona de War Horse, é um factor sintomático. Que seja um forte candidato ao óscar de melhor filme, é algo de difícil compreensão.


sobre o autor

Joao Torgal

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