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La Pazza Gioia
Título Português: Loucamente | Ano: 2016 | Duração: 118m | Género: Drama, Comédia
País: Itália | Realizador: Paolo Virzì | Elenco: Micaela Ramazzotti, Valeria Bruni Tedeschi, Valentina Carnelutti

Loucamente – a tradução portuguesa do título não transmite exactamente a ideia de uma felicidade louca – segue a história de duas mulheres, Beatrice (Valeria Bruni Tedeschi) e Donatella (Micaela Ramazzotti), durante alguns dias do seu encarceramento numa clínica para doentes mentais do sexo feminino, situada numa villa da Toscana. As duas são, à partida, o oposto uma da outra; a aristocrática Beatrice ganha, contudo, interesse pela vulgar Donatella e, quando a oportunidade se dá, as suas patologias somam-se e completam-se numa fuga de dois dias pela província, com direito a confusões, embustes, e carros roubados.

No primeiro plano do filme vemos um carrinho de bebé a ser transportado pela mãe, supõe-se, por sobre uma ponte de mar e é essa história que, com auxílio de flashbacks pontuais e do relato progressivo dos personagens, iremos descortinar. É a história de Donatella e da depressão que a obrigara a dar o filho para adopção. A outra, a de Beatrice, é a de uma mulher bipolar, de famílias nobres, casada com um advogado afecto a Berlusconi, e que terá arruinado a fortuna com o amante, agora em prisão domiciliária e claramente sem vontade de voltar a vê-la. A clínica onde vivem terá pertencido à família desta última e, juntando isso à presunção da superioridade da sua educação, ela vive na villa como se fosse ainda condessa rodeada de criados e damas de companhia, e soltando, a cada oportunidade, comentários preconceituosos – muitas vezes xenófobos – que nos habituámos a associar a uma certa classe social que a Itália partilha com Portugal. A apatia e o mistério de Donatella vêm agitar estes pressupostos.

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Durante a eufórica fuga das duas, descobrimos, sem surpresas, a fonte das suas desordens: as famílias, os pais, os amantes e aquilo a que elas chamam “o terem nascido tristes”. É em Viareggio, no paredão Liberty – referência a Il Sorpasso, de Dino Risi (1962) – , e depois de se enfrentarem fisicamente e de se separarem, que as suas semelhanças vêm ao de cima. O que falta a ambas, e sempre faltara, foram amigos, uma situação familiar estável e alguém em quem confiar. Esta é, por ventura, a lição deste filme: a loucura como defesa da solidão, do abandono, da condição humana; a solidariedade, a empatia e o companheirismo, por outro lado, como redenção de tudo isso. Donatella, cabisbaixa e violenta, e Beatrice, arrogante e irrealista, são também, quando obrigadas a sair da zona de segurança que as patologias mentais possibilitam, meigas, compassivas e corajosas. A deficiência de ambas – a mãe de Beatrice trata-a ostensivamente por deficiente, incapaz de seguir os costumes da família, da mesma forma que em Il capitale umano, filme precedente de Virzi, Giovanni Bernaschi, o homem de negócios da burguesia italiana chamara deficientes aos seus irmãos, que não viviam para a criação de lucros – não é mais do que uma inadaptação a uma realidade social e familiar que não conseguem controlar.

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O filme de Virzi pode ser visto como um road movie pela Toscana e pelas doenças mentais e preconceitos a elas afectos. Apesar dos exageros dos seus episódios, a duração dos planos e os obstáculos que a câmara tem de transpor dão credibilidade à acção narrada. No meio de tanta confusão, é-nos dito, a felicidade encontra-se nos pequenos deleites da vida. Talvez por isso se defina La pazza gioia como uma comédia, apesar de serem poucas as oportunidades para rir. Talvez esta não seja a obra mais bem conseguida de Virzi, mas é certamente um filme comovente, para ver e reflectir sobre.


sobre o autor

Ana Ferraria

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