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It Follows
Título Português: Vai Seguir-te | Ano: 2014 | Duração: 100m | Género: Horror, Mistério
País: Estados Unidos | Realizador: David Robert Mitchell | Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Olivia Luccardi

Uma maldição sexualmente transmissível pode parecer um conceito estranho e rebuscado, mais típico de um filme de série B daqueles em que um tubarão salta do oceano para derrubar um avião do que de um grande filme. No entanto, é esse o tema de It Follows (2014) e a verdade é que se trata de um filme altamente recomendável.

A premissa é simples e despacha-se em poucas linhas: uma entidade sobrenatural que persegue a vítima até a matar. Não fala, não corre, não invade sonhos. Pode tomar diferentes aspectos mas tem apenas um objectivo — matar a sua vítima. Caminhando passo a passo, sem pressas. Imparável, inevitável, indestrutível. Quanto à vítima, pode fugir e ganhar tempo mas não pode esconder-se. Livrar-se da maldição só através de relações sexuais, passando-a a outro e não ao mesmo. A entidade começa então a perseguir um novo alvo, mas assim que o consegue matar volta a perseguir a vítima anterior. E assim sucessivamente.

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Jay (Maika Monroe) torna-se perseguida depois de um date com Hugh (Jake Weary), ao fim do qual o jovem explica tudo o que sabe sobre a maldição. É verdade que esta explicação é conveniente para o argumento mas não deixa de ser uma decisão lógica do ponto de vista da personagem, já que quanto mais bem-sucedida for Jay a transmitir a maldição a outros, mais longe Hugh fica da ameaça, numa espécie de esquema em pirâmide em que o prémio consiste em escapar a uma morte particularmente brutal.

Como em qualquer filme de terror, há sempre quem tente encontrar no tema central uma metáfora escondida. Neste caso, pode ver-se na maldição uma referência ao VIH, uma crítica à promiscuidade da sociedade contemporânea ou uma alusão aos traumas decorrentes de abusos sexuais. Pode até identificar-se em It Follows um paralelo com a inevitabilidade da morte. Seja como for, embora o conceito seja original e permita múltiplas análises e discussões, o que destaca este filme é a sua atmosfera marcante e perturbadora.

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Muito longe dos filmes de terror que apostam tudo no número de sustos que conseguem provocar no espectador, It Follows constrói pacientemente uma sensação de pavor. Desde logo através da banda sonora, num trabalho irrepreensível de Disasterpeace a emular os tons sinistros dos sintetizadores de Carpenter. Mas também através de um trabalho de câmara que recorre com frequência a planos fixos que se vão aproximado progressivamente do objecto, amplificando a impressão de perigo crescente. Desenrolando-se na suburbia de Detroit numa época indefinida, que combina liceus americanos intemporais, televisões dos anos 70 e e-books, o filme está envolto num ambiente de sonho e estranheza que em certos momentos ecoa o melhor de Donnie Darko.

Apesar de jovem e praticamente desconhecido, o elenco cumpre com distinção, especialmente a jovem Maika Monroe no papel principal, que mais cedo ou mais tarde vai tornar-se uma actriz a ter em conta no panorama de Hollywood. Quanto ao quase estreante David Robert Mitchell, que escreve e realiza este filme, tem aqui uma enorme rampa de lançamento para a sua carreira.

Um destaque final para os múltiplos detalhes e simbolismos evocados ao longo do filme, assim como as várias sequências suficientemente ambíguas para admitirem diversas interpretações. Não só acrescentam uma dimensão adicional a It Follows, mas permitem também que o filme adquira um tom distinto dependendo da leitura do espectador.


sobre o autor

João Pedro

Dissidente e subversivo por natureza. É benfiquista militante. Já desistiu de mudar o mundo e agora só tenta que o mundo não o mude a ele. (Ver mais artigos)

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