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Ghostbusters
Título Português: Caça-Fantasmas | Ano: 2016 | Duração: 116m | Género: Acção, Comédia, Fantasia
País: Estados Unidos, Austrália | Realizador: Paul Feig | Elenco: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon

Quem é que precisava de um novo Ghostbusters? Foi esta a pergunta que muitos fizeram assim que foi anunciada uma nova versão do clássico dos anos 80. As sequelas e os remakes são cada vez mais um refúgio a que os grandes estúdios de Hollywood recorrem, em busca de receitas aparentemente garantidas. Só que nos últimos tempos até os remakes parecem apostas arriscadas. Veja-se os casos recentes de Total Recall (2012) ou Robocop (2014), fracassos de crítica e bilheteira.

No entanto, ao contrário da indiferença com que são recebidas outras recriações, o novo Ghostbusters foi acolhido com uma fúria generalizada. As primeiras imagens foram de tal forma arrasadas que o trailer foi distinguido como o mais odiado de sempre no Youtube. O filme passou a ser saco de pancada preferencial na internet e recebeu classificações péssimas ainda antes de chegar às salas de cinema. Sendo assim, a questão impõe-se: será o novo Ghostbusters tão mau como o pintam ou estamos na presença de um caso de hype invertido parecido ao dos Nickelback, que passaram a ser celebrados como a pior banda do mundo (mesmo quando na mesma época e num estilo semelhante há bandas como… sei lá, os Creed)?

Ghostbusters

A verdade é que o novo Ghostbusters não é assim tão mau. Baseando-se na premissa e mitologia originais ao mesmo tempo que aproveita os meios técnicos actualmente disponíveis, tenta reinventar-se e atirar-se para o século XXI. Há um respeito quase reverencial perante o legado existente, ao qual o filme tenta repetidamente prestar homenagem, ou não contasse com Ivan Reitman e Dan Aykroyd entre os produtores. Ainda assim, nunca se chega a perceber o que o filme quer ser. É preciso recuar até 1984 para analisar a raiz do problema.

Na altura, Ghostbusters foi um êxito porque era uma novidade. Utilizando efeitos especiais inovadores (na altura), fundia comédia e fantástico de uma forma radicalmente diferente de tudo o que tinha sido feito até então. Sabe-se que grande parte dos diálogos foi improvisada durante a rodagem, incluindo algumas das frases mais memoráveis (“Human sacrifice! Cats and dogs living together! Mass hysteria!”), o que dava à película um tom fresco e uma naturalidade quase ingénua. Sem que isso fosse esperado, tornou-se um êxito para toda a família e particularmente entre crianças. A receita foi repetida cinco anos depois (1989), numa sequela que decalcava a estrutura do primeiro filme mas que já não teve a mesma recepção.

Chegados a 2016 e com a mitologia de Ghostbusters a fazer parte do imaginário popular, a estratégia foi baralhar e voltar a dar. Transformaram-se os caçadores de fantasmas em mulheres e fez-se um reboot geral do enredo. Somos assim apresentados a Erin Gilbert (Kristen Wiig), uma professora da Universidade de Columbia abordada por um curador de um museu de Nova Iorque que se se debate com problemas de assombrações. Embora Erin esteja empenhada em construir uma carreira académica respeitável, é confrontada com um livro sobre o paranormal que escreveu muitos anos antes em co-autoria com Abby Yates (Melissa McCarthy). Alarmada com o facto de o livro continuar a ser vendido através da Amazon, podendo arruinar-lhe a reputação, a investigadora procura e confronta Abby, que continua a dedicar-se ao estudo do paranormal com a sua assistente Jillian Holtzmann (Kate McKinnon). É dessa reunião que (re)nascem os Ghostbusters, aos quais se junta mais tarde Patty Tolan (Leslie Jones), numa sucessão de acontecimentos que nada tem a ver com a versão primordial. Essa originalidade é precisamente um dos pontos fortes da película. Incluindo a polémica mudança de sexo dos protagonistas, que embora na altura da apresentação do filme tenha parecido gratuita e até descabida, acaba por funcionar.

O problema é que este Ghostbusters nunca parece encontrar o registo certo. Nos primeiros actos, a sobredosagem de humor grosseiro e escatológico parece saída de uma comédia adolescente. Mais tarde, o filme parece estabilizar e há até algumas sequências particularmente boas, como a acção das Ghostbusters numa sala de concertos repleta. No entanto, as variações de registo sucedem-se com uma forte cadência, transmitindo a sensação que o argumento foi escrito a demasiadas mãos. E por falar em cadência forte, refira-se a quantidade debitada de jargão pseudo-científico e o número despropositado de referências cinematográficas (entre tantas, salvam-se as menções aos filmes de Patrick Swayze e uma piada especialmente boa sobre Jaws).

Ghostbusters

No que diz respeito às interpretações, para além das quatro caçadoras de fantasmas que desempenham relativamente bem os seus papéis (afinal vêm todas da formação do Saturday Night Live), há também Kevin (Chris Hemsworth), o recepcionista que emula o estereótipo da loira burra no sexo masculino. Se teoricamente a ideia até parece interessante, as sequências com Hemsworth são tão deslocadas que qualquer espectador passa o filme a desejar que a personagem seja enviada para outro plano de existência. Este reboot conta ainda a participação de (quase) todos os protagonistas da versão original, embora estes cameos raramente acrescentem alguma coisa, servindo essencialmente para alimentar a nostalgia dos fãs.

Embora seja tecnicamente bem executada e conte com um enredo interessante (há uma moral subjacente sobre bullying que podia ter sido mais explorada), a nova versão de Ghostbusters nunca consegue destacar-se em qualquer vertente. Ainda assim, está muito longe de ser o desastre que se anunciava. Seja como for, quase duas horas depois a pergunta mantém-se: quem é que precisava de um novo Ghostbusters?


sobre o autor

João Pedro

Dissidente e subversivo por natureza. É benfiquista militante. Já desistiu de mudar o mundo e agora só tenta que o mundo não o mude a ele.

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