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Fight Club
Título Português: Clube de Combate | Ano: 1999 | Duração: 139m | Género: Drama, Thriller
País: EUA, Alemanha | Realizador: David Fincher | Elenco: Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter, Meat Loaf Aday, Jared Leto

Para além de uma sátira de humor negro e viscoso contra o consumismo, o poder das grandes corporações e as marcas como estilo de vida, Fight Club, que David Fincher realizou a partir do livro de Chuck Palahniuk, é também um filme sobre a dupla personalidade do ser humano numa época em que os comportamentos e as acções são padronizados pela moda. «Tudo é uma cópia de uma cópia de uma cópia», diz a personagem de Edward Norton. A publicidade compra e cataloga a condição humana. Cada ser é aquilo que possui e não aquilo que faz.

A figura de Norton, herdeira das personagens Kafkianas e do Bartleby de Herman Melville, é um yuppie frustrado e sem nome – ao longo do filme nenhuma personagem o trata pelo seu nome próprio e ele só se refere a si mesmo, em voz off, como «sou o suor frio de Jack» ou «sou o coração partido de Jack», numa alusão a um artigo que lê numa revista. É uma espécie de Zelig (o “homem-camaleão” do filme com o mesmo título de Woody Allen), que tenta esconder, por baixo de uma multiplicidade de bens e interesses, a total ausência de individualidade. Nos vários grupos de marginalizados e doentes terminais que frequenta, adopta sempre nomes diferentes (Cornelius, Travis, Rupert).

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O momento de mudança na sua vida é quando conhece Tylor Durden (Brad Pitt) durante uma viagem de avião. Este já havia aparecido anteriormente em planos muito curtos que funcionavam como incursões subliminares de uma presença inconsciente. O facto de carregarem malas iguais é logo indicador de que, involuntariamente ou não, elas acabarão por ser trocadas. O mesmo se passará com as suas vidas. Porém, Norton só se torna próximo de Pitt depois da explosão do seu apartamento e de perder todos os bens materiais que até então haviam moldado a sua personalidade. «Só estamos livres depois de perdermos tudo», diz Brad Pitt – e é essa a ideologia que Edward Norton também acabará por seguir.

O clube de combate que os dois formam é um espaço onde os «filhos indesejados de Deus» podem libertar a sua revolta interior. E elaborar um projecto para devolver o homem à sua condição de igualdade e liberdade primitivas. A voz off de Norton, serena e irónica, contrasta com o nervosismo suado e agressivo da montagem. E da própria banda sonora. Muitos acusaram o filme de ser fascista. Compreende-se. Principalmente por causa dos comentários de Brad Pitt, sugerindo que se o homem foi criado à imagem e semelhança divina, então também ele é um Deus. E é verdade que Fight Club parece ter o final comprometido com a típica mensagem catastrofista de que, apesar da evolução das sociedades destruir a liberdade humana, também não vale a pena tentar mudar a ordem natural das coisas, porque qualquer alternativa será sempre para pior.

No entanto, a ideia de querer diminuir o filme a uma provocação bombástica pode ser precipitada. É que, à semelhança do livro The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde de Robert Louis Stevenson, o filme reflecte sobre a dualidade entre o animal social e o animal à solta. Tal como Dr. Jekyll, Edward Norton tem uma vida solitária, marcada pela insatisfação e pelo desejo de conhecer o lado mais obscuro da natureza humana, por mais autodestrutiva que essa descoberta se possa revelar. E tal como Mr. Hyde, Brad Pitt representa a libertação de uma energia e violência contidas no interior da personagem «real».

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«O homem não é verdadeiramente um só ser, mas dois», lê-se no livro de Stevenson. Nem Dr. Jekyll nem Edward Norton se mostram dispostos a dominar a personalidade que criam. Porquê? Porque se sentem rejuvenescidos e livres quando se metamorfoseiam. Como as suas duplas personalidades não existem na realidade, todos os seus actos ficam impunes. O que não deixa de ser curioso é que, tanto no livro como no filme, o conceito de liberdade esteja associado ao mal. É verdade que Norton só no fim toma consciência da sua dupla personalidade, mas esta faceta há muito que tinha sido sugerida: tanto nos comentários de Norton, dizendo que muitas vezes sentia Pitt a controlar a sua voz e os seus movimentos, como nos diálogos com Helena Bonham Carter (esta chega mesmo a dizer-lhe «pareces o Dr. Jekyll e o Mr. Jackass [idiota]»), ou na sequência em que Norton se agride a si mesmo em frente do patrão. Esta última ocorre logo depois de Norton ver Pitt deixar-se espancar pelo proprietário do bar onde têm lugar as sessões do clube de combate.

Se há algo latente, tanto no livro de Stevenson como no filme de Fincher, é a atracção pelo abismo e o prenúncio de queda. No fim, é só através do suicídio que o bem consegue destruir o mal. Talvez fosse mais coerente que Norton morresse depois da destruição de Pitt, mas o realizador quis provocar e decidiu colocar no clímax final a possibilidade de um casal (Norton e Helena Bohnam Carter) se poder formar enquanto assiste, de mãos dadas, ao apocalipse.

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Helena Bonham Carter é a única personagem feminina num filme que também foi acusado de misógino. A certa altura, a função dela parece ser só a de impedir que os dois protagonistas se envolvam numa relação ainda mais íntima, o que poderia desacreditar a sua actuação no clube de combate. Porém, ela nunca deixa de ser importante. No fundo, representa o único contacto físico que a personagem principal tem com uma figura feminina. Nas várias conversas entre Brad Pitt e Edward Norton sobre Helena Bonham Carter (e estes três não partilham uma única cena em conjunto), o segundo nega sempre qualquer interesse sexual por ela, mas a verdade é que o envolvimento entre Carter e Pitt só começa depois de Norton ter um sonho erótico com ela.

Tanto Brad Pitt como Mr. Hyde – o nome é uma referência óbvia ao verbo «to hide» (esconder) – são figuras que despertam temor e fascínio nas outras personagens. Só assim se compreende que, no livro todas elas fiquem paralisadas defronte de Hyde, e que no filme se diga «nós acreditamos em Tyler [Brad Pitt]». A influência que estas duas figuras «irreais» exercem sobre o quotidiano em que estão inseridas é claramente superior à dos seus «criadores». Daí a interrogação de Norton acerca do seu duplo (interrogação essa que também poderia ser feita pelo próprio Dr. Jekyll em relação a Mr. Hyde): «Tyler é o meu pesadelo – ou serei eu o dele?»


sobre o autor

Luís António Coelho

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