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Experimenter
Título Português: Experimenter: Stanley Milgram, O Psicólogo Que Abalou a América | Ano: 2015 | Duração: 98m | Género: Biografia, História
País: Estados Unidos | Realizador: Michael Almereyda | Elenco: John Palladino, Anthony Edwards, Jim Gaffigan

Experimenter centra-se na figura e legado do psicólogo americano Stanley Milgram (1933-1984), um dos nomes mais sonantes da psicologia social do século XX. O seu principal trabalho, uma investigação desenvolvida na Universidade de Yale em 1961 (numa época de questionamento moral do fenómeno do Holocausto por parte da comunidade científica e filosófica), debruça-se sobre os complexos processos de influência social que regulam o comportamento humano. A “Experiência de Milgram”, inspirada no julgamento de Adolf Eichmann (que começara três meses antes, em Jerusalém) e concebida para investigar a questão da obediência à autoridade, coloca dois sujeitos em confronto – um professor e um aluno – e pretende testar até que ponto o primeiro, sob instruções directas do experimentador, é capaz de aplicar choques eléctricos progressivamente dolorosos ao segundo (cúmplice do experimentador) de cada vez que este erra uma pergunta. O resultado é inquietante: a esmagadora maioria, ainda que contestando o curso da experiência, não coloca objecção ao sofrimento causado ao sujeito ‘castigado’, pelo simples facto de ter sido instruída para o infligir: The disappearance of a sense of responsibility is the most far-reaching consequence of submission to authority. Este estudo pioneiro, que serviu de rampa de lançamento a muitos outros trabalhos sobre obediência, conformismo, submissão e crueldade legitimada (por exemplo, controversa experiência de Philip Zimbardo sobre o Efeito Lúcifer, realizada na prisão de Stanford alguns anos depois), lançou na época alguma luz sobre o fenómeno do genocídio nazi e forneceu suporte empírico às famosas reflexões de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal.

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Responsável pelo argumento e pela realização, Michael Almereyda criou um filme que, em termos conceptuais, acaba por se distanciar do biopic convencional – resta saber se por intenção, se por falta de recursos; seja como for, Almereyda soube adaptar-se às limitações financeiras da produção, assumindo o artificialismo dos cenários e da mise-en-scène, utilizando imagens de arquivo e manobras alegóricas (como o elefante na sala) e abusando do discurso directo da personagem central. Soube também rodear-se de actores competentes; o underacting de Peter Sarsgaard funciona lindamente nos monólogos de Milgram com o espectador e a presença da eternamente jovem Winona Ryder na personagem de Sacha (companheira de colaboradora do psicólogo) traz alguma frescura ao tom expositivo da narrativa. O exercício de simplicidade cinematográfica revela-se eficaz, ainda que a primeira metade do filme, quase exclusivamente focada no percurso científico de Milgram, resulte mais vigorosa do que a segunda, em que os aspectos biográficos ganham desnecessariamente destaque (para além de nada acrescentarem ao tema central, falta-lhes profundidade, já que a química entre os dois actores parece não funcionar). Contas feitas, a forma como Almereyda articulou o conteúdo do filme transforma-o numa das propostas mais inovadoras dos últimos tempos no género da biografia e num produto de valor pedagógico inegável.

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A “Experiência de Milgram” enquanto marco incontornável no campo da psicologia social é um tema com um potencial enorme. Os resultados, que ao longo dos anos se revelaram estáveis nas várias réplicas realizadas, provaram pela primeira vez a existência de uma tendência inata para a submissão à autoridade e continuam a conseguir explicar o comportamento humano em múltiplos contextos: existe uma relação fundamental entre o grupo de referência e o indivíduo (conformismo), que o torna, em cenários de pressão, menos orientado por características de ordem personalística e mais susceptível a mecanismos de interacção social eventualmente enfraquecedores da consciência moral individual (obediência). Mas o facto é que muitos factores que escaparam ao design experimental de Milgram podem mediar essa relação fundamental. É precisamente aí que Experimenter peca um pouco no seu propósito didáctico, ainda que seja um filme estimulante e renda boas “discussões pós-visionamento”: esgotando-se na exibição estrita do percurso científico e biográfico de Milgram, desperdiça a ocasião para ligar a sua experiência à investigação subsequente (à qual não faz qualquer referência) e discutir a sua actualidade e relevância.


sobre o autor

Edite Queiroz

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