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Елена (Elena)
Título Português: Elena | Ano: 2012 | Duração: 109m | Género: Drama
País: Rússia | Realizador: Andrey Zvyagintsev | Elenco: Nadezhda Markina, Yelena Lyadova, Andrei Smirnov, Alexey Rozin

Desde que arrebatou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza de 2003 com o seu filme de estreia, o realizador russo Andrey Zvyagintsev tem sido apontado como o herdeiro de Andrei Tarkovsky. A personagem-título do seu terceiro filme, que conquistou no ano passado o Prémio Especial do Júri na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, é uma enfermeira aposentada, na casa dos cinquenta (Nadezhda Markina), casada com Vladimir, um homem rico e mais velho (Andrei Smirnov). Elena e Vladimir vêm de meios bem distintos, conheceram-se tardiamente e têm uma relação, embora estável, claramente fria e descalibrada: dormem em quartos separados – ele no master bedroom, ela num quartinho anexo; ele domina a relação e impõe as regras, enquanto ela, com uma postura de submissão e obediência, se ocupa da manutenção das rotinas instituídas. Ambos têm filhos adultos de anteriores casamentos. Vladimir tem uma relação distante com a filha, a destravada Katerina (Yelena Lyadova), enquanto o filho de Elena, Sergey (Alexey Rozin), é um indolente cronicamente desempregado com dois filhos e mais um a caminho. Sergey vive do dinheiro da mãe, e mais lhe pede quando o filho adolescente, o delinquente Sasha (Igor Ogurtsov), corre o risco de ter que se juntar ao exército se não conseguir comprar a sua entrada na universidade. Elena implora, mas Vlamidir condena a dependência financeira de Sergey e o seu estilo de vida irresponsável; não pretende, por isso, ocupar-se da educação de netos que não são seus. O casamento chega a uma encruzilhada quando Vladimir sofre um ataque cardíaco e fica dependente dos cuidados da mulher. O breve mas aparentemente redentor reencontro com Katerina fazem-no tomar a decisão de convertê-la na sua única herdeira. Elena toma uma decisão fatídica.

Este drama familiar escrito por Zvyagintsev e Oleg Negin é aparentemente banal, mas perpassa questões delicadas relacionadas com moral e sobrevivência. As necessidades de Sergei e do seu clã parasita são, aparentemente, o catalisador para o conflito principal, no entanto, o subtexto revela detalhes não menos importantes, sendo o mais saliente o das diferenças geracionais e de classe na Rússia contemporânea. Em primeiro lugar, aponte-se o dedo à fórmula obsoleta de casamento que Elena abraça, resignada e servil, onde assume mais o papel de cuidadora do que propriamente o de esposa – embora haja lugar ao cumprimento de obrigações conjugais, em momentos escolhidos por Vladimir, ocasiões em que uma vez mais ela tem apenas que acatar e obedecer. A família de Sergey é mais moderna e desempoeirada, no entanto, perdeu a noção de moral e de responsabilidade; eles habitam uma casa desguarnecida, onde as garrafas de cerveja se misturam em cima das mesas com biberões meio cheios e cinzeiros a abarrotar. As visitas constantes de Elena ao filho, longas deslocações com mudanças de transporte, desde o elegante bairro de Moscovo onde ela mora com Vladimir até uma escura periferia industrial de habitações sociais nas imediações de um reactor nuclear, são uma espécie de viagem no tempo entre duas realidades drasticamente diferentes, uma abastada, outra proletária; ela é o pêndulo entre esses dois mundos e entre eles oscila ao som da banda-sonora orquestral de Philip Glass, tensa e perturbadora, acentuando a inquietação da protagonista e antecipando, a todo o momento, o drástico desfecho. Na ausência de música, vemos muitas televisões; na casa de Sergey são um elemento central, Elena e Vladimir têm aparelhos de diferentes tamanhos, vêem televisão em separado. A fotografia de Mikhail Krichman, muito bonita, adensa compassivamente o quotidiano monótono e triste de Elena, num constante vaivém, desde o luminoso amanhecer em Moscovo até ao amarelo fim de tarde nos subúrbios. As revelações emergem com enorme lentidão, através de gestos frios e longos silêncios, porque a comunicação não é o apanágio daquelas famílias, e porque as decisões da protagonista são interiores e secretas.

O aspecto mais relevante e digno de nota do filme de Zvyagintsev é, contudo, a espantosa entrega de Nadezhda Markina, ela desempenha com suavidade e de forma muito natural uma mulher muito sofrida, cujas motivações e instinto maternal provocam enorme empatia, na mesma medida em que os meios que emprega produzem surpresa e consternação. Através da ambiguidade da personagem de Elena, Andrey Zvagintsev – que curiosamente se diz influenciado por Match Point, de Woody Allen – traça um quadro familiar minimalista de ingratidão e injustiça, num contexto social difícil, de assimetria, desemprego e violência, onde tudo tem um preço e ninguém é moralmente incensurável – e onde o crime não implica necessariamente um castigo – afinal, um quadro contemporâneo bastante transversal. Apenas Elena parece realmente importar-se com o seu semelhante, no entanto, a sua abnegação acaba por conduzi-la a um sórdido delito, que nem sequer resulta de um conflito de escolha, porque não há qualquer conflito. No final, o sofrimento nos olhos de Elena persiste; possivelmente, não há maior castigo do que a culpa.


sobre o autor

Edite Queiroz

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