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E agora? Lembra-me
Título Português: E agora? Lembra-me | Ano: 2013 | Duração: 164m | Género: Documentário
País: Portugal | Realizador: Joaquim Pinto | Elenco: Joaquim Pinto, Nuno Leonel

E Agora? Lembra-me traz-nos de volta a 2013. O título do filme é evocativo de uma dúvida, como um impasse em situação previamente conhecida; e atribui-se a Joaquim Pinto, sujeito e realizador da obra. Se, em Portugal geral, se travava ainda o primeiro indício de vindouros turbulentos anos para a sua ordem – o princípio de uma cisão a dividir-se entre um antes e um depois – Joaquim Pinto ignora essa realidade e define-se cedo como o eixo central da parca narrativa, em registo de relato pessoal, e diarístico. Dedica os primeiros minutos a um monólogo expositivo que nos introduz uma silenciosa, mas omnipresente personagem, e conhecemo-la: as manifestações do VIH e da hepatite C, doenças contraídas há vários anos e cujos tratamentos de contenção abalam o seu quotidiano, são agora actores determinantes na sua vida. 

Largamente filmado em handycam, E Agora? Lembra-me consiste em sequências de vinhetas, quase como um stream of consciousness narrado por Joaquim, correndo as suas várias ideias. A ausência de alguma sofisticação técnica é compensada pela amplitude do olhar cinematográfico do autor, que se alonga numa liberdade temática notável e nos enleva no seu mundo imediato. Conhecemos uma casa singela rodeada por um vasto terreno cultivável, no interior de Portugal, onde vive com o companheiro Nuno; viajamos também a Madrid, onde recebe tratamentos experimentais para a doença. O futuro é de certa forma omitido, no filme, por tão enraizado estar num presente sempre imediato – nesse sentido, é um poderosíssimo documento, em constante construção, do dia-a-dia sob a batuta da doença – mas permite-se em vários momentos, auxiliado por memórias e imagens passadas, a explorar tangentes que comentam e explicam o curso da vida até então.

A gramática do filme, mais do que as suas quase três horas de duração, tornam-no totalmente alheio à linguagem do cinema comercial; mas conferem-lhe uma identidade própria no domínio do documentário. Por entre os momentos de declarada exposição da vida de Joaquim, há pequenos, breves apontamentos algo desinteressados, desprovidos de contexto imediato: momentos lúdicos, ou pueris, onde a câmara incide num insecto, ou numa planta, e o tempo se suspende nessa contemplação. A sua singularidade contribui para definir algumas características e função da obra: realçam o carácter nevrálgico do presente, e afirmam o poder contemplativo do olhar sobre a natureza envolvente. 

A dada altura, quando se observa uma libelinha que repousa sobre uma folha (e que parece devolver o olhar perscrutador), ela que partilha o espaço narrativo – ou melhor, espaço fílmico – com a angústia física e emocional de Joaquim, parece ocorrer um momento mais significativo do que apenas a imagem de uma libelinha sobre uma folha: há uma espécie de relativização da experiência humana fruto desta justaposição de imagens; e, consequentemente, aproxima-se toda a presença viva do filme. Porque E Agora? Lembra-me, tanto quanto um registo de uma luta pessoal, ou um documento de alerta para uma condição marginal (e sobre pessoas marginalizadas), é fruto de um olhar toldado por estas mesmas condições. E dada esta ideia, é impossível olhar o filme apenas como um registo e não considerar a influência do autor, Joaquim Pinto, na construção desse registo, falsamente embrulhado num presente que não considera futuro, por tão ciente se considerar da própria mortalidade; e profundamente envolvido, munido de um olhar dado aberto à compreensão, com a natureza que lhe é imediata.

E Agora? Lembra-me não é um filme de consumo fácil, mas é uma experiência singular, de profundo traço pessoal, largamente distinta de muito do que o cinema actual tem para oferecer. Recomenda-se – e pode agora ser visto online, através da plataforma Filmin.


sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa. (Ver mais artigos)

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