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Doctor Strange
Título Português: Dr. Estranho | Ano: 2016 | Duração: 120 minutosm | Género: Fantástico
País: EUA | Realizador: Scott Derrickson | Elenco: Benedict Cumberbatch, Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Mads Mikkelsen, Rachel McAdams, Benedict Wong, Michael Stuhlbarg

Depois do esmagador sucesso dos primeiros filmes, terá havido uma qualquer altura em que os produtores da Marvel começaram a fazer apostas entre si sobre os heróis mais bizarros da companhia a serem transformados em filmes. Um guaxinim falante e o seu companheiro arbóreo? Filme mais rentável do ano. Um homem que encolhe e fala com formigas? Estamos já a marcar a sequela. Usar o mesmo conceito ridicularizado em Batman v Superman, mas transformá-lo num dos filmes com melhores críticas do ano? Fácil. Um feiticeiro com uma capa vermelha cujos poderes vêem de tretas místicas no Nepal? Hei, porque não. O pessoal vai ver. E porquê? Porque é a Marvel, ora.

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Há alturas em que a companhia parece fazer filmes simplesmente por atrevimento, e este Doctor Strange, no papel, é um desses projectos. Criação de nicho de Steve Ditko, fantástico desenhador da história dos comics, Doctor Strange é um cirurgião arrogante e egocêntrico que perde o uso das mãos num acidente de automóvel. Desolado, procura a solução em vários cantos até a encontrar na magia ocidental. O seu estudo com um feiticeiro chamado Ancião prolonga-se por anos e transforma-o no Mago Supremo, um herói que usa as artes mágicas para proteger esta dimensão; e é mais ou menos assim que a primeira parte do filme decorre, numa história de origem que já vimos várias vezes (e não muito distante da de Iron Man). Benedict Cumberbatch interpreta o herói como uma mistura entre Tony Stark e o Dr. House, provando que os britânicos sabem fazer como ninguém o filho da mãe genial que se acha superior a todos, mas que todos aceitam. Essa arroganciazinha transforma-o também na voz do público quando o filme se desvia perigosamente para as explicações e exposições das lógicas mágicas, com comentários depreciativos e piadinhas de ocasião.

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É na segunda metade que o filme encontra de facto o motivo para existir e nos surpreender. À medida que aprende Magia, Stephen Strange revela-nos também outras dimensões e planos de existência, e essas sequências são incríveis, como se Frida Kahlo e Miró tivessem ressuscitado para fazer uma perninha com MC Escher para criar mundos cinematográficos que homenageassem o traço de Ditko. Do ponto de vista visual é bizarro, com imagens da estranheza de mãos multiplicando-se ou um personagem a entrar pelo seu próprio olho; e quando chega a altura das cenas de luta e acção, o universo Marvel recebe uma lufada de ar fresco com realidades multiplicadas, gravidade zero, uma versão psicadélica do que Chris Nolan fez em Inception. Uma em particular, perto do final do filme, é talvez uma novidade no cinema comercial norte-americano e torna-se um prazer ver um estúdio que se tem basicamente encostado ao mesmo modelo de finais nos seus filmes a tentar algo de novo. Já acontecera em Ant-Man e no último Capitão América e aqui é levado a um nível onde o exagero não só é propositado, como necessário. Abrir o universo Marvel a estes novos mundos é uma jogada inteligente e lembra-nos como os efeitos digitais não são necessariamente maus, apenas mal utilizados; e em Doctor Strange somos lembrados de como a criatividade é quem ultimamente gere a sua aplicação. No filme, proporcionam, de facto, uma experiência diferente.

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Persistem os mesmos problemas de outros filmes da empresa: o vilão esquece-se bem e é mais um pormenor narrativo (desperdício de Mads Mikkelsen) e o mesmo se pode dizer de outros personagens secundários; falta também à narrativa um sentimento de crescendo sustentado, o que torna a confrontação final um pouco forçada; mas o elenco é dos melhores do ano, com Tilda Swinton a fazer de uma personagem em polémica (na BD, era asiática) uma criação sua e indelével. Calculo que, com um actor oriental, a queixa fosse de que era mais um estereótipo de mestre oriental, por isso, nesta idade do politicamente correcto, é-se preso por ter cão e não tê-lo. Apesar de tudo, começa a ser evidente que o estúdio encontrou um modelo aplicável a qualquer herói que dá garantias de sucesso. É a lógica básica comercial, onde o lucro de uns filmes garante a produção dos outros. A Marvel especializou-se em fazer obras de entretenimento para as massas, agradando aos apreciadores de BD e arrastando quem não é e, como é o caso deste Doctor Strange, isso garante sempre duas horas bem passadas no cinema, mas dificilmente nos dará uma obra de excelência. Não acho também que estejam interessados nisso; e com as abébias dadas pela maior rival, a DC, não existe sentimento de ameaça que os force a fazerem um The Dark Knight. Neste momento, são os seus próprios adversários e louve-se, pelo menos, a tentativa de Kevin Feige ir variando os géneros, embora vá entregando os seus heróis a tarefeiros bem comportados que sabem jogar pelas regras do jogo. Esta é mais uma obra divertida, com suficiente coração e cérebro para não nos sentirmos à deriva, mas que vale essencialmente pelos visuais que são por vezes arrojados e surpreendem pela novidade.

Se forem dados a psicotrópicas, levem algumas. Não só honram a intenção do original, como terão uma experiência bem mais potente do que IMAX. Conselho: fiquem para as duas cenas pós-créditos. A primeira é importante para um dos filmes Marvel do próximo ano; a segunda para o mais que certo segundo capítulo das aventuras deste doutor místico.


sobre o autor

Bruno Ricardo

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