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Dead Men Don’t Wear Plaid
Título Português: Cliente Morto Não Paga Conta | Ano: 1982 | Duração: 88m | Género: comédia, policial
País: EUA | Realizador: Carl Reiner | Elenco: Steve Martin, Rachel Ward e Carl Reiner

Houve um tempo em que Steve Martin não era o humorista inofensivo de comédias para toda a família. Por muito que hoje em dia custe a acreditar, houve um tempo em que Steve Martin entrava em comédias delirantes e iconoclastas, em que reinava a criatividade.

Cliente Morto Não Paga Conta é um desses casos, e embora não seja tão hilariante como O Homem dos Dois Cérebros (outra parceria da dupla Steve Martin/Carl Reiner), é, em simultâneo, uma paródia surpreendente e uma verdadeira homenagem ao cinema noir dos anos 40. Desde logo, pela maneira como está construído, ao integrar, na sua acção, inúmeras sequências de clássicos da época de ouro de Hollywood. Com uma montagem eficaz (e visionária na altura), podemos então rever, num novo contexto, cenas de filmes como Pagos a Dobrar e Farrapo Humano de Billy Wilder, À Beira do Abismo de Howard Hawks, Suspeita e Difamação de Hitchcock, O Destino Bate à Porta de Tay Garnett, Os Assassinos de Robert Siodmak, Fúria Sanguinária de Raoul Walsh, entre outros.

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Num certo sentido, Cliente Morto Não Paga Conta é bem capaz de ter sido o inspirador de Zelig, o falso documentário sobre o homem-camaleão que Woody Allen realizaria um ano mais tarde. Só que enquanto Woody Allen colocou o seu Zelig a partilhar o ecrã com figuras históricas das mais diversas áreas dos anos 20 e 30, Carl Reiner colocou Steve Martin a contracenar com uma verdadeira constelação de estrelas de cinema dos anos 40: Cary Grant, Ingrid Bergman, Burt Lancaster, Veronica Lake, Kirk Douglas, James Cagney, Lana Turner, Bette Davis, Ava Gardner, Ray Milland, Barbara Stanwyck, Joan Crawford e o inevitável Humphrey Bogart.

É evidente que o argumento do filme de Carl Reiner não pretende ser verosímil, ainda que a premissa seja simples: um cientista morreu num desastre de viação que foi considerado acidental, mas um detective privado (Steve Martin) é contratado para descobrir se foi assim tão acidental ou não. Mas, verdade seja dita, a verosimilhança também não era o que mais interessava no cinema noir. O que interessava era a criação de atmosferas sombrias e ameaçadoras, situações ambíguas e rebuscadas, diálogos cínicos e eloquentes e personagens marcadas pela fatalidade. Tudo isso está presente no filme de Reiner, só que com uma visão mais sarcástica e pós-moderna.

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As alusões sexuais abundam em Cliente Morto Não Paga Conta, tal como já acontecia no cinema noir dos anos 40 (ainda que de forma mais dissimulada). Por exemplo, nas sequências em que Rachel Ward, a heroína do filme, literalmente suga as balas que atingem Steve Martin. Ou na referência a Ter e Não Ter, com Rachel Ward a dirigir-se a Steve Martin no mesmo tom provocante com que Lauren Bacall seduzia Humphrey Bogart no clássico de Howard Hawks, mas desta vez com a metáfora do assobio a ser substituída pela da chamada telefónica: “You know how to dial, don’t you? You just put your finger in the hole and make tiny little circles.”

“I’ve done some brilliant things in my time. Asking Kitty Collins to fix me a drink wasn’t one of them”, diz a voz-off de Steve Martin no preciso momento em que se apercebe de que foi envenenado. E por falar em voz-off, este é também o primeiro filme em que me lembro de ter visto o gag de uma personagem a responder à voz-off de outra. Outro dos momentos mais inesperados é o pequeno monólogo de Martin, com uma pomba pousada no ombro, a desabafar sobre a perversidade feminina (um tema muito caro ao cinema noir).

E agora um à parte: não deixa de ser curioso que, dois anos mais tarde, Rachel Ward tenha interpretado, ao lado de Jeff Bridges e James Woods, o filme Vidas em Jogo, um remake de um dos maiores clássicos do cinema noir: O Arrependido de Jacques Tourneur, com Robert Mitchum, Kirk Douglas e Jane Greer a comporem o triângulo amoroso original.

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No final dos anos 70, início de 80, foi desenvolvido um sistema, pensado principalmente para a televisão, que permitia a colorização dos clássicos de cinema que haviam sido filmados originalmente a preto e branco. Ou seja, um sistema que permitia refazer a memória da sétima arte. Foi precisamente para lutarem contra essa adulteração que alguns dos melhores cineastas da altura decidiram realizar obras a preto e branco: Manhattan de Woody Allen e O Touro Enraivecido de Martin Scorsese são os casos mais emblemáticos desse “manifesto”. Cliente Morto Não Paga Conta, embora se sirva do preto e branco por uma questão mais conceptual, acaba por também homenagear dessa maneira a memória do cinema. Este é daquele tipo de filmes que se servem dos clássicos para inovar, recuperando o passado ao mesmo tempo que abrem caminho para o futuro.

Essa dualidade entre clássico e modernidade não era estranha a Steve Martin, que um ano antes já havia protagonizado o musical Pennies from Heaven, de Herbert Ross. Um filme em que uma história dramática é intercalada por coreografias de dança ao som de canções felizes dos 20 e 30, que reflectem a imaginação das suas personagens e o desejo de fugirem de uma realidade deprimente. No fundo, um filme que antecipou em quase duas décadas o que Lars Von Trier faria em Dancer in the Dark.


sobre o autor

Luís António Coelho

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