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Da Natureza
Título Português: Da Natureza | Ano: 2014 | Duração: 80m | Género: Drama, comédia
País: Noruega | Realizador: Ole Giæver, Marte Vold | Elenco: Ole Giæver, Rebekka Nystabakk, Marte Magnusdotter Solem

Relativamente longe geograficamente de Portugal, a Noruega é muito distante daqui da ponta ocidental em termos culturais, políticos e cívicos. Porém, os homens que reflictam sobre a vida terão os mesmos dilemas e questões (desde as mais eruditas e profundas às mais prosaicas) em Portugal e na Noruega – um outro factor serve para os aproximar: a beleza das paisagens. É este Da Natureza, de Ole Giæver (que desempenha também o principal papel, o de Martin, um jovem pai de família com queda para caminhadas), um móbil muito válido para levantar pensamentos de variada natureza na mente masculina.

Não, escusam de fazer soar os alarmes do feminismo “tumblriano”, que a trama do filme é mesmo centrada num homem e seus pensamentos e visões sobre a sua vida, entre uma e outra classificação dogmática mais obscena (esta mais adiante).

Esta é a terceira longa metragem de Giæver que, segundo nos diz o dossier de imprensa, trabalha desde há quinze anos com a co-realizadora do filme, Marte Vold – de destacar um curioso e prolífico projecto de curtas-metragens denominado “PLAY”. Ainda nas curtas, Giæver viu “Tommy” nomeada para os Prémios Europeus de Cinema. Por seu turno, este Da Natureza participou nos festivais de Berlim e Toronto de 2014.

Da Natureza 3

Num quadro breve, Da Natureza segue Martin – quiçá propositadamente sem apelido, para conferir maior universalidade à personagem – ao longo de um fim-de-semana, desde as suas últimas horas num escritório até ao fim do descanso, num percurso puramente existencialista – o Homem e a sua condição observados pela lente de Giæver, um autêntico totalista, que realiza, escreve e interpreta a longa-metragem. Logo de surra, nos primeiros minutos e depois de uma paisagem bucólica, um corte para um Martin atento e inquisidor em relação a um vetusto vizinho de outra janela – ora indagando-se sobre a idade do senhor, ora se os filhos desgastam assim tanto, ora se alguma vez ele próprio e a sua companheira acabariam completamente gastos e cinzentos nos seus cinquentas ou sessentas. Estas primeiras dúvidas estabelecem a tónica para os oitenta minutos de filme.

Ainda no escritório, um colega mete-se com Martin e convida-o para uma sessão de levantamento de copos, dando origem a mais uma série de problemas: se estará velho para tais actividades, se se deverá sentir culpado por ir e deixar a família atrás e qual será a melhor desculpa para se escusar à saída à noite. Até aqui, tudo na normalidade.

A mente de Martin começa a resvalar para as classificações dogmáticas ordinárias mal sai do escritório e se monta na bicicleta: qual a diferença entre “rabo” e “cu”? Pilosidades? Tamanho? Idade? Todo um debate interno que deixaria Platão e sua liberdade interior da alma (para a ordinarice, in casu) muito satisfeito. O espectador ri com a baderna intelectual, mas, no fundo, admite que já se debateu com classificações dogmáticas de genitália e afins, porque homem que é homem é como Santo António, ao fim e ao cabo: festeiro e filósofo.

Apercebemo-nos de que Martin é apenas mais um homem que tem uma vida banal de emprego/casa/família, com as preocupações quotidianas da maioria, desde o particular para o geral: por um lado debate-se com dilemas sobre a sua felicidade e se não se terá enganado no percurso de vida (banalidade familiar em vez boémia salutar), por outro pergunta-se, como muitos homens, se a silhueta do seu telemóvel no bolso não dará aparência de um órgão genital proeminente e vigoroso – pensamento interrompido pela aparência súbita de uma criança numa passadeira de peões. Quem não teve já de enfrentar estas questões incómodas? Só os mais distraídos!

Martin chega a casa e aí conhecemos a companheira, Sigrid (Marte Magnusdotter Solem) e o filho (Silvert Giæver Solem) – e mais rame-rame, agora doméstico, a suscitar mais problemas interiores à personagem principal, pater famílias ligeiramente (mas crescentemente) angustiado. O trabalho de câmara ajuda, enfatizando a exiguidade do apartamento de Martin e família, em perfeita analogia (cremos nós) com a claustrofobia interior que aquele começa a sentir pelo filme fora. Uma pena que os planos sejam titubeantes, mas talvez tenha sido essa a intenção de Giæver e Vold.

A cabeça de Martin não pára e continua, que nem um parlamento, a debater furiosamente: na sexualidade com a mulher, Sigrid, se deveria levar Karsten (o filho), se deveria ficar e jantar com amigos (aqui numa reflexão cínica, mas verdadeira, sobre jantares burgueses entre maridos e mulheres, que acabam na habitual separação para machos falarem de machices e o mulherio de mulherices – um coio de asneiras de parte a parte, portanto) ou se deveria reconsiderar o convite para copos dos colegas e partir para a sarjet-, bar mais próximo.

Vai, isso sim, cumprir a tradição e subir a montanha de mochila às costas e telemóvel carregado. Não sem antes recolher a chave de uma cabana num monte, que nem um Justin Vernon/Bon Iver dos fiordes. «Lol, acampar», como diriam os reformados do campismo festivaleiro português, ainda que Martin nem uma tenda leve – vicissitudes de um veterano.

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Convenhamos: por muito concentrados que estejamos, uma caminhada por matos e montes leva-nos, a dada altura, para pensamentos sobre assuntos muito distantes dali; confluem a angústias de Martin naquela caruma norueguesa – desde o joelho aos pés, este queixa-se de tudo como se tivesse o dobro da idade, apesar de manter um ritmo de marcha invejável. Novas divagações costanzianas: se deveria ou não responder de vez ao convite dos colegas ou se deveria era ter marcado uma viagem-relâmpago a Liverpool para apoiar os Reds, com “You’ll Never Walk Alone” (e ainda bem) em altos berros, abafando tudo o resto, numa sequência de planos maioritariamente abertos, ilustrando o claro afastamento (com desejo correspondente) de Martin da vida que leva. Certa só mesmo a aversão à serendipidade.

Ole Giæver fornece-nos, a conta-gotas, elementos sobre a vida de Martin, com uma analepse para a infância (e mais enurese) e um pai aparentemente distante – erro que o jovem pai não quer repetir. Acentua-se, cada vez mais, a luta interior de Martin, que fantasia com a amiga que lhe entregou a chave da cabana, em prazer onanista, só interrompido por um intempestivo caçador e seu cão, numa sequência hilariante.

Chega ao fim o dia, com uma luminosidade reduzida, talvez simulando a falta de visão do olho humano no escuro, desorientando um espectador que está já a dialogar consigo próprio sobre se os problemas de Martin não serão também os seus: se é mesmo talhado para homem de família ou se deveria ter permanecido solteiro ou mesmo procurado o divórcio, considerando também as suas consequências sobre os filhos.

Uma enurese noctura acorda o protagonista que, munido do pragmatismo nórdico (e de habituação ao clima…), sai a dois tempos para o leito aquático mais próximo dehortaliça ao léu; de caminho, uma reminiscência sobre os tempos de juventude em que ouvia Radiohead e coleccionava engates, sequência casanoveira interrompida pela entrada de Sigrid na sua vida. Água gelada no rio e Martin muito retraído, que nem um festivaleiro no rio Coura em Agosto ou George Costanza numa piscina.

Ainda sobre órgãos íntimos e demais cavidades, fez-se a contagem: um total de quinze vezes, ainda que uma delas seja simulada através de uma carcaça.

Da Natureza 1

De seguida, a melhor sequência de Da Natureza: auscultadores nos ouvidos, muda de roupa e corrida monte fora ao som de “Forever Young” de Alphaville. Mas a vida é sempre madrasta e o pé fica atolado em lama; até aqui tudo realista, menos a bateria do iPhone de Martin, que aguenta até mais não, que uma troca de SMS e MMS com Sigrid (ah, a traição do pormenor) entristece ainda mais o fim-de-semana daquele. E nem um power bank levou.

Martin não se está a descobrir a si próprio, que todas estas dúvidas são familiares. Chega à cabana e descobre que lá se encontram duas miúdas (irmãs germanas), bem a calhar para quem anda tentado pelo salto da cerca. Ida ao chuveiro e umas questiúnculas sobre que indumentária utilizar nessa ida sem parecer insinuante nem vulgar – um cavalheiro assolapado, portanto.

Certo é que, na melhor tradição existencialista (e não só), liberdade e responsabilidade andam juntas, formando a autonomia – e Martin não resiste e cede à sua aos avanços de Helle (Rebekke Nystabakk), num chavão cénico de encostos próximos e progressão para o quarto e proverbial trancada. Contudo, Martin-homem-de-família sobrepõe-se a Martin-adúltero-em-potência num jogo de “Street Fighter” mental (que o xadrez de “O Sétimo Selo” demora muito e o filme só tem oitenta minutos) e, em vez de um preservativo, só há um helicóptero de brincar de Karsten, que frustra a cópula com Helle e deixa-o num estado a rondar o catatónico.

E a gastar uma grande fatia do pacote de dados móveis, via pornografia no telemóvel, vista a uma mão.

Vemos Martin a auto-destruir-se, tentando enterrar-se a si próprio e despedaçar uma árvore, gritando, esperneando e gemendo que nem um Stanley Kowalski nórdico.

Cabe aqui ao espectador decidir se o fim do filme é uma vitória ou derrota de Martin; se agiu correctamente e com nobreza ao regressar para a família ou se perdeu ao continuar na mediocridade daquela espuma dos dias. Faltou uma possível redenção pelo black metal (que é guerra e ideologia), mas já não havia tempo para mais, que havia uma bola para passar ao filho.

Certo, parece-nos, é que nunca perderá a liberdade interior para reflectir (já que está sozinho), ainda que a exterior já não lhe pertença como gostaria. Até Sartre se riu.

Da Natureza é uma obra recomendável de jovens cineastas europeus, com algumas arestas por limar, mas com interesse a rodos, num misto de brejeirice à Almodóvar e introspecção de Bergman. Um filme de “Ses” e simples na execução, mas um iceberg cinematográfico, na medida em que tem muito mais questões subjacentes do que aquilo que aparenta.

Palavras de ordem? Ansiedade e dúvida. Uma hashtag? #naturezahumana.


sobre o autor

José V. Raposo

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