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Collateral Beauty
Título Português: Beleza Colateral | Ano: 2016 | Duração: 97m | Género: Drama
País: EUA | Realizador: David Frankel | Elenco: Will Smith, Edward Norton, Helen Mirren, Kate Winslet

Aqui está mais um caso de fraude, podia ser uma mentira inofensiva, mas o preço de um bilhete já é o mesmo que uma boa refeição e é coisa para se levar a mal. A história prometida não é a contada e infinitamente menos mística. Howard é o presidente de uma grande empresa de publicidade, mas não consegue ultrapassar a morte da filha. Assistindo à progressiva degradação do estado mental do colega, três sócios maioritários concebem um plano para lhe passar um atestado de incompetência e obrigá-lo a renunciar ao cargo na esperança de que a companhia volte a melhores dias. Para isso, contratam uma investigadora privada que descobre a rotina de Howard, escrever cartas de revolta a três abstracções: o amor, o tempo e a morte. Conhecendo estes factos, pedem ajuda a três actores para se fazerem passar por essas abstracções e conseguirem filmar o “amigo” em situações de descontrolo, removendo em pós-produção os actores e apresentando os vídeos numa reunião. Tudo isto é apresentado nos primeiros quinze a vinte minutos, pelo que não é desonesto contar a verdadeira premissa.

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Acho que chegámos a um novo píncaro do cinema exploitation, longe vão os dias do blaxsploitationsexploitationbikesploitation, géneros datados e agora apenas alvos de homenagens saudosistas. Temos de chamar os bois pelos nomes e assumir que há todo um sub-género bem prolífico em Holywood a que gostaria de chamar emosploitation. Certo é que há um sem fim de produtos que nos levam às lágrimas, a diferença é que os melhores não tentam e quando a história é tão ridícula como esta, a finalidade não é outra. Todos os diálogos são concebidos como um compêndio de citações passíveis de figurarem numa imagem paisagística destinada a um feed de Tumblr ou Facebook. Não há qualquer tipo de lógica no plano de nenhuma das personagens, as interacções não fazem sentido e é inconcebível que um elenco destes se junte neste equivalente dramático de um Velocidade Furiosa.

Apesar disto, nem tudo é mau. Na verdade, se retiramos a abordagem de espionagem empresarial, podemos encontrar um sólido arco de personagem no percurso de Howard, um percurso que seria o mesmo sem os restantes envolvidos. A certa altura damos por nós a pensar se não estaríamos perante uma sólida curta-metragem transformada em longa, sintoma da falta de coragem dos estúdios e do próprio Will Smith em apostar num formato tão pouco comercial. É um daqueles filmes em que o título surge em diálogo e é impossível não ficar constrangido quando isso acontece, mas outra coisa não seria de esperar do mesmo homem que escreveu filmes como Things We Lost in the Fire ou Rock of Ages. Atrás das câmaras encontramos David Frankel, o mesmo que já nos trouxe clássicos do género e que não destoa de um corpo de trabalho horrivelmente coerente.

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Will Smith pode estar a fazer o pior papel da carreira dele que não consegue ser mau, pior do que isso, é capaz de uma prestação completamente avassaladora, como é o caso neste filme. Diga-se o que se disser do actor, que é uma personagem por si só, é capaz de ser dos profissionais mais activamente investidos na carreira e no trabalho que desempenha. Nos dias que correm usa-se muito a expressão “roer cenário” para quando um actor é completamente extravagante e ultrapassa os extremos do que é pedido em determinado papel, mas Will Smith sabe exactamente quais são os limites e também sabe muito bem quando se deve conter ou soltar a personagem. Continua a ser um prazer ver este homem trabalhar em qualquer contexto.

O mesmo não se pode dizer de mais nenhum dos actores envolvidos. Nem Helen Mirren consegue dar algum tipo de dignidade ao filme e Edward Norton é uma sombra do actor que nos surpreendeu em papeis no início da sua carreira, estando a escolher o caminho mais fácil para a manutenção, esquecendo a excelência. É fácil desancar na Keira Knightley, por isso não o vou fazer, vou apenas mencionar a interpretação desastrosa e ridícula de Michael Peña, que só não ganha um Razzie porque acho que não há categoria de pior actor secundário.

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Collateral Beauty é um filme surpreendente. Para quem vê o trailer, surpreende por não ser a história do filme, para quem espera uma tempestade de matéria fecal, encontra o Will Smith e para quem espera que haja uma reviravolta final, encontra duas. É uma xaropada premeditada que só consigo comparar a um espectáculo de fogo de artifício. Os foguetes estão todos preparados e o fogueteiro sabe exactamente quando acender o rastilho. Ficamos todos a olhar para o que já vimos cem vezes e alguns ainda dizem: “Que bonito…”.


sobre o autor

Jose Santiago

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