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Califórnia
Título Português: Califórnia | Ano: 2015 | Duração: 85m | Género: Drama, Romance
País: Brasil | Realizador: Marina Person | Elenco: Clara Gallo, Caio Horowicz, Caio Blat, Virginia Cavendish, Paulo Miklos

Califórnia é a primeira longa metragem de Marina Person, conhecida do público brasileiro pelo seu trabalho como VJ na MTV Brasil, e por outras participações na televisão do país. A sua estreia na realização data de 2007, com o documentário Person, dedicado à obra de seu pai, Luís Sérgio Person.

Em Califórnia, o documentário dá lugar a uma ficção muito autobiográfica, como a autora confessa. Ao se retratar um período conturbado da adolescência de Estela, em tudo semelhante à Marina dos anos 80, retrata-se também a São Paulo daquele tempo: o fim da ditadura militar, a descoberta para a sexualidade e para as drogas, a eminência do flagelo da SIDA, mas também o ambiente escolar, os entretenimentos e os lugares de culto dos adolescentes, as músicas e os livros com que Marina e os seus amigos se ocupavam.

Estela – Teca para os amigos – vive com os pais e o irmão mais novo numa casa de classe média alta paulista (com direito a doméstica e Joan Miró pendurado na parede). Talvez seja por isso que o seu tio Carlos seja a sua referência familiar e  o seu maior confidente. Interpretado por Caio Blat, Carlos é um jornalista musical a viver na Califórnia de forma irresponsável e adolescente, dirá o pai de Teca – cujo diálogo com a sobrinha decorre pelo envio de missivas e de cassetes áudio. É graças a esta influência moderna que Teca conhece todos os hits do rock nos anos 80. O seu quarto está decorado por Bowie, The Beatles, Joy Division, fotos e outros artefactos que o tio enviara (livros da Beat Generation ou peluches do Gardfield e do Snoopy, por exemplo) e por um grande mapa da Califórnia onde estão traçados os percursos a percorrer na tão esperada viagem de visita ao tio. A primeira parte do filme é, de facto, uma longa espera por essa promessa de viagem; a segunda parte é o desfazer da promessa – o tio que volta inesperadamente, magrinho, e que enfraquece progressivamente até ser internado no hospital, de onde não voltará a sair. O prognóstico, no caso de haver dúvida, revela-o Teca, quando alerta JM para os perigos de “transar” sem camisinha, nomeadamente o de apanhar o vírus da SIDA.

O sonho do estrangeiro, em especial o da Califórnia (que poderia, de resto, ser o de Londres, dadas as escolhas musicais das personagens) é a certa altura engolido pela realidade traumática da doença de Carlos, originada na vida leviana e anti-burguesa que representa, até aí, o ideal de Teca, por oposição à sua vida real de adolescente paulista. Essa vida centra-se na relação com as suas melhores amigas e no triângulo amoroso com Xande, surfista loiro, e JM, o novo aluno da turma, alto, despenteado, vestido de negro que, estranhamente, é o único que partilha os gostos de Teca. Com as suas amigas, as duas mosqueteiras, goza JM, as conversas não fogem à temática dos rapazes, da perspectiva das primeiras relações sexuais, das transformações do corpo, da bebida, das festas. A experiência da juventude é, para aquelas, permanentemente uma festa. A primeira paixão de Teca é Xande, mais velho e popular, a quem não é dada nenhuma visibilidade. É fútil, depreende-se. São fúteis também as amigas, que não gastariam uma tarde de sábado para ir ver a exibição de clips musicais numa sala de cinema underground. O único que se salva, quiçá pela semelhança com o tio Carlos, é JM, expulso do antigo colégio por consumo de drogas, ou por ser homossexual, ninguém sabe. E, se todos o rejeitam à partida, a nova melancolia de Teca (que chega com a doença do tio ou que já lá estaria oculta) vai originar uma atracção bilateral e crescente. É melhor ser-se estranho do que um burguesinho surfista.

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“Todo o mundo tem problemas, só que a gente só repara nos nossos”, afirma o tio durante uma das conversas mais significativas do filme, num restaurante, Caio Blat, tremendo já a mão que segura no cigarro. A outra passa-se também num restaurante, uma lanchonete, na noite em que JM resgata Teca de uma festa e que culmina com o primeiro beijo. “A vida é o que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”, poderiam ter ambos afirmado a Teca, roubando as palavras de John Lenon e soprando o mote do filme. A morte apressa-se sobre a vida como as decepções sobre os projectos, mas também o inverso é verdade. E também por isso, quando recebe a caixa de pertences que o tio lhe deixara de herança, Teca ressuscita da sua tristeza e sai a correr de casa – a correr ao som dos The Cure como Denis Lavant ao som de Bowie, em Mauvais Sang – para visitar, amar e se despedir de JM, que parte em breve para a Índia.

Apesar de tocar ao de leve muitos temas relevantes, Califórnia não deixa nunca de parecer mais um bonito filme para adolescente e nostálgicos da adolescência. As personagens e os diálogos poderiam ser melhor trabalhados, os actores (com excepção de Clara Gallo, Caio Horowicz e Caio Blat) poderiam parecer menos forçados. Ainda assim, apesar de muita aparente superficialidade, o filme de Marina Person consegue evocar recordações a uns, motivar reflexões a outros e, certamente, entreter quase todos, com sinceridade, empatia, e algum humor.


sobre o autor

Ana Ferraria

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