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Café Society
Título Português: Café Society | Ano: 2016 | Duração: 96m | Género: Comédia dramática
País: E.U.A. | Realizador: Woody Allen | Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Blake Lively, Parker Posey

Aos 80 anos, Woody Allen continua sem dar grandes sinais de cansaço, mantendo a disciplina de estrear um novo filme por ano. No seu último trabalho, viajamos até aos anos 30 onde conhecemos Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg), um jovem judeu que se muda para Hollywood em busca de um futuro mais risonho e procura a ajuda do tio Phil (Steve Carell), um famoso produtor de cinema – que o contrata como estafeta e pede a Vonnie (Kristen Stewart), sua secretária, para lhe mostrar a cidade. Naturalmente que o rapaz não tarda em perder-se de amores por Vonnie, sem saber que eles são amantes.

Explanada a sinopse, nenhum admirador de WA poderá dizer com sinceridade que Café Society é uma surpresa – excepção feita, logo a partir da cena de abertura, ao belíssimo trabalho de fotografia do mestre Vittorio Storaro. Há quem diga até que WA faz sempre o mesmo filme, reciclando os mesmos temas e fórmulas. Mas para os fãs, as variações de Woody Allen não são uma limitação, mas uma assinatura – e por isso WA é um valor seguro: as estreias são aguardadas com expectativa e a impressão deixada é sempre positiva (porque um mau filme de WA será sempre melhor que um filme médio qualquer). Café Society é o digníssimo 47.º quadragésimo-sexto volume de uma obra cinematográfica de traço inconfundível.

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Como tantas vezes acontece, WA presenteia-nos com uma narrativa de outro tempo, desta vez uma magnífica síntese dos loucos anos 30, época em que o próprio cinema americano sofria grandes transformações, com a emergência dos filmes de gangsters, dos grandes estúdios e das grandes estrelas. Presentes estão também o próprio WA no papel do narrador (outra imagem de marca dos seus filmes) e as suas personagens de eleição – o rapaz inseguro e vulnerável e a mulher forte e emocionalmente distante que o domina. Por fim, estão presentes alguns dos seus ingredientes preferidos: a cultura judaica, o jazz, a temática existencialista (aqui numa perspectiva coming-of-age), o amor e as suas frustrações.

A narrativa beneficia do design de produção hollywoodesco e de um impecável guarda-roupa, que recriam um ambiente de época convincente e ainda iluminado pela fotografia de Storaro, em tons exagerados de dourado, como que a sublinhar o espírito e estética da época. O elenco é outro dos pontos fortes do filme, com Jesse Eisenberg na melhor mimetização de WA que vimos nos últimos anos (num registo comportamental e psicológico auto-referencial) e Kristen Stewart – fabulosa e a viver um óptimo momento na sua carreira – numa composição feminina mais fria e melancólica que o costume. O par romântico funciona lindamente, o enredo secundário assegura a componente jocosa da história (a família disfuncional do protagonista, em especial o irmão gangster), apenas Carrel se vê impossibilitado de utilizar todo o seu potencial trágico-cómico. E se o enredo não é propriamente original, WA desenvolve-o com grande vitalidade, não se limitando a reciclar os recursos que habitualmente utiliza, mas aprimorando-os e afirmando uma vez mais a sua capacidade de reinvenção.

Dividido em dois grandes capítulos – que podemos identificar como a inocência e a maioridade do protagonista – Café Society é um conto sobre as dores do crescimento, sobre escolhas, circunstâncias e inevitabilidades, pelos olhos de um garoto mais velho que o seu corpo (ou pelos olhos de um jovem cineasta, ainda que octogenário). Com doses iguais de ironia e pessimismo e sequências de enorme comicidade alternadas com momentos dramáticos intensos, Café Society preserva o peso reflexivo e a aura nostálgica dos melhores filmes de WA: estamos perante uma comédia dramática da melhor qualidade, fiel às idiossincrasias de um cinema que, repetitivo mas sempre novo, é em si mesmo um género.


sobre o autor

Edite Queiroz

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