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Bonnie and Clyde
Título Português: Bonnie and Clyde | Ano: 1967 | Duração: 111m | Género: Biografia, Crime, Drama
País: E.U.A. | Realizador: Arthur Penn | Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman, Estelle Parsons

Em 2017 cumprem-se 50 anos sobre a estreia de Bonnie and Clyde, filme que juntou no ecrã os jovens e promissores Warren Beatty e Faye Dunaway. A Academia de Artes e Ciência pretendeu assinalar a data convidando-os para apresentar o grande Óscar da noite, mas o evento ficou marcado pela trapalhada da troca dos envelopes e não pela merecida homenagem aos dois gigantes em palco, protagonistas de uma história trágica que apaixonou e continua a apaixonar gerações.

Em plena Grande Depressão, o jovem Clyde Barrow, recém-saído da prisão, conhece a bonita Bonnie Parker, uma empregada de café entediada com a vida e ávida de uma mudança radical. Ela parte com o seu “salvador” e juntos iniciam uma viagem pela América profunda, roubando carros e assaltando bancos pelo caminho. Num país desiludido e de valores empobrecidos, o casal de criminosos desperta sentimentos ambíguos na população, que por um lado os teme, e por outro os admira. Com o tempo, convertem-se em duas das personagens mais famosas da América dos anos 30, símbolos da época dos grandes gangsters. As fotos recuperadas nas fugas do casal (que aparentemente gostava de se fotografar) são catapultadas para todos os jornais, elevando-os ao estatuto de anti-heróis românticos. Entretanto, o gang cresce. A Bonnie e Clyde juntam-se C.W. Moss, um funcionário de um posto de gasolina, Buck Barrow, irmão mais velho de Clyde, e a esposa dele, Blanche. A escalada de violência, que acrescenta aos assaltos e roubos um número considerável de mortos, intensifica a perseguição ao gang, que culmina com uma emboscada ao casal e com o seu violento assassinato pelas autoridades.

Cristalizada na cultura popular, a história de Bonnie Parker e Clyde Barrow continua a ser adaptada para o cinema, teatro ou televisão, sendo o filme de Arthur Penn o exemplo mais representativo desse fascínio. Apesar de não ser exactamente fiel aos acontecimentos, é uma biografia muito influenciada pelo ambiente do movimento europeu da Nouvelle Vague, que contribuiu para a lenda romantizando o enredo. O argumento, escrito por Robert Benton e David Newman, optou por descrever duas figuras trágicas – proletários desiludidos com o sistema que ajudavam os camponeses e eram protegidos e admirados pelos pobres – ao invés de os mostrar como ladrões ou homicidas. A relação fusional entre Bonnie e Clyde, protagonizada por dois actores com uma química perfeita, é apresentada como mecanismo compensatório em que a transgressão e o perigo substituem a satisfação sexual (apesar de vários biógrafos defenderem que Clyde seria bissexual, ele é aqui retratado como impotente). A construção das personagens explora, portanto, as suas fraquezas (a impotência vs. desejo de Clyde, a carência afectiva de Bonnie) e alguns dos seus predicados (os desacertos do casal colmatados pela convicção de amor eterno, o gosto de Bonnie pela poesia, a dedicação de ambos à família), colocando a humanidade do casal bem acima da perversão de carácter: a carreira no crime é apresentada como uma inevitabilidade da sobrevivência, e não como uma escolha. Se Beatty e Dunaway são icónicos nos seus desempenhos, o elenco secundário é igualmente sólido: o peculiar Michael J. Pollard no papel de CW Moss, o jovem Gene Hackman no papel de Buck e Estelle Parsons no papel de Blanche. Todos os elementos do elenco receberam uma nomeação para o Óscar.

O projecto, inicialmente entregue a François Truffaut, passou ainda pelo crivo de Godard e acabou por ir parar às mãos de Warren Beatty por indisponibilidade dos primeiros. Beatty entregou-o a Arthur Penn, que o aceitou depois de garantida a liberdade de movimentos assegurada por um adiantamento da Warner Brothers (convencida de que o filme teria pouco êxito, a produtora prontamente cedeu a Beatty uma volumosa fatia dos lucros, e não apenas o vencimento habitualmente pago aos produtores). Numa época em que o Código Hayes era ainda aplicado, essa autonomia improvável daria os seus frutos, embora a estreia nos Estados Unidos tenha sido polémica. Os críticos chocaram-se com o excesso de realismo e violência gráfica (a violência era até aí figurativamente representada através de estratagemas subtis, sons ou imagens parciais), embora reconhecendo a mestria na montagem rápida e a beleza da fotografia de Burnett Guffey. Por outro lado, discutiu-se também o significado moral do filme, que transforma as personagens em Robins dos bosques modernos e a sociedade no inimigo. A cena final, de uma brutalidade difícil de descrever (a emboscada em que o casal é morto pela polícia debaixo de uma chuvada infernal de tiros de metralhadora) é uma das mais famosas cenas de violência na história do cinema; dela sobrevém, de facto, um sentimento de choque e injustiça (é preciso dizer que, na vida real, eles foram mortos exactamente dessa forma). Já na Europa, o filme foi um sucesso instantâneo. Warren Beatty não apenas vivera o seu primeiro grande papel como estava subitamente milionário.

Marcando um ponto de viragem na história do cinema americano, Bonnie and Clyde é hoje considerado uma das grandes obras da década de 60. É considerado pelo American Film Institute como o 5º melhor filme de gangsters de todos os tempos. Catapultou Warren Beatty como actor e produtor e foi nomeado para dez Óscares, cinco para os actores e os restantes para o melhor filme, realizador, fotografia, argumento e guarda-roupa. Possivelmente por culpa da má recepção do filme nos Estados Unidos, venceu apenas dois: melhor fotografia e melhor actriz secundária (Estelle Parsons). A violência gráfica do filme, hoje uma das características indiscutíveis do cinema americano, será possivelmente o seu aspecto mais inovador, tendo contribuído para alterar a linguagem cinematográfica que caracterizaria as décadas seguintes. A par disto, é um dos primeiros trabalhos a apostar numa certa glamourização de personagens infames – no futuro seguir-se-iam muitos outros exemplos, como The silence of the lambs (Johnathan Demme, 1991), Léon (Luc Besson, 1994), Natural Born Killers (Oliver Stone, 1994) ou Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991) – uma fórmula que é um triunfo garantido. O fascínio de Bonnie and Clyde não passou de moda (o look de Faye Dunaway ainda hoje é imitado) e ainda hoje continua a inspirar cantores, biógrafos, dramaturgos, estudiosos e novas adaptações para o cinema/televisão (é exemplo disso a mini-série com Emile Hirsch e Holliday Grainger nos protagonistas). Mas o grande legado é afectivo: Warren Beatty e Faye Dunaway cravaram, em definitivo, as figuras de Bonnie e Clyde no imaginário colectivo.

Some day they’ll go down together;
They’ll bury them side by side;
To few it’ll be grief, yo the law a relief
But it’s death for Bonnie and Clyde.

(Bonnie Parker)


sobre o autor

Edite Queiroz

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