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Big Eyes
Título Português: Olhos Grandes | Ano: 2014 | Duração: 106m | Género: Biopic, Drama
País: E.U.A. | Realizador: Tim Burton | Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Danny Huston, Terence Stamp, Jason Schwartzman, Jon Polito

Os cartazes promocionais de Big Eyes mostram uma menina triste de olhos enormes envergando um vestido azul. Pela estranheza e desproporção, o desenho poderia ter saído do lápis de Tim Burton, lembrando a Sally de The nightmare before christmas ou uma qualquer personagem de The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories, mas na verdade trata-se de um quadro de Margaret Keane, pintora americana muito popular nos EUA, que nos anos 60 viu a sua obra divulgada através do nome e figura do seu então marido, Walter Keane. Nos anos 90, Tim Burton, coleccionador e admirador confesso do seu universo estético (porque será?), solicitou-lhe que pintasse um quadro da sua namorada na época (Lisa Marie), e terá sido aí que nasceu a ideia para um biopic sobre Margaret (o segundo na carreira do realizador, depois de Ed Wood), cuja história é de tal forma insólita que poderia também ter saído da sua imaginação: uma ingénua e insegura mãe solteira, aspirante a pintora, conhece um artista carismático (na realidade, um impostor) por quem se apaixona. Este, fascinado pelos seus quadros invulgares e algo bizarros representando crianças desamparadas e inexpressivas com olhos enormes, assume-lhes a autoria e passa a exibi-los em galerias, a replicá-los em postais e a vendê-los a peso de ouro, alegando que na América nos anos 60 uma mulher seria incapaz de impor o seu talento. Ela aceita o argumento e a farsa perdura por dez anos, até que Margaret decide divorciar-se e reclamar a autoria das obras, processando o ex-marido e ganhando o caso ao produzir, em pleno tribunal, um quadro com olhos grandes em apenas 53 minutos.

BIG EYES

Partindo desta inusitada história real com argumento de Scott Alexander e Larry Karaszewski (argumentistas de Ed Wood), Burton moldou a narrativa à sua imagem: Transformou-a numa fantasia estética – recuperando a paleta de cores da cidade perfeita de Edward Scissorhands, onde um narrador parece contar uma história infantil ao som da (sempre) belíssima banda-sonora de Danny Elfman – que instantaneamente transporta o espectador para o luminoso mas subtilmente terrível universo do seu cinema. A temática permite-lhe explorar um território confortável (o cruzamento entre o normal e o extraordinário), revisitar um dos seus alvos de eleição – a frivolidade da sociedade americana, neste caso, a questão da (des)igualdade de género na América de meados do séc. XX – e retomar o elogio da mulher, através da figura delicada de Margaret Keane. Todas as mulheres de Burton são heroínas improváveis encapsuladas num invólucro que as impede de assumir o seu papel determinante: voltamos a Sally de The nightmare before christmas, mas também a Peg de Edward Scissorhands (Diane Wiest), Lydia Deetz de Beetlejuice (Winona Ryder), ou Emily de Corpse bride.

Dispensando pela primeira vez desde Mars attacks (1996) da colaboração de Johnny Deep e/ou de Helena Bohnam-Carter, Burton entregou o papel dos Keane a Amy Adams e Christoph Waltz, dois actores de excelência habituados a corresponder a desafios muito diversos. A escolha não poderia ter sido mais adequada, quer no que diz respeito a Adams no papel de Margaret, quer a Waltz, no papel de um sacana com alguma graça, que de uma forma distorcida encontra algum paralelismo com a personagem de Inglorious Basterds (de Quentin Tarantino) que lhe valeu o Óscar de melhor actor secundário. Ambos os actores assumem sem dificuldade o exagero que as personagens dos filmes de Burton exigem, caricaturando-se a si próprios sem cair no overacting. Amy Adams tem um desempenho muito conseguido, encarnando Margaret Keane com uma candura e fragilidade perfeitas, que lhe valeram o Globo de Ouro para melhor actriz.

Como seria esperado, o ambiente do filme é um dos seus pontos mais fortes, combinando o guarda-roupa de época de Colleen Atwood com a fotografia de Bruno Delbonnel e a música de Danny Elfman (habituais colaboradores de Burton). Contudo, Big Eyes não deixa de representar um certo desvio ao paradigma burtoniano. Tem uma estrutura narrativa mais mainstream e não possui o tom sombrio ou gótico-satírico a que o cineasta nos habituou. Mas em bom rigor é fácil encontrar a plena assinatura do seu cinema, quer em termos visuais quer temáticos, talvez num formato menos extravagante, com menos do habitual negrume a mesma dose de sarcasmo. É curioso constatar que esta abordagem mais convencional tenha sido vista pela crítica como uma ousadia ou falência de carácter (a crítica mais favorável refere-se ao filme de forma condescendente, descrevendo-o como um “trabalho adulto”), quando na realidade Big Eyes confirma uma capacidade muito estável de apropriação do material de base e de reinvenção estilística, preservando a tonalidade quasi-sinistra, difícil de articular em palavras, que permite reconhecer um filme de Tim Burton. Sobretudo, Big Eyes é um trabalho pessoal que assume um tributo muito bonito à história incrível de uma artista que o cineasta evidentemente admira – Margaret Keane, que aos 90 anos e sem nunca abdicar do apelido, continua a pintar crianças de olhos enormes.


sobre o autor

Edite Queiroz

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