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A Mãe É Que Sabe
Título Português: A Mãe É Que Sabe | Ano: 2016 | Duração: 88m | Género: Comédia, Drama
País: Portugal | Realizador: Nuno Rocha | Elenco: Maria João Breu, Joana Pais de Brito, Manuel Cavaco, Filipe Vargas

Não querendo revelar muito sobre a história, A Mãe É Que Sabe fala-nos de uma típica família da classe média portuguesa. Ana Luísa, casada e com uma filha adolescente, prepara o almoço para celebrar os 75 anos do pai, contando por isso com a presença de uma tia que apresenta os primeiros sinais de demência, do tio resignado com a condição da mulher, do primo emigrado em Angola e da irmã que se faz acompanhar do namorado brasileiro. Este é o pretexto para Ana Luísa recordar vários momentos da sua vida, em especial a relação com a mãe, falecida há 4 anos e como ela pessoa moldou a mulher que é hoje.

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Esta sinopse simplista não faz, de todo, justiça a um filme que ultrapassa a premissa e que se torna numa celebração da vida e de todas as pessoas que nos rodeiam, uma homenagem a quem tomamos como garantido sem pensar na falta que nos pode fazer. A justaposição do presente com o passado está meticulosamente construída para mostrar a natureza circular do ser-humano, tanto em comportamentos como afectividades. Atravessamos três décadas de história retratada com uma familiaridade comovente e a certa altura somos brindados com uma crónica de costumes que vai além da família em questão, como uma cápsula do tempo onde encontramos muito de nós. O cinema português é genericamente feito de extremos, o drama tem de ser pesado e artisticamente validado pelos seus pares, enquanto que a comédia deve ser absurdamente exagerada e vive hermeticamente fechada em cada punchline. Aqui é tudo muito orgânico, ri-mo-nos porque nos revemos no ecrã, porque conhecemos alguém assim e não porque uma piada isolada em si própria nos dá permissão para rir. Há também um equilíbrio muito bem conseguido entre os dois géneros e um riso pode muito bem conduzir a uma lágrima.

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O que o material promocional do filme não nos diz é que há outro artifício na narrativa e que, apesar da simplicidade e do cariz fantástico, atribui outra densidade à trama e nos leva a explorar o que é a perda e se o conforto da rotina não é apenas sinónimo de felicidade. Há também um grande cuidado estético que nos transporta no tempo e muitas vezes damos por nós a olhar para o cenário como se fosse uma personagem. Notamos pontos de contacto com os enquadramentos de Wes Anderson, especialmente quando nos levam até aos anos 70 e 80, mas desta vez fazem sentido. Grande parte do sucesso deste filme tem a ver com as interpretações de personagens que verdadeiramente ganham vida e a grande cola que junta todo o elenco numa peça só é o desempenho de Maria João Abreu e Joana Pais de Brito. Respectivamente, mãe e filha, nunca se chegam a encontrar por serem retratadas em períodos diferentes no tempo, mas sentimos que a relação é real por gestos muito subtis ou mesmo expressões. É difícil não esboçar um sorriso quando numa das cenas a mãe não está com paciência para explicar uma coisa à filha e responde: “É uma maneira de dizer…”.

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A Mãe É Que Sabe é a primeira longa metragem de Nuno Rocha e daqui para a frente só se auguram coisas boas. É um belíssimo filme, carregado de boa disposição e algum peso emocional. Pode ser interpretado como uma simples comédia de costumes, mas é um retrato sincero da família portuguesa e da maneira de ser português, assim como um estudo sobre a perda e as escolhas que fazem de nós o que somos. É uma maneira de dizer.


sobre o autor

Jose Santiago

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