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A Causa e a Sombra
Título Português: A Causa e a Sombra | Ano: 2015 | Duração: 95m | Género: Documentário, Drama
País: Portugal | Realizador: Tiago Afonso | Elenco: Alípio de Freitas

O nome Alípio de Freitas não é familiar a muitos de nós e, porém, é um reconhecido activista em território brasileiro e figura central do documentário A Causa E A Sombra, em estreia mundial no festival Porto/Post/Doc 2015, numa sessão que contou com a presença do seu protagonista e do realizador.

Alípio nasceu em Portugal, na distante Bragança perdida nas montanhas, tornou-se padre e missionário, partindo para São Luís do Maranhão em 1957. Foi apoiante de movimentos pelos camponeses e pela alfabetização, foi jornalista e foi Professor de História na Universidade de Brasília. Deixou a Igreja em 1964 e pouco depois do golpe que implementou a ditadura militar no Brasil aproximou-se aos Comunistas, o que lhe valeu o exílio e a condenação a 150 anos de prisão, não cumpridos na totalidade. No pós 25 de Abril de 1974, José Afonso havia de o imortalizar num tema que Alípio conheceu ainda na prisão, sem sequer saber quem era este cantor.

O documentário redescobre a sua vida e a sua luta pessoal pela sobrevivência e pelos ideais que defende. Em quase vinte anos de cárcere, Alípio foi transferido 16 vezes de prisão e torturado, liderou grupos organizações e greves de fome em prol dos direitos humanos para presidiários, viu-se apátrida quando o Brasil lhe retirou a cidadania – pela qual renunciou a nacionalidade portuguesa. O realizador percorre o relato de companheiros de cela, que denunciam as condições das cadeias brasileiras e o tratamento desumano a que presos políticos são sujeitos, ainda hoje, em todo o mundo.

Alípio haveria de regressar a Portugal, cansado do país que escolheu e pelo qual tanto sofreu, onde fundou a organização de apoio “Casa do Brasil”, um porto seguro para imigrantes brasileiros em situação de carência e risco.
Foi na presente década que conseguiu a devida justiça, quando o Estado brasileiro acabou por ser condenado a indemnizar o revolucionário pelos danos provocados pelos maus tratos na cadeia, que o deixaram praticamente cego e debilitado.

A estreia no festival contou com a presença do próprio, que se dirigiu a quem estava no Cinema Rivoli do Porto de forma entristecida. As marcas do tempo são visíveis, o peso da doença limita-o. Emocionou ainda mais quem ali estava quando partilhou o momento em que recebeu a cassete em que José Afonso cantava a sua história, e sobre como esse momento viria a determinar a amizade entre ambos aquando do regresso a Portugal e até à morte do compositor.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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