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A Canção de Lisboa
Título Português: A Canção de Lisboa | Ano: 2016 | Duração: 111m | Género: Comédia
País: Portugal | Realizador: Pedro Varela | Elenco: César Mourão

Ser cineasta em Portugal não é fácil, bem pelo contrário. Uma massa crítica pouco numerosa, grande público desinteressado e sem gostos e referências (quando não peca por falta de civismo), bilhetes caros, condições técnicas deficientes em cinemas (o último grito em matéria de som equivale a ficar-se surdo), problemas financeiros endémicos, vácuo criativo nalguns sectores e constante instabilidade profissional.

Em muitos aspectos, Portugal anda ao ralenti e na cultura não foge à regra. Se em 2006 tínhamos bandas a querer emular os Strokes como se tal fosse uma grande inovação (com quatro ou cinco anos de atraso), pelo cinema nacional tem passado uma onda de remakes de clássicos, como tem ocorrido no cinema norte-americano de há uns anos a esta parte – O Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela e agora A Canção de Lisboa, que estreou nesta semana que passou, com uma campanha publicitária que nos relembra de tal facto em muitas esquinas pelo País fora.

Chegada a noite da ante-estreia, o cinema São Jorge encheu-se de protagonistas, de fornecedores de brindes e de repórteres cor-de-rosa. Não havia limusinas, mas havia um sem-abrigo a dormir tranquilamente atrás de um dos pilares da entrada do cinema. Por entre buzinas de alegria lá fora na avenida pelo feito da Selecção na noite anterior, o desfile de supostas figuras públicas e a amabilidade de quem tratou das credenciais de imprensa lá se deu início à sessão – não sem antes de se ouvir uma palavras de Leonel Vieira (produtor desta trilogia de novas versões) e de se apresentar os mecenas do projecto. O dinheiro público continua a sustentar parte do cinema português, conclui-se. A Tobis acabou como acabou e uns quantos bravos continuam a querer fazer do cinema vida neste País.

O Vasco Leitão de há oitenta anos era o de outro Vasco, o Santana – um génio nacional, figura ímpar da comédia nacional, capaz de interpretar teatro popularucho, mas também de desenvolver personagens míticas. Mete-se com as vizinhas no meio de uma cigarrada, contando lamúrias do chumbo e acabando num diálogo truculento e fluido com a Alice de Beatriz Costa. Anda na cábula e na fadistice, sendo a alma das tascas e metendo-se em trabalhos nos biscates e engates que arranja.

A versão de César Mourão não nos deixa uma frase, um trejeito, um gesto que seja – culpa do argumento, da direcção e do próprio. Serve-se de sound bites típicos da juventude de hoje nos seus engates, de um ajudante, Rui (Dinarte de Freitas), que é segurança na faculdade do Campo Mártires da Pátria, de uma proprietária do bar onde actua (Carla Vasconcelos, que tão bem esteve em Os Contemporâneos e cujo talento não foi aqui aproveitado) e de um descapotável (BMW). No jargão brasileiro, é um playboy.

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Vasco Leitão, versão 2016 (César Mourão).

O Vasco hodierno tenta ser um castiço dos bares, ora comediante ora músico (como César Mourão na vida real), mas as coisas não correm bem, que o de 1933 era um fadista rebelde e iconoclasta, um Johnny Rotten da fadistice – que saudades da sequência da “UM POR TODOS E TODOS CONTRA O FADO” –, ao passo que o de 2016 é um lugar-comum cantante, com as piadas feitas para o programa de humor (?) da tarde televisiva portuguesa. Se a personagem assenta nos talentos de Mourão, não assenta na bagagem histórica do cábula nacional.

A nova Canção de Lisboa está pejada de estereótipos – quiçá para melhor situar os espectadores, mas os mais informados dispensam-nos. Logo o primeiro é o da asiática estudiosa e aplicada (Jani Zhao), que tem namorado e vive dentro dos livros para se manter no elevador social. Pois bem, sai no andar de Vasco e acaba a brincar aos médicos em casa deste, com direito a gemidos que devem ser a actual versão do “diga 33”, pois então.

Dado que os tempos e as vontades mudaram, o Vasco Leitão de hoje partilha um apartamento no Chiado com um emigrante brasileiro, Murilo (Marcus Majella), que se enfiou numa embrulhada e o bicho pegou. O amigo rico tem agora de fingir que é um filantropo para agradar ao patrão de Murilo, José Caetano (Miguel Guilherme). Aí entra a nova Alice (Luana Martau); a princípio somos levados a pensar que estamos perante novo estereótipo, mas lá acabamos por descobrir que esta nasceu no Brasil mas cresceu no Beato, segundo o pai, José Caetano. Alice odeia Vasco, mas só mais tarde descobriremos o motivo.

Caetano, ambicioso candidato a Primeiro-Ministro, precisa de uns cobres para financiar a campanha. Quem melhor, então, do que as tias de Vasco? Na versão de 2016, são interpretadas por Maria José e Margot (Maria Vieira e São José Lapa, respectivamente), formando, em concordância com os novos conceitos de família, um casal.

O problema é este: estão mais tesas do que um carapau; Margot acha-se artista e Maria José não controlou as finanças. Resultado: a mesada de Vasco acabará, a casa terá de ser vendida e, desta feita, as tias terão de encenar, elas próprias, a farsa de que preferem o pitoresco ao luxuoso, acabando num quarto enfiado num bordel de uma espanhola, Ivone (Nuria Mencía). O motorista de serviço, Ivan (Dmitry Bogomolov; novo estereótipo), artista de formação, acabará por arrecadar os quadros de Margot.

O futuro médico sem saber o que fazer à tia doente (São José Lapa).

O futuro médico sem saber o que fazer à tia doente (São José Lapa).

 

Agora já não há consultórios, só clínicas. Assim sendo, o Vasco de 2016 tenta, desastradamente, inventar um carreira que não existe para continuar a usufruir da árvore das patacas plantada pelas tias. Aqui, A Canção de Lisboa perde-se e falha com estrondo: não só a versão original lhe dá goleada com o falso veterinário (e uma das grandes frases do cinema nacional, que a actual não logrou obter), como as soluções da ida ao Jardim Zoológico, do telefonema falhado a Murilo (que mudou repentinamente de opção sexual e embeiçou-se por Alice) redundam numa confusão desgraçada. Pior: este ainda confessa que não é médico, destruindo a trama. Já antes tínhamos assistido a uma discussão, num casamento alheio, entre Vasco e Alice que não passa de uma cópia a papel químico de comédias românticas norte-americanas, com direito a comida a voar pelo ar – uma sequência pífia e dispensável.

A câmara (e quem está atrás dela) tenta criar química entre o Vasco e a Alice de 2016, mas não almeja o objectivo. Vasco Santana e Beatriz Costa entendiam-se e berravam um com o outro na perfeição – ela pespineta e ele marialva. A fotocópia de 2016 só tem tensão e uma câmara giratória à procura do plano perfeito para um beijo hollywoodesco, esquecendo-se da janela que teima em tentar decapitar Vasco (e piadas associadas). Se Beatriz Costa se lançou ao Brasil durante uma década, sempre conservou a alma portuguesa que bem transparece no filme original, não se podendo considerar Luana Martau uma espécie de Beatriz Costa regressada. Novamente: personagem mal concebida, deixando à actriz um trilho complicado de seguir.

Tecnicamente, cinematografia razoável e fluida, saindo prejudicada por uma montagem e argumento que deixam o espectador em confusão, com pontas soltas na história. Contudo, várias dessas pontas soltas acabam por não despertar mais interesse.

E Miguel Guilherme? É um dos grandes actores deste País, em particular na comédia. Uma pena que o argumento não tenha trazido o Miguel Guilherme imortalizado em O Fura Vidas ou na Herman Enciclopédia, para avivar esta nova versão de Caetano, homem de negócios licenciado, mestre e doutor pela Universidade da Vida (a melhor de todas, dizem os seus alumni pelas redes sociais) – passou-se da alfaiataria para uma data de negócios (e negociatas). Contudo, Miguel Guilherme não actualiza o trabalho de António Silva, muito por insuficiente desenvolvimento da personagem, visto que nada sabemos sobre a vida de Caetano e os fragmentos não despertam interesse. Sabemos que é mais um político português à cata de dinheiro nacional e estrangeiro; os angolanos a pairar sobre a economia nacional, a ex-colónia como o destino de arrecadação de dinheiro da moda – entretanto caído em desgraça. E, claro, enfia-se ali um conde (este da Ericeira) meio surdo para completar os restantes estereótipos. Lamentavelmente, faltam as broncas do velho alfaiate.

A Alice de 2016 (Luana Martau).

A Alice de 2016 (Luana Martau).

Onde A Canção de Lisboa se distingue é na observação que faz da inserção da Internet na vida das pessoas; as trocas de mensagens entre as personagens, as confusões nas redes sociais (nem a nudez do Snapchat escapa). O pormenor da participação no programa de Nuno Markl e o vídeo viral do candidato Caetano e sua boca cheia de azeitonas é um tiro em cheio no porta-aviões das fotografias e vídeos falsamente espontâneos (e de pura propaganda) de políticos contemporâneos nas redes sociais. É a maior lição do filme: a de que também esta faceta de pseudo-humanidade dos políticos pode ser alvo de chacota.

Como isto dos empregos a sério dá trabalho e chatice, outro momento mordaz de A Canção de Lisboa: Vasco passa na oral com o catedrático Ruy de Carvalho e vira licenciado (ou que grau equivalente se obtenha com a horrenda bolonhada à portuguesa) em Medicina mas não seguirá para o internato médico, mas sim para assessor de Caetano, novo Primeiro-Ministro de Portugal. Numa analepse mal colocada (problemas de montagem), finalmente sabemos o que se passou nos momentos de amnésia de Vasco – nada de muito relevante, apenas uma historieta de amor.

Final feliz para Vasco, Alice, Caetano, Murilo, tias e espanhola do bordel: todos comemorando no casório de Vasco e Alice, cantando alegremente nova cançoneta de Miguel Araújo que substituiu os clássicos do original. E a ordem sócio-política continua na mesma: as tias e o novo Primeiro-Ministro são agora compadres, já se adivinhando negociatas no horizonte. Se a crítica é propositada, uma salva de palmas, visto que o original, realizado numa fase de transição da ditadura militar para o Estado Novo, não se atreveu a colocar as elites de então em causa.

Porém, se se acusa António Ferro de ter construído uma tradição que não existia, não se percebe quem são os novos António Ferro (marketeiros políticos?) e se o mote é dar a crer que esta multiculturalidade e humor de 2016 são o novo Portugal ou se as elites são tão execráveis que ficam reduzidas a caricaturas acessíveis.

O produto final é um filme com alguns momentos dignos de nota, mas muito longe do brilhantismo cómico (e da simplicidade) do original – ter um genérico final com kizomba (música “africana” para quem não conhece a que não tem aspas) é aviltante. Se se trata de veículo de consagração para César Mourão ou de rampa de lançamento para outras estrelas é tema de especulação, mas certo é que o actual humor popular português, meio revisteiro, meio escola Malucos do Riso, não merece tocar numa obra como A Canção de Lisboa. Pedia-se mais arrojo, um aproveitamento cabal do que estava para trás e uma cinematografia que ilustrasse o zeitgeist de Lisboa como o original – nem que fosse em estúdio. Se o Vasco Leitão original só queria ser Dr. e fadista, este é Dr. e assessor. Cottinelli Telmo (e José Galhardo) continuam, pois, a ser os autores da obra definitiva.

Mas o esternocleidomastoideo continua lá – nos nossos corpos e no imaginário popular, felizmente. Oioai!


sobre o autor

José V. Raposo

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