MENUMENU

Stereophant

Mar de espelhos
2017 | Toca Discos | Rock

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Em “Mar de Espelhos” a banda carioca Stereophant explora novas sonoridades e traz letras baseadas na relação do homem com o mar, lugar-paisagem que inspira tantas canções com a sua força e mistério. O álbum faz referência à jornada do herói, o que aproxima a sua narrativa àquelas retratadas no cinema, trazendo também uma pesquisa de sonoridades em algumas das bandas sonoras do consagrado Ennio Morricone.

Mais sobre este disco em baixo, através das palavras do guitarrista da banda Thiago Santos.

#1 Tem algo estranho no ar

Uma música direta e rápida que dá forma ao sentimento de incerteza que vivemos na vida pós-moderna. O clima caótico da música e da letra expressa esse grito que se abriga dentro de todos nós que vivemos um tempo que já não é mais o que era e tão pouco o que virá a ser.  Um tempo de liquidez constante onde tudo se transforma tão rápido que acaba gerando toda essa dificuldade de apreender  e entender bem  a realidade. Uma música que se encaixa muito bem no início do disco colocando quem a escuta no universo de conflito que vive o personagem.

#2 A cidade

Considero uma crônica eficaz da realidade urbana na qual vivemos. Dá continuidade ao caos introduzido na primeira faixa, mas dessa vez problematizando com mais objetividade elementos que causam esse conflito interno no personagem.  Gosto do fato de que ela pode abarcar as dores e angustias da maioria das pessoas que vivem na cidade. Uma cidade que não é construída para as pessoas, que não abriga a cidadania. A cidade poluída, excludente, com transporte “público” cada vez mais inacessível. A cidade das balas perdidas que tem endereço certo. A parte da letra que mais me toca é o final: “Mais um dia aqui, menos um para mim!”, num grito de desespero e indignação que imprime muito bem o que sinto cada vez que olho pela janela do ônibus com o transito engarrafado (vendo o tempo passar).

#3 Fora de Rota

Essa foi uma das primeiras músicas que fizemos para o disco novo. Considero ela especial por vários motivos. Acredito que foi composta quase que integralmente em conjunto com todos os integrantes da banda. Ela traz uma das nossas influências estéticas mais antigas que é o hardcore. Gosto da letra por apontar uma desobediência deliberada aos padrões de comportamento pregados em nosso mundo. Além disso, também me sinto envolvido pelo arranjo que em muitos momentos consegue  transformar em som elementos de uma sociedade industrial distópica e robotizada, repleta de fabricas e trabalhadores alienados do seu próprio trabalho e aprisionados num sistema onde são as coisas que controlam os seres e não o contrario.

#4 Longe de mim

Música que aponta na direção da misantropia, a vontade de se isolar. Momento no qual o personagem entende que a sociedade é um grande vilão e que para ser feliz ele precisa fugir. Acho a imagem do isolamento interessante e atraente, mas também perigosa. Por isso considero essa faixa importante. Quase sem perceber o Alexandre construiu com essa letra uma mensagem não só rica, mas necessária. No momento em que decidimos que nada importa longe de nós caímos na armadilha egoísta da auto-suficiência tentando dar fim a nossa memória afetiva e social, que na verdade só se constrói no encontro com os outros. O problema, no entanto, é que sem ela somos pouquíssima coisa. Na verdade quase nada.

#5 Gravidade

Canção bem diferente do que estávamos acostumados a fazer, tanto no aspecto letra, como no arranjo musical. Os violinos do Felipe Pacheco (Baleia) e as guitarras do Gabriel Ventura (Ventre) levaram a música para outro lugar. Ela cresceu muito e hoje a consideramos uma das grandes forças do disco novo. Gosto que ela tenha sido escrita pelo Vinícius Tibuna (o cara que me ensinou tudo que eu sei sobre tocar guitarra) num momento em que ele vivia exatamente o que a música canta. O sentimento de pisar em falso no vazio da vida e abraçar as mudanças que crescer nos impõe.

#6 O Fim

Música importante no encerramento da primeira parte do disco. Uma música que mistura melancolia, calma, desespero e o despertar com o entendimento resignado de que existe um caminho novo a ser seguido. Precisamos saber encerrar ciclos e ter força para criar o novo que será, mas que ainda não é, e que por isso é incerto. Gosto muito do final da música no momento em que as duas guitarras solam coisas completamente diferentes, mas mesmo assim harmonizam-se muito bem.

#7 Chumbo

A trilha sonora perfeita para transformar em som o terror da tempestade que precisamos atravessar para realizar uma transformação verdadeira no nosso espírito.

#8 Homem ao mar

A música responsável por termos nos lançado nessa missão de fazer um disco conceitual. Uma narrativa mítica que coloca em cena a imagem desse personagem que é um grande avatar de todos nós, que estamos sujeitos aos caprichos da existência. Tenho um carinho especial por essa música, pois nela podemos ver em determinado ponto a insignificância dos seres humanos frente as forças da natureza. Uma viagem rumo ao desconhecido na intenção de se purificar, de se encontrar. Impossível olhar para a imensidão do mar e não se sentir pequeno, não necessariamente como somos, mas como estamos. Homem ao mar constrói o mito do herói poderoso e destemido que se lança na imensidão do nada e se sente bem como nunca antes para depois esmagá-lo com a fúria das ondas na tempestade. Uma imagem muito animadora que joga na nossa cara a verdade da realidade na relação da cultura humana com a natureza. Muitos homens tem a pretensão e a sensação de auto-importância de que podem salvar o planeta. Mas como diria um velho comediante que é muito caro a mim: “Pergunte as pessoas congeladas em cinzas pelo vulcão de Pompéia como o planeta está se saindo esta semana?”. Usando a mesma figura de discurso jogamos um homem com uma jangada na imensidão do mar para que ele possa ver como o mar está se saindo essa semana. E parece que está se saindo muito bem.

#9 Mar de espelhos

Mar de espelhos é uma música especial, uma virada na história. O orgulho que nosso “homem ao mar” sentia no início da sua jornada é típico daquele que precede uma queda ainda maior. A imagem de um mar de espelhos nos impõe a necessidade de olhar para dentro para que seja possível entender o que precisamos transformar. A música tem um instrumental melancólico e sombrio que a meu ver dá forma a uma jornada dentro da jornada. Uma viagem para dentro de si, só que agora não no sentido egoísta, mas no sentido de perceber as nossas faces mais sombrias.

#10 Homem morto

Cumpre um papel muito importante na cronologia do nosso personagem, apontando a vontade de voltar a viver. A possibilidade de uma segunda chance. O instrumental desta música passa por momentos sombrios, momentos agressivos e explode no refrão. Uma música que desde a primeira nota não para de crescer e crescer até o final.

#11 Escafandro

Escrita pelo Fabrício (nosso baixista), ela traz uma simplicidade tanto na letra quanto no instrumental que engrandeceu o disco. Pra mim, é aquela simplicidade que todo artista almeja alcançar de não falar nada a mais, nem a menos. Uma música coesa, que para completar tem uma pegada instrumental de músicas de faroeste (coisa que eu sempre gostei muito). A participação do nosso querido Jan Santoro, do Facção Caipira, foi tipo uma coroação daquilo que já estava lindão e que veio a ficar perfeito.

#12 Herói

Herói é simplesmente a minha música favorita do disco. Ela tem uma pegada de trilha sonora de western que é muito bonita. Tem a participação do Tomás e do Bruno, do El Efecto (uma banda que gostamos muito). Eles são uma referencia pra nós, não só na estética musical, mas principalmente no posicionamento deles frente a arte e a percepção da mesma como uma potente ferramenta política, e ter eles participando do nosso disco foi uma grande honra na verdade. Gosto muito dessa letra por que ela nos coloca uma responsabilidade sobre a qual tenho pensado constantemente. Como alguém já disse em algum momento: “Pobre da nação que precisa de heróis”, uma vez que isso implica que ela precisa ser salva. A figura de um herói é uma coisa ambígua.  Pode tanto nos inspirar quanto nos estagnar já que muitas vezes ela tira de nós a responsabilidade de cuidar do nosso próprio destino. Quando acreditamos na figura de um salvador e deixamos de fazer aquilo que se espera de nós, deixamos de agir no mundo para que se termine a necessidade de termos heróis. Se levarmos esta questão para o campo da política por exemplo, a crença de que pode existir uma figura salvadora alimenta a idéia absurda de que a expressão máxima da democracia se encerra no ato de apertar um botão verde num determinado dia de quatro em quatro anos, depositando nossos anseios por mudanças em pessoas que personificam o que acreditamos ser a salvação para a nossas comunidades. Delegamos a essas figuras uma responsabilidade que deveria ser nossa. E quando elas morrem, quando nos decepcionam, ou para ser mais atual, quando sofrem um golpe de estado, nos sentimos orfãos, e não autônomos. É por isso que figuras como Marighella e Che Guevara reluzem nas páginas da nossa história muito mais como um exemplo de tudo aquilo que não somos ao invés daquilo que poderíamos ser.

#13 Crer para ver

Uma transição simples que aponta a direção que o nosso personagem vai seguir na ultima parte do disco: a redenção humana e espiritual.

#14 A fonte

A Fonte aponta outro momento na construção desse novo ser que é o nosso personagem. Um momento antagônico àquele vivido na música “Longe de mim”. Agora o isolamento não é mais o caminho, mas sim a comunhão: “ser um só, não é ser só um”. Nasce aqui uma postura holística frente ao mundo.

#15 Essa Música é a Cura

Essa música é a cura é uma música diferente. Tem um coro especial no final onde cantamos o refrão como se fosse um mantra. Na verdade acho que essa música é um mantra. A cura para os nossos problemas mais terríveis é conseguir ser aquilo que realmente somos.  Logo para nós músicos a cura é fazer música. Como diria Leminski : “ Isto de querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além”.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

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