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Konono Nº1 Meets Batida

Konono Nº1 Meets Batida
2016 | Crammed Discs | Experimental

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Estive presente numa actuação dos Batida no Womex 2014 em Santiago de Compostela e fiquei completamente encantado pelo concerto: era fresco, inventivo e cheio de groove. Alguns dos ritmos lembraram-me os padrões de bateria usados por Konono Nº1. Então a ideia surgiu-me: desde o seu trabalho com vários músicos western no contexto da “super banda” Congotronics vs Rockers, em 2011, que os Konono Nº1 nos diziam que adoravam fazer um álbum inteiro em colaboração com um músico rock ou de electrónica… e esta podia ser a escolha perfeita. À medida que o concerto dos Batida acontecia comecei a imaginá-los a entrelaçar o seu som com o de Konono, e a criarem juntos algo realmente selvagem. Após o concerto, de volta ao meu quarto de hotel, consegui encontrar o endereço de e-mail do Pedro Coquenão (tínhamos estado em contacto há alguns anos atrás), e tentei falar com ele de imediato… Ele respondeu na manhã seguinte e reagiu com entusiasmo quando lhe apresentei a ideia por telefone. O resto é história…
por Marc Hollander (dono da Crammed Discs)

#1 Nlele

Esta ficou-me logo no ouvido quando ouvi as primeiras maquetes e os vi ao vivo. Depois de conversar com o Augustin sobre a letra fiquei ainda mais interessado. Fala da necessidade de ter um casaco para sobreviver socialmente. Desafiei o AF Diaphra a fazer a sua tradução e a dialogar com o Augustin sobre o dito tema. Gravámos um take ao vivo em que juntei um sub bass e mais tarde uma programação que oscila e acompanha o tempo natural da banda.

#2 Yambadi

Aqui a ideia era fazer brilhar a Pauline. Gostei muito da forma como ela cantou o tema. Acabou por ser aquele em que mais mexi. Refiz a música deixando que a estrutura fosse inicialmente definida pela voz da Pauline e depois pelo solo do Augustine, dialogando com o meu synth, marcados por padrões rítmicos criados especificamente para esta música. Apesar dessa maior intervenção na produção tentei que mantivesse e passasse o mesmo ambiente que vivemos a gravar na garagem.

#3 Tokolanda

Pareceu-me importante que existisse um tema neste disco em que tudo decorresse como em discos anteriores: take inteiro dos Konono, captados e produzidos pelo Vincent. Clássico. Pouco ou nada interferi. Limitei-me a sugerir uma guitarra (Papa Juju) para assegurar a parte rítmica e libertar o Augustin para que pudesse fazer brilhar o seu Likembe.

#4 Bom Dia

Aqui foi o raciocínio oposto: fazer algo que a banda não tivesse feito antes. Os Konono Nº1 são reconhecidos pelo som do Likembe e as vozes são muitas vezes descuradas por quem ouve. Este deve ser um raro tema em que os Konono usam apenas vozes. Na altura pareceu-me também a forma mais natural de apresentar a Selma Uamusse à banda. Chegou, fizemos uma roda e gravou este take à primeira.

#5 Kinsumba

Nesta música a ideia foi a de começar da forma mais habitual para a banda, sem interferências e ir gradualmente introduzindo elementos electrónicos e manipulando até conseguir uma transformação quase completa do tema.

#6 Nzonzing Família

Depois de gravarmos os temas todos como os trouxeram, sugeri improvisarmos por cima de uma base ritmíca diferente. Apresentei a Dikanza ao Jacques e a coisa arrancou. Saiu-me uma parte da letra do Luaty e um refrão inventado no momento para pontuar o instrumental. Era para ser apenas um momento de diversão e descompressão após os primeiros dias de gravação mas o Vincent tinha gravado tudo e acabou por figurar no disco. O poder mencionar o caso dos 15+2 em entrevistas acabou por ser decisivo, porque não estava nos planos aparecer a desafinar no disco : )

#7 Kuna America

Esta letra é um gozo ao estado da indústria musical. O Augustin imaginou um futuro em que, ao viajar pelo mundo, encontra o seu actual editor e o seu manager a fazerem pela vida em cidades diferentes. Para quem domine o Francês como eu não domino, talvez apanhe o momento em que o Marc (mentor da Crammed) é apanhado a vender peixe para pagar as contas, justificando-se com o facto de a música já não pagar contas. Ritmicamente sugeri este padrão rítmico menos habitual nos K1.

#8 Um Nzonzing

Nzonzing significa algo como uma “jam” em calão. À semelhança do “Nzonzing Família”, é isso mesmo: outro momento de descompressão sem outro fim que não o de nos encontrarmos através da música. Soou bem e acabei por trabalhar posteriormente no tema para acentuar esse momento de encontro, juntando-lhe um sample vocal do Sacerdote “Somos Bantú”.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

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