Entrevista


Kyle Bobby Dunn

São as nossas experiências pessoais e como tempo molda e nos nega certas coisas que nos permitem dissecar o que sentimos para, no fim, criar algo.


É difícil não nos deixarmos perder no infinito criado por Kyle Bobby Dunn.

Sem medo de trocadilhos e ao que possam soar, o canadiano tem criado, desde 2000, composições estonteantes que, enquanto minimalistas, procuram inspiração no clássico e fazem do drone a sua casa. É com Kyle Bobby Dunn & The Infinite Sadness (2014), o seu último trabalho, que se afirma na arte singular há muito criada por lendas como Stars of the Lid, William Basinski e Brian Eno: a de materializar memórias in vitro.

Não tens medo de trocadilhos. Isso é um sinal de que não te levas demasiado a sério?

Eu não me posso levar muito a sério, até porque o meu último nome é “Dunn”. Mas os trocadilhos nas minhas canções fazem sentido só para mim, de uma maneira bastante patética, na verdade. Mas o que é que se pode esperar do mundo triste em que vivemos?

Li numa entrevista que a tua primeira paixão foi o cinema e só depois passaste para a música. Porquê o ambient, de todos os géneros musicais?

Eu adoro bandas sonoras e ainda faço algumas baseadas em compositores que trazem algumas tendências ambient/atmosféricas para esses filmes. Já cheguei a gravar bandas sonoras para filmes bastante patéticos antes de me concentrar em fazer a minha própria música. É uma progressão natural, penso.

És comparado frequentemente com William Basinski, Brian Eno e Stars of the Lid. Concordas com essa comparação?

Eu gosto desses artistas e já tive a oportunidade de conhecer alguns deles ao longo dos anos. Aprecio bastante alguns dos projetos, também, mas só me apercebi da existência deles anos depois de começar a fazer a minha própria música.

Dirias que a tua música é uma espécie de incineração lenta? Eventualmente chegas onde queres chegar – e nós vamos contigo – mas demora algum tempo a chegar lá.

Eu gosto bastante desse conceito de “incineração lenta” em vários aspetos da vida. Não existe o suficiente porque estamos constantemente a seguir um relógio que nos impede de aproveitarmos as coisas naturalmente. E as nossas vidas estão constantemente a serem aceleradas, o que eu odeio. Portanto gosto de ser lento.

Vamos falar sobre “A Young Person’s Guide to Kyle Bobby Dunn”. É um disco feito de 5 anos de gravações. Aconteceu alguma coisa durante este período de tempo específico?

São basicamente faixas velhas que foram compiladas num álbum… Não houve um conceito para este álbum. Eu era – e ainda sou – uma pessoa bastante dispersa, portanto acabou por se tornar uma característica infeliz e própria do que eu crio. Bastante solidão e situações falhadas, circunstâncias, relações, etc… Muita coisa aconteceu durante este período de tempo.

Em termos de evolução, como é que achas que o tempo – e a experiência – afetaram a tua música? Como é que o teu último álbum, “Kyle Bobby Dunn & The Infinite Sadness” se destaca do anterior? O que mudou?

É a única coisa que normalmente afeta a minha sonoridade. Não consigo criar sem refletir no tempo e na experiência, portanto é assim que crio… Penso que é o que toda a gente faz. Claro que há sempre inspirações técnicas e coisas do género que me ajudam a mim e a outros durante este percurso, mas são as nossas experiências pessoais e como tempo molda e nos nega certas coisas que nos permitem dissecar o que sentimos para, no fim, criar algo.

Este álbum foi diferente de qualquer um que já tenha feito. Foi tanto uma afirmação própria, da minha vida e da música em si como um álbum-conceito. Todas as músicas seguem um padrão ou um tema idêntico. É sobre amor e todos os tipos de amor – amor-próprio, amor romântico, amor que nunca conseguiu existir e nunca conseguirá, ou amores que existiram e foram bonitos mas nunca vão conseguir sobreviver e isso deixa-te desolado. Também porque foi gravado em loops durante anos espaçados e eventualmente foram alinhados mais rapidamente em faixas por eu estar tão devastado.

Como é que viver em Nova Iorque mudou o teu processo? Se é que isso aconteceu.

Já não vivo lá e ainda bem que saí de lá quando saí. Provavelmente teria sido “varrido” pelo furacão de 2012 ou morto por algum fã de armas ou do Trump. Já não vivo lá há alguns anos.

Tens estado “calado” há algum tempo. Devemos esperar um novo álbum num futuro próximo?

Não.


sobre o autor

Rita Neves

Música nas horas vagas e nas outras também.

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