Entrevista


Jards Macalé

Uma vez, era eu garoto, perguntou-me se eu gostava de música e mostrou-me a City of Glass. A partir daí comecei realmente a estudar música.


© Ariel Fagundes

Por estarmos condenados a viver o presente, sem poder avançar nem retroceder consoante a vontade e necessidade, havemos de perder inevitavelmente muito do que terá para nos oferecer. Serve o futuro para que olhemos o passado, à distância, e nele reconhecer o que na altura nos passou despercebido; ou o que ganhou novo significado; ou, a melhor das hipóteses, o que subitamente se mostra mais importante do que parecia, se desdobra e nos mostra qualidades que não lhe reconhecíamos. O tempo faz justiça, e o tempo fez justiça ao brasileiro Jards Macalé.

O seu nome dificilmente será alguma vez tão reconhecido como o de Caetano Veloso, ou Gal Costa, ou até mesmo Maria Bethânia; mas foi de todos contemporâneo e colaborador. Esteve no pré e no pós tropicália, mas não lhe pertenceu – até o confrontou. Mas é sobretudo autor de um percurso ímpar na música brasileira, elo de ligação entre vários intérpretes e artistas, e é dele que falamos hoje. Está em Portugal, neste mês, com honra de abertura do MIMO, em Amarante, concerto na Casa da Música, logo de seguida, e ainda uma passagem pela ZDB em Lisboa. Falámos ao telefone, numa curtíssima mas deliciosa conversa.

Jards Macalé

Há algo de existencialmente reconfortante em partilhar palavras com um artista tão experiente como Jards Macalé, que conta agora com 74 anos. Conheço-o mais pelo início da sua carreira – o seu maravilhoso disco de 72 é um óptimo ponto de partida. Macalé é um pouco mais velho que eu, mas ensaia um engano: “Então, eu sou mais novo…” – e puxando a brasa à sua alcunha futebolística, emprestada a um antigo, e não muito brilhante, jogador de futebol, declara peremptoriamente: “empatamos!”. Está sanada a contenda.

Vem agora a Portugal fazer uma série de concertos, depois de mais algumas datas por esta Europa fora. Para os espectáculos “trouxe três músicos: bateria, guitarra, e baixo, e vamos andar pelo meu repertório. E vamos tocar! Sobretudo, serão coisas dos meus discos, músicas como Vapor Barato, Farinha do Desprezo, e outras coisas que posso inventar”. O reclamar das músicas como suas não é um pormenor desprezável: muita da sua obra foi interpretada por outras vozes, pela Gal Costa e Maria Bethânia, e até com maior sucesso mediático. 

Jards Macalé é artista contemporâneo de todos os nomes que associamos à música brasileira: Caetano Veloso, Raul Seixas, Chico Buarque ou Gilberto Gil, entre muitos outros; mas parte, porventura, de um sítio diferente, com formação específica na música clássica e erudita. Eu estava mais voltado para a música instrumental na época. A minha formação é diferente deles – eu formei-me como músico, mesmo. Comecei a estudar violoncelo, piano, orquestração, composição, regência. Então era mais para esse lado, não tão intuitivo. Mas nós trocámos muitas informações, lá por meados de 60. Tornámo-nos amigos; a construir uma amizade, mesmo”. Numa outra entrevista sua mais antiga, há um brilhante comento em que fala do “estupro auditivo” que foi ouvir, pela primeira vez, a City of Glass do compositor Stan Kenton: “o Severino Araújo, um grande maestro que tinha uma orquestra chamada Orquestra Tabajara, transformava grandes standards americanos e tocava-os com a banda dele. Uma vez, era eu garoto, perguntou-me se eu gostava de música – eu fui copista da sua orquestra – e eu respondi que sim. Então ele disse que me ia mostrar algo; e mostrou-me a City of Glass, uma peça baseada em Stravinsky e essas coisas. E não é bem aleatória, mas é dissonante. E a partir daí comecei realmente a estudar música”.

Jards Macalé

Jards Macalé com Jorge Amado

Claro que quando falamos deste período da história musical do país, é incontornável referir a tropicália, um curto mas intensíssimo movimento de renovação da estética e ideias da música popular brasileira. Enquanto Jards se dedicava à erudição e à formação musical académica, outros, como Caetano, os Mutantes, etc. bebiam o rock da América e dos Beatles como escape à opressão do regime militar instituído no Brasil. “Todas essas influências se misturaram”, diz-me, agora sobre um tema que lhe é especialmente caro – “mas eu não sou tropicalista, não participei no tropicália. Eu venho das canções mais tradicionais da música brasileira. Na hora em que eles partiram para fazer o movimento, eu estava a estudar para me fazer músico. Quando eles foram presos e exilados, eu fiz primeiro uma afronta ao governo com a Gotham City [em 1969], com o Capinam, que fez parte da Tropicália, e o Torquato Neto – mas isto já pós-tropicália; e fiz alguma direcção musical com a Gal Costa e da Bethânia, e acompanhava-as, mas não tinha nada a ver com a tropicália. Era já outra coisa. E depois o Caetano chamou-me para Londres [para gravar o Transa]… mas era já outra coisa. Fui, fiz alguns arranjos junto do Caetano, alguns festivais, e quando voltei para o Brasil em 71 ou 72, fiz o meu disco”. Afinal, a tropicália não é retrato de tudo o que se fazia no Brasil naquele momento.

O episódio de Gotham City é absolutamente lendário e é uma infelicidade tremenda que não haja imagens que acompanhem o som do sucedido: no Festival Internacional da Canção do Brasil, em pleno quotidiano de ditadura militar, Jards Macalé e Capinam levam ao palco uma música inspirada no Batman, sob a orientação de endiabradas guitarras eléctricas, e as letras subversivas (“Só serei livre se sair de Gotham City / Agora vivo como vivo em Gotham City”, e logo depois “Meu amor não dorme, meu amor não sonha / Não se fala mais de amor em Gotham City”) não agradaram ao público, que, afundados na incompreensão de tudo aquilo, os vaiaram durante toda a música.

Jards Macalé

Profundamente desiludido com o rumo político do país, teve ainda um complicado momento durante o mandato do implacável e feroz general Médici. “Produzi em 1973 um show, e dois discos com a gravação que foram proibidos na altura, no Museu da Arte Moderna do Rio de Janeiro na comemoração dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Neste espectáculo, que levou a palco uma imensidão de outros artistas brasileiros, foi entretanto reeditado em disco. Leram-se uma série de artigos da Declaração para que a juventude brasileira os pudesse conhecer: “esse show alimentou mais atitudes em relação aos Direitos Humanos no Brasil. Foi um momento forte e muito delicado” . Saíram desse espectáculo sob imensa pressão policial. Um acto de coragem, mas também de alguma insanidade.

Ainda antes do final da conversa, há-de recuperar o nome de Radamés Gnattali, compositor e professor com quem diz ter também aprendido muito – “foi dos músicos que com formação erudita a ligou à música popular brasileira “ -, e ainda de outros dois, precursores de tudo e influências maiores para a sua geração: Antônio Carlos Jobim e João Gilberto, como se não ousasse esquecer os seus nomes quando interrogado sobre a sua carreira musical. Fica assim traçado o cânone donde bebeu e aprendeu as bases da sua música, e lançado o convite para que o vejam numa das próximas datas que tem agendadas no nosso país.


sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa.

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