Entrevista


The Sunflowers

Não espero nada menos do que tudo a tirar a roupa. Incluindo eu.


© Luisa Cativo

Os The Sunflowers são um duo invulgar vindo da cidade do Porto. Com lugar apenas a uma baterista e a um guitarrista e vocalista, a banda toca um rock muito virado para os lados do punk… sujo, não muito elaborado tecnicamente mas directo, bem ao estilo de muitas bandas britânicas que viveram ali por volta dos anos 70. Com dois EP’s já editados e um monte de concertos nos últimos tempos por todo o país, vão estar brevemente no festival Milhões de Festa em Barcelos. O Arte-Factos foi falar com a banda para saber o que podemos esperar do futuro e em especial do concerto no Milhões.

Do vosso primeiro EP, s/t de 2014, para o Ghosts, Witches and PB&Js dá para sentir uma diferença enorme especialmente na qualidade do som, tudo apenas no espaço de um ano. O primeiro funcionou como uma experiência e perceberam que a coisa era séria e valia a pena investir mais?

Carol: Sim e não. O primeiro EP foi gravado numa sala totalmente improvisada com uma bateria antiga e com o material que tínhamos na altura (que não era muito). Gravamos 3 músicas numa tarde e gravamos os dois videoclips no dia a seguir. Foi um processo bastante divertido – estávamos em Arouca e nas pausas das gravações íamos dar um mergulho à piscina. Bem, resumindo, foi uma experiência totalmente DIY que fizemos basicamente porque tínhamos tempo e queríamos ter músicas cá fora.

Carlos: E as músicas foram feitas ao primeiro take. O EP “Ghosts, Witches and PB&Js” foi, definitivamente, um trabalho bem mais pensado. Tivemos um produtor a sério (em vez do mim depois de beber 3 cervejas), material bom (e não uma bateria com 40 anos comprada no OLX) e, acima de tudo, tínhamos uma opinião imparcial de alguém com experiência e a quem temos muito respeito. No entanto, há que realçar que apesar do profissionalismo todo, a escolha das músicas foi baseada em que músicas estavam prontas no dia antes de irmos para o estúdio (panque roque até aos ossos).

Carol: Portanto, de certa maneira o primeiro EP serviu para saber o que conseguíamos fazer só nós os dois e para consolidar bem o duo. O estúdio serviu para crescermos um pouco mais na maneira como abordamos as músicas e para nos lançarmos mais a sério.

Podemos ler no vosso “Faixa-a-faixa”, aqui para o Arte-factos, que tinham um outro guitarrista, curiosamente não um baixista (instrumento normal no vosso estilo de música). Quem toca os baixos normalmente nas gravações? E não sentem a falta da base que um baixo dá quando tocam ao vivo?

Carlos: Nós tentamos que ele tocasse baixo mas ele estava demasiado starstruck pela pedaleira da guitarra. De facto todos nós passamos pelo baixo em diversos ensaios. Fun fact: a Carolina entrou para a banda como baixista mas é mais fácil encontrar a Maddie do que um baterista que não exagere nos breaks.

Carol: Actualmente, o baixo é gravado pelos dois. Basicamente, por quem inventar a linha de baixo ou pegar no baixo primeiro. Já houve lutas. Não foi bonito. Estou a brincar, até foi.

Em relação aos concerto, há músicas que tiveram que ser deixadas para trás quando adoptamos o formato de guitarra/bateria. Exemplo: The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy. O facto de sermos um duo também mudou a maneira como compomos as músicas. Ao escrever as músicas podemos até fazer a linha de baixo que vamos gravar em estúdio mas não tende a ser um elemento essencial nas músicas ao vivo. Até porque o Carlos liga a guitarra a um amplificador de guitarra e a um de baixo e consegue jogar bem com os dois sons. Isso dá-nos os graves que precisamos.

Carlos: Obrigado.

Carol: Nas músicas que achamos um baixo essencial, pedimos a participação especial de um amigo nosso (shout out to Fred!).

Aparentemente, tomando como base o comentário que fazem, a saída desse guitarrista não foi pacífica. As relações de amizade mantém-se ou já há por aí alguma história típica das grandes bandas de rock & roll?

Carlos: Nada com aquele guitarrista é pacífico.

Carol: Aliás, há uma tendência um pouco chata para as atitudes passivo-agressivas. Da minha parte, não posso dizer que se mantenham.

Carlos: Se o visse na rua, cumprimentava-o.

Carol: Para mais informações sobre este assunto, estejam atentos à letra da “Mary Jane” da próxima vez que vierem a um concerto nosso.

Girassóis são algo com um lado tão bonito e poético e a vossa música têm um estilo bem mais “sujo”. Porque é que adoptaram esse nome?

Carol: Ah, seus marotos. Achavam que conseguiam disfarçar a pergunta. O porquê de nos chamarmos SUNFLOWERS vai ser relevado no nosso documentário (nós também sabemos ser marotos e deixar-vos à espera).

Carlos: Já há muitas bandas chamadas Sunflowers ou derivados.

Carol: Se bem que gosto do informalismo de nos chamarem girassóis e de ter girassóis a espreitar pela bateria.

Carlos: Só estamos à espera que nos processem para mudarmos de nome.

Carol: Ou nós processamos alguém.

Carlos: Os advogados são muito caros.

Esta é mais direcionada. Carol, como é tocar numa banda com um estilo tão pouco atribuído a “meninas”, ainda para mais tocar bateria, esse instrumento tão pujante, dás-te como exemplo que as “meninas” não são mais aquelas “florzinhas” que gritam ao verem uma formiga?

Carol: Isso é uma maneira de dizer que não sou feminina? É que o Carlos roubou-me os vestidos todos, não tenho culpa. Mas falando a sério, as melhores bateristas de garage rock são raparigas (Ty Segall, Gories, White Stripes, Jack Shits). Ok, podem dizer que trazemos um elemento refrescante ao palco. E que decoramos a sala de ensaio (guilty). Para dizer a verdade, antes de Sunflowers nunca me tinha imaginado na bateria. Mas agora que toco, adoro. A única diferença entre mim e um baterista é que eles podem tirar a camisola quando têm calor sem qualquer tipo de pudor.

Carlos: Ela não é daquelas florzinhas que grita a ver uma formiga tanto que é ela que trata das aranhas. Acho que é a arma secreta dos Sunflowers.

Carol: Obrigada, Carlos. E a minha bateria não é muito pujante. Aliás, tenho muito orgulho nela. É pequenina, tem autocolantes e girassóis falsos a sair do bombo.

Nos últimos tempos têm tido bastante actividade, bastantes concertos e corrido o país de um lado ao outro. Já se trabalha por aí num longa duração ou por enquanto vão continuar a explorar até onde estes dois EP’s vos levam?

SUNFLOWERS: Curiosamente, esta entrevista chegou no dia em que acabamos de gravar um single novo. Esperemos que não demore muito a lançá-lo. Independentemente disso, queremos continuar a levar os EPs até onde podemos, claro. Até porque ainda temos cassetes para vender (#ficaadica). Um longa duração, no entanto, não está fora dos nossos planos. Estamos só à espera de uma editora que nos ajude a espalhar as sementes por aí (#ficaadicaoutravez). E que pague o estúdio (Sá da Bandeira for life).

Entre outros concertos vão estar no Milhões de Festa. Preparam algo de especial para essa actuação? Vão apresentar algum material novo? E quais são as perspectivas para esse concerto?

Carol: Temos que preparar alguma coisa especial? Bolas, já não temos muito tempo.

Carlos: Em quase todos os concertos temos, pelo menos, uma música nova ou uma nova versão de músicas antigas.

Carol: Temos boas perspectivas para esse concerto. O Milhões vai estar cheio de coisas boas e vamos reencontrar-nos com bandas com quem já tocamos, como Go!Zilla ou Cave Story e vamos ver bandas novas que gostaríamos de já ter visto.

Carlos: Não espero nada menos do que tudo a tirar a roupa. Incluindo eu. 😉


sobre o autor

Joao Neves

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