Entrevista


Linda Martini

Fizemos um disco novo, continuamos a trabalhar para fazer mais músicas e estamos aí firmes como amigos.


© Hugo Lima

Se “prognósticos só no fim do jogo“, como se diz por aí, nós fomos tirar as teimas com os Linda Martini, após o seu concerto no Palco Vodafone do festival Paredes de Coura, ao qual aliás regressaram, depois da sua passagem pelo mesmo local em 2011. Para além do rescaldo do espectáculo, houve ainda tempo para falar do público fiel que segue a banda e de embarcar numa viagem ao passado, até aos tempos de “Amor Combate”, ora leiam.

Estamos aqui após o final do vosso concerto em Paredes de Coura, como foi?
Pedro Geraldes: Foi fixe, foi divertido!

E o que é que acharam da reacção do público, principalmente nas músicas mais recentes de “Turbo Lento”? Correu-vos bem?
Hélio Morais: Sim, a música com o pico mais alto e mais gente a cantá-la foi precisamente a “Ratos”.

Ainda para mais Paredes de Coura está decorada…
Pedro Geraldes: Pois é, é verdade, há stencils por aí, nós estivemos a ver! É incrível, foi apoteótico.

Já com mais de dez anos de carreira, que música é que não pode faltar nos vossos concertos e que música vos dá mais gozo tocar?
Hélio Morais: Não há, não há! Não tocámos hoje a “Amor Combate” nem a “Mulher-a-dias”, por exemplo.
Pedro Geraldes: Nem a “Dá-me a tua melhor faca” nem a “Este Mar” e tanta gente disse “não tocaram aquela”. A verdade é que há sempre músicas que ficam de fora e isso também é bom para nós que não estamos sempre a tocar as mesmas, não é? Mas para quem nos vê fica sempre aquele “não tocaste aquela que era a que queria mesmo ouvir!”.

Mas também com tanta música, como escolher…
Hélio Morais: Nós deixámos o single mais tocado do “Casa Ocupada”, que era o “Mulher-a-dias” e o single mais tocado do “Olhos de Mongol” que era o “Amor Combate”.
Pedro Geraldes: Não é propositado, mas aconteceu…

Claro, tem que se construir não é?
Pedro Geraldes: É, exacto. Fazes uma ordem de set do concerto e acaba por ficar como decidimos.
Hélio Morais: E se as pessoas souberem sempre que as vão ouvir também se torna secante, é bom não se contar sempre com uma música.

Mas há alguma que vos dê mais gozo tocar, como banda ou mesmo a título individual?
Pedro Geraldes: Todas. Há músicas que numa determinada altura da vida se calhar nos sabem melhor tocar que outras a todos, mas por acaso não há nenhuma música em que digamos “vamos tocar agora aquela!”, gostamos de todas. Às vezes mais de umas, outras vezes mais de outras.
Hélio Morais: E muda dentro de cada um também…

Da última vez que estiveram cá foi em 2011. O que é que mudou para Linda Martini desde essa altura?
Hélio Morais: Tocámos cinco músicas do “Turbo Lento”…
Pedro Geraldes: Fizemos um disco novo, continuamos a trabalhar para fazer mais músicas e estamos aí firmes como amigos.

Vocês têm um dos públicos mais fiéis, têm noção disso? De que forma é que isto influencia o vosso trabalho quer em disco, quer ao vivo?
Hélio Morais: Não muito… influencia num sentido, traz-nos um descanso gigante naquilo que nós fazemos. Não cedemos a qualquer pressão que pudesse alguma vez existir, e que até hoje não existiu, mas às vezes é fácil caíres na tentação de “vamos fazer uma coisa mais comercial para abranger mais pessoas”. Nós temos de facto um público tão fiel e que nos apoia tanto que nos traz um descanso muito grande na altura de compor, não temos que pensar em mudar nada, podemos fazer aquilo que gostamos de fazer.
Pedro Geraldes: Logo à partida não queremos pensar nisso também, e é a cena mesmo da gratidão, sabes? Ter pessoal que de repente está ali… e temos muita sorte, sempre dissemos isso desde o início, fomos surpreendidos mesmo nessa altura porque vimos de outras bandas de punk/hardcore e já tínhamos algum público que nos seguia, mesmo que fosse ali uma franja, e houve ali uma transição quando surgimos com Linda Martini em que essas pessoas nos acompanharam. Depois, de repente, houve ali um salto para ter muita gente a gostar de nós, a acarinhar-nos, a dar-nos força e isso é o melhor que uma banda pode ter, fazer alguma coisa e ter alguém que gosta e que acaba por não ser só nosso, ajuda a crescer muito mais.
Hélio Morais: E fugiu de mãos muito rápido, é engraçado isso…

Estou cá em casa de família, e estive a ver os meus cds, lá pelo meio encontrei o meu EP do “Amor Combate”…
Hélio Morais: Eu não tenho!
Pedro Geraldes: O primeiro de todos?
Hélio Morais: O preto? Estás a falar do preto?

Não, aquele que tem a capa cor-de-rosa…
Hélio Morais: Ah! Aquele ainda em cartão. Eu não tenho nem um nem outro!
Pedro Geraldes: Esse foi editado pela Naked, mas foi o primeiro que nós fizemos…
Hélio Morais: Esse fomos nós que o cortámos ainda!

Já imaginavam naquela altura enquanto estavam a recortar…
Hélio Morais: Não, nem pensar.
Pedro Geraldes: Nós nunca pensamos nisso.
Hélio Morais: Nessa altura queríamos tocar no Maus Hábitos, queríamos tocar na ZDB, queríamos tocar na Sociedade Harmonia Eborense… e achávamos que ia ser isso.
Pedro Geraldes: Íamos continuar com as nossas bandas como sempre tivemos, dávamos concertos e depois rebentou de uma forma que foi fixe para nós, obviamente, com mais oportunidades para tocar, mas fugiu mesmo fora de controlo.
Hélio Morais: Na altura tínhamos todos 26/25 anos e não fazíamos sequer ideia de como funcionava esta indústria, sempre viemos da cena punk/hardcore e para nós era tudo “baza fazer um concerto / então vamos marcar / e marcávamos”, e era com amigos e fazíamos as nossas t-shirts e fazíamos algum dinheiro que juntávamos para fazer maquetes, fazer cassetes, etc. E de repente fomos confrontados com toda uma indústria que nunca achamos que pudéssemos atingir, foi estranho.

O que é que acham que contribuiu para esse salto?
Pedro Geraldes: Esperamos que seja a música! (risos)
Hélio Morais: Há dois momentos chave, e que se tem que dar valor, um foi o Luís Bandeira que na altura nos ouviu no Myspace e pegou em nós. Ele estava a fazer uma editora independente e pegou em nós. Pegou na nossa demo, deu ao Henrique Amaro e depois…
Pedro Geraldes: Até o EP que tens gravado e cortado por nós foi editado pelo Luís, que tinha saído de uma editora grande para formar a dele, e por isso já estava no meio, já tinha contactos, etc, e isso que o Hélio disse é verdade, provavelmente ele conseguiu dar-nos um boost que talvez só por nós não tinha sido possível.
Hélio Morais: E o dois, foi o Henrique Amaro que achou que uma música de cinco minutos como a “Amor Combate” era um single de rádio.

Só para terminar, sei que vocês já estiveram por cá ontem, o que é que mais gostaram de ver e o que é que não podemos perder até ao final do festival?
Pedro Geraldes: Sim, viemos ontem e anteontem…
Hélio Morais: Capicua e Thee Oh Sees.
Pedro Geraldes: Até ver foi Capicua, Thee Oh Sees foi um grande concerto…
Hélio Morais: E Seasick Steve, acho que foram assim os três.
Pedro Geraldes: Sim, e Seasick Steve também, numa onda muito fixe, ainda durante o dia mas muito forte, muito bom.
Hélio Morais: Amanhã tens Goat, que é incrível…
Pedro Geraldes: Nunca vi e tenho curiosidade, conheço em disco e quero ver ao vivo.
Hélio Morais: Black Lips é sempre um bom concerto.
Pedro Geraldes: Já vimos alguns concertos deles e são sempre fixes.
Hélio Morais: Olha, e gostei muito de ver Killimanjaro. São miúdos, dezanove aninhos, e deram um concerto muito competente, não conhecia e gostei.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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