MENUMENU

Entrevista


Lightning Bolt

Se perceberes uma forma de ser interessante, não é preciso muito mais - consegues fazer muito a partir de um mecanismo muito simples.


Ainda no Festival Vodafone Paredes de Coura, foi possível chegar à fala com o baterista do projecto noise-experimental Lightning Bolt. Brian Chippendale divide a banda com outro Brian, Gibson de apelido. Chippendale não precisa de muito para falar; é bem mais afoito em discurso directo do que nas estranhas vocalizações que faz em palco, como forma de texturar ainda mais a música da banda. Mantém um projecto paralelo, Black Pus, que se recomenda vivamente a quem aprecia o seu trabalho em grupo.

Vou ser sincero: não sei muita coisa sobre vocês, mas o que sei, sei pela revista Wire [publicação britânica de música underground de referência, na qual saiu um artigo com os Lightning Bolt].

Ah! Porque essa edição já saiu há um par de anos. É engraçado: comecei a comprá-la porque saíram umas três edições consecutivas com críticas a coisas nossas, e era muito difícil de encontrar. Então comprei uma, e depois outra, e depois pensei “devia arranjar uma subscrição”. E assim fiz, de certa forma apenas para ler as críticas às nossas coisas, mas acabei por me interessar pela revista. Sempre que chega a renovação, é sempre tipo “mais 90$ ou lá o que é – devo fazê-lo?”.

E começam a acumular, porque é tanta informação!

Acumulam. Lês um ou dois artigos em cada edição e pensas: “isto vale a pena?” Mas depois, é tão fixe! Sem dúvida alguma, já tirei de lá coisas, já encomendei álbuns devido à secção de reviews, apenas para descobrir algumas coisas. É um bom recurso.

Eu adoro-os. E acredito naquele tipo de jornalismo. Há tanta informação neste momento, e é bom que haja algo tão específico, direccionado para um público também muito específico, e sem problemas financeiros – eles têm um contacto tão directo com cada leitor que não têm de se vender.

Pergunto-me se se estão a sair bem o suficiente. Se aquilo é sustentável para uma revista.

Penso que sim. Mas a minha questão é: isto é uma decisão normal para vocês [vir tocar a festivais deste tamanho?]. Não sei em que tipo de palcos costumam tocar.

Ocasionalmente tocamos em festivais, mas somos mais uma banda de palcos pequenos. A última vez que tocámos em Portugal, e isto foi há uns oito anos, tocámos em Lisboa num parque de estacionamento, e fazia parte de algo que a ZDB organizou. Eles encontraram aquele sítio estranho para nós tocarmos. Algumas pessoas encontram estes sítios algo estranhos, aleatórios, porque…Quer dizer, é engraçado – na verdade, temos muito equipamento, tipo uma grande pilha de amplificadores, uma enorme quantidade de coisas, e mesmo naquele concerto foi difícil levar todo o material no elevador público. Aconteceu de estarem casais no caminho para o carro, e nós ali, com um amplificador. E quinze viagens depois tínhamos finalmente tudo lá em baixo para tocar, e no final foi preciso levar tudo de volta para cima. Não precisamos de um PA porque temos tudo isto connosco, e tocamos em qualquer lado; e não sei se isto é a maneira normal de proceder mas fazemos um pouco de tudo. Tanto tocamos em sítios estranhos como um parque de estacionamento, como vamos a festivais com enormes sistemas de som.

É o que aparecer?

Sim, é o que aparecer. O que aparecer — quer dizer, há aspectos diferentes em cada. “Este paga bem”, ou “este vai ser muito divertido”, onde queremos ir? Então tentamos apenas fazer uma boa viagem.

Parece-me que este é um óptimo balanço entre os dois.

Penso que sim! Só de andar por aqui, eu nunca estive num festival onde estivesse tanta gente a flutuar em bóias num rio. Apenas dum ponto de vista visual, isto parece um sítio muito fixe.

O plano sempre foi ter apenas dois instrumentos?

Não necessariamente: quando começámos, tínhamos um vocalista, por pouco tempo, cerca de ano e meio. Portanto, eu na bateria, o outro Brian no baixo, e tínhamos um vocalista. Não necessariamente um alinhamento normal.

Eram músicos capazes?

Nós éramos bastante bons no início. Já somos uma banda há vinte e tal anos, mas éramos muito bons quando começámos. Mesmo que não estivéssemos a tocar os nossos instrumentos há assim tanto tempo, porque, sabes como é, na universidade não tens assim tanto tempo. Acho que a cena entre nós é que eu toco bateria, ele toca baixo, e de certa forma acabámos por nos ficar nestes instrumentos, e tornámo-nos bons bastante rápido quando éramos novos – faziam sentido para nós, entendes? E as pessoas achavam que éramos bastante bons neles, há vinte anos, mas nós estávamos tipo, “hum, somos bons: conseguimos fazer este tipo de coisas. Estamos a mostrar-vos onde somos bons”. Eu não sei se conseguimos fazer de tudo, tocar qualquer tipo de coisa. Mas tornámo-nos bons num determinado tipo de música muito rápido.

E qual é esse ‘determinado tipo de música’?

É tipo — algumas pessoas chamam-lhe noise rock.

Acho muito interessante como se consegue ver, no alinhamento deste festival, que o hip-hop e o jazz estão a entrar no mainstream

…e o r&b e o jazz, o Thundercat e o Kendrick Lamar. Há uma onda enorme de coisas que estão a sair.

E vocês estão na periferia de isso tudo. Acho que vão resistir à moda.

Sim, não nos influenciamos muito facilmente – nós tocamos coisas bastante agressivas, música alta, mas é interessante porque…não sei bem – tipo, o Flying Lotus é outra pessoa de quem gosto, e já falei com o Thundercat – apenas online – porque ele se interessa pelo que nós fazemos, e há uma ligação. A cena desse pessoal, a musicalidade e tudo isso, eles são gente muito musical. A cena do Kendrick Lamar vai ter a tudo – faz referência a tantas coisas diferentes. Mas é hip-hop, com uma raiz no hip-hop, ou algo assim. E acho que eles são todos fãs de música, eles gostam mesmo disto. Nós provavelmente nunca iremos nessa direcção, nunca, mas eu ouço esse tipo de coisas: hip-hop, e cenas de dança. Sinto que há um lado muito físico nesse tipo de música. Aquelas batidas conseguem ser bastante pesadas, e eu gosto de batidas pesadas. Tento deixar que isso permeie pelo menos no meu lado da banda, mas para todos os efeitos vamos continuar agressivos e tipo, fazer apenas rock cru, ou lá o que é.

E tudo isto para perguntar onde é que vocês encontram o espaço, ou a flexibilidade, para criar coisas novas com apenas um baixo e bateria?

Fica difícil porque já somos uma banda há imenso tempo. E tens uma determinada área, uma determinada quantidade de terreno que já percorreste para encontrar as tuas músicas. Se as músicas fossem como ovos da Páscoa, estarias à procura delas no teu terreno limitado. E quanto menos instrumentos tens, menor é o espaço dado, percebes? Portanto, ficou mais difícil. Penso que abrandámos o ritmo de lançamento de discos, de certa forma, e parcialmente devido a ter ficado mais difícil para encontrar a cena nova dentro do que já temos. Mas ainda a encontramos. E achamos que parte deste desafio é a parte interessante para nós, tipo “para onde vamos daqui, e o que podemos ainda fazer?” E às vezes perguntamo-nos, “qual é a parte fundamental da nossa banda?”, e a razão pela qual começámos com dois membros apenas: isso ainda faz sentido? E a natureza minimal duma banda de dois elementos, será ainda relevante, ou entusiasmante para nós? E normalmente chegarmos a “sim, ainda é relevante, sim, ainda nos entusiasma ser apenas dois instrumentos”, e não ter necessidade de trazer mais músicos, ou gente nos discos para preencher coisas, e orquestras ou lá o que fazem bandas mais antigas — sinto que bandas mais velhas, à medida que envelhecem, fazem tipo “venham daí as cornetas”, ou as secções de cordas, pelo menos em alguns projectos estranhos. Eu passo muito tempo sozinho a tocar bateria, e tiro muita satisfação apenas de tocar bateria. E consigo ouvir apenas bateria. E para mim, a isso juntar-lhe um baixo, é tipo — é imenso som a juntar a algo que já gostava previamente. Portanto apenas tens que ser interessante no teu instrumento. Junta-lhe outra pessoa igualmente interessante no seu instrumento e podes fazer muito de muito pouco, e por muito tempo, penso.

E eu desenho muito. Desenho praticamente a preto e branco, tipo banda desenhada, e…apenas desenhos. Gosto muito de caneta e tinta, cenas a preto e branco de simples contraste. Consegue ser muito denso e pouco simples. Há muitos artistas, pelo tempo fora, que fizeram desenhos a preto e branco as suas vidas todas. E há sempre cenas novas para desenhar com uma linha preta numa folha branca. É a cena mais descomplicada que existe, sabes? A música é, de certa forma, igual. Se perceberes uma forma de ser interessante, não é preciso muito mais – consegues fazer muito a partir de um mecanismo muito simples.

Uma última questão: vocês tocaram mesmo na casa do Steve Albini?

Nunca fomos ao estúdio dele!

Quero dizer, a sua casa…?

Não… há uma história, uma história engraçada que costumamos contar – que não tem assim tanta piada – que se passou quando tocámos no festival inglês ATP, e um pedal do Brian partiu-se. E nestes festivais, tu vais e todas as bandas ficam numa espécie de chalets, uma espécie de síto para férias, e os fãs ficam do outro lado do recinto nuns bungalows. E nós tínhamos dito a algumas pessoas “oh, a porra do pedal partiu-se – que vamos fazer?” E nisto, alguém bate à porta e é o Steve Albini com uma malinha pequena, e ele diz tipo “olá, sou o Steve Albini, grande fã”, e não tenho a certeza se ele consertou o pedal no local ou se o levou com ele para o trazer de volta. Por isso, a nossa interacção com o Steve Albini foi ele a chegar à nossa porta, consertar isto e depois desaparecer. Foi a única vez em que estivemos com ele.

A minha história era diferente…

Já passou disto?

Disseram-me que tinha sido em Glastonbury, e que vocês tocaram à porta dele.

Ah, foi provavelmente isto. Ou pode ser sido que — eu penso que o bungalow dele era perto, e nós tocámos à porta do nosso chalet uma vez, tipo uma cena surpresa. E acordámos algumas pessoas. Ao nosso lado estava a… como se chamava… Cat Power! Então, de manhã, acordámos uma série de músicos por tocar do lado de fora do nosso quarto. Alguns acharam que teve piada, outros devem ter ficado um pouco zangados. E acho que acordámos o Steve Albini também.


sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa. (Ver mais artigos)

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