MENUMENU

Entrevista


Kowloon Walled City

Demoramos imenso tempo a escrever. Torturamo-nos um bocado com certas partes e alguns arranjos. Tudo o que não estiver à altura é rejeitado.


Já só falta um mês para constatarmos como responderiam os alicerces do Mercado Ferreira Borges na eventualidade de um sismo. Apesar do nome inspirado na selva de betão japonesa, os Kowloon Walled City vêm mesmo de San Francisco, e como ninguém sabem conjugar a ansiedade patente no noise rock e o abalo do sludge num desesperado memoir de um empregado de escritório.

Trocámos dois dedos de conversa com Scott Evans e Ian Miller a respeito de Grievances – o disco que lançaram no ano passado – e da passagem da banda pelo Amplifest, naquela que é a sua primeira digressão europeia.

Lembro-me que da primeira vez que escutei o vosso novo disco, o Grievances, não conseguia passar da primeira faixa – sempre que a ‘Your Best Years’ acabava tinha de a ouvir de novo. Identifiquei-me com a letra, e aquela linha de guitarra depois dos primeiros versos, aquela linha de guitarra é mesmo para dar cabo de uma pessoa.

Ian: Bolas, obrigado! Isso significa muito para nós.

Scott: Sim, é uma faixa muito intensa. Concordo com o que dizes em relação à guitarra do Jon, é algo que adoro sempre que oiço essa faixa.

Lançaram o Grievances, o vosso terceiro longa-duração, no ano passado pela Neurot Recordings. Como é que chegaram à Neurot e como se sentem por estarem na editora dos Neurosis?

Ian: Os Neurosis são autênticos titãs. São uma das melhores bandas de sempre, uma das melhores da Bay Area, e são compostos por algumas das melhores pessoas que conhecemos. É uma honra enorme poder trabalhar com eles.

Scott: O Jason Roader [baterista dos Neurosis] já acompanhava o nosso trabalho há alguns anos quando decidiu mostrar o Container Ships ao resto da banda. Pouco depois disso recebi um e-mail do Steve Von Till a perguntar se estaríamos interessados em fazer alguma coisa com a Neurot – foi uma sensação espectacular.

Estão em digressão com os Minsk, a vossa primeira vez na europa. Já ouviram alguma coisa a respeito do Amplifest, para além do facto de tocarem lá em agosto? Quais são as vossas expectativas?

Temos alguns amigos que já tocaram no Amplifest, e disseram todos muito bem do festival. Queremos muito tocar lá – tanto que decidimos ficar mais um dia e aproveitar o resto do festival, assistir às amplitalks e desenhar um plano para ficarmos no Porto para sempre. Além disso, nenhum de nós esteve na maioria dos países aonde esta tour nos levará. É uma oportunidade incrível, estamos mesmo ansiosos.

Kowloon-Walled-City

Em 2013 lançaram um split com os Batillus em que tocam uma versão da ‘Anthem’ dos Godflesh – curiosamente a música que me deu a conhecer Godflesh. Suponho que seja uma banda que vos influenciou particularmente. Não só pelo tom “metálico” das guitarras e o pelo baixo pulsante mas também a nível conceptual parece haver muito em comum entre as duas bandas.

Ian: Os Godflesh fazem, sem dúvida nenhuma, parte do nosso ADN. No nosso material mais antigo havia a intenção de soarmos pesados e maquinais como os eles, mas com um baterista. Não sei se alguma vez atingimos esse objectivo, mas na altura era isso que procurávamos.

Têm uma sonoridade muito honesta. É fácil imaginar quatro tipos enfiados numa sala de ensaios a tocar bem alto quando ouvimos os vossos discos. Não me parece que sejam banda de recorrer às maravilhas de estúdio e da pós-produção. Quanto ao Grievances, de certa forma mais pesado e reduzido ao essencial que o álbum anterior, dá ideia de ter sido um disco muito pensado.

Scott: De facto demorámos muito tempo a escrever o Grievances, a revê-lo e a limar as arestas. Mas no fundo ainda somos os mesmos quatro tipos a tocar bem alto numa sala. Tem sido e vai ser sempre assim. Ensaiamos cada música até nos soar bem na sala de ensaios e só depois é que a gravamos. Optamos sempre por gravar ao vivo, em vez gravarmos guitarras, baixo e bateria isoladamente com overdubs e isso tudo. Foi sempre assim. Por isso tens razão, não há maravilhas de estúdio para além do facto de escolhermos salas com uma boa acústica e de pensarmos muito bem como vamos montar os microfones.

Ian: Demoramos imenso tempo a escrever. Torturamo-nos um bocado com certas partes e alguns arranjos. Tudo o que não estiver à altura é rejeitado. Procuramos, de facto, reduzir uma peça ao essencial e descartar tudo o que é acessório. É um processo árduo e frustrante, mas no fim acaba por compensar. Escutar, finalmente, o produto de todo esse trabalho é algo muito gratificante.

Sei que o Scott costuma pegar nas rédeas da produção e gravação. Qual é vossa abordagem: tentam ser fiéis ao vosso som ao vivo ou não se importam de o manipular ligeiramente e de experimentar nesse sentido?

Scott: Tento que os nossos registos sejam naturais e honestos. Eles soam ao que soamos ao vivo. Não tenho nada contra grandes produções mas apercebi-me que sou um pouco como um fotógrafo que só usa preto e branco e luz natural – se é que isso faz algum sentido. Felizmente esta abordagem funciona bem em Kowloon Walled City.

Gosto particularmente da forma como deixam as notas soar neste último disco, deixam-nas a pairar um bocado, e mesmo no que à voz diz respeito parece haver uma preocupação em não saturar o ouvinte. O Kurt Ballou (Converge) disse algo a respeito de como conseguimos realmente ‘escutar a banda’ neste disco: “No Grievances, não tenho a certeza se optaram por uma produção mais simples ou se é a própria música que nos dá essa ideia, mas a verdade é que não estou a ouvir a técnica neste disco. Tudo o que oiço é a banda”. De facto, o que vos torna especiais é mesmo essa proximidade. Se por um lado há uma sensação de claustrofobia na estética da banda, por outro a vossa música – pelo menos nos últimos registos – deixa muito espaço livre e os elementos “respiram” bem na mistura. Isto faz-vos algum sentido?

Ian: Sem dúvida! Temos tudo isso em mente mesmo antes de entrarmos em estúdio (ou pelo menos o Scott tem).

Scott: Neste disco em particular eu e o Jon esforçámo-nos por dar tanto espaço quanto possível às guitarras, tanto em termos de composição como do próprio som. Usámos tons muito honestos, aquelas guitarras não têm onde se esconder, e eu adoro isso. E claro, sobra mais espaço para o baixo, a bateria e para a própria sala onde gravámos brilharem.

O Grievances parece tratar de alguns aspectos cada vez mais flagrantes de um estilo de vida que a maior parte de nós infeliz e inevitavelmente acaba por ter. Passamos a maior parte do tempo enfiados num escritório a fazer algo que detestamos, imersos numa cultura e “estilo de vida” desenhados por e para idiotas, uma sociedade competitiva e obcecada pela produtividade e pelo crescimento só porque sim, sem nunca percebermos muito bem o que raio andamos a fazer com as nossas vidas. Para além disto, parece-me que o disco se refere também a um certo cansaço, à nossa percepção das memórias, como o tempo as altera, e à importância que lhes damos.

Scott: O tempo é, sem dúvida, um elemento muito importante nas nossas letras – especialmente desde que fui pai. Já não sou um miúdo, e os meus amigos e pais também estão a envelhecer. Apercebo-me que é algo de que falo muito nas canções que escrevo. No que toca ao emprego: uma das coisas em que estava a pensar enquanto escrevia o disco era questão do controlo. Tenho visto tanta gente a sacrificar as suas vidas pelo trabalho, e apenas para de repente levarem um banho de água fria quando as coisas se tornam ligeiramente menos boas. Bem sei que a vida é mesmo assim e que nada nos é garantido, mas não deixa de ser uma situação de merda.

A ideia de se estar confinado a uma existência claustrofóbica na cidade é algo bem patente na vossa banda desde o início. A pressão, um certo sentimento de impotência, a monotonia, são elementos recorrentes no vosso trabalho.

Não é propriamente intencional. Quando olho para o nosso trabalho há, efectivamente, alguns assuntos que tendem a ser abordados de forma recorrente – a família, o trabalho, as expectativas, a pressão, o facto de envelhecermos. Mas também falamos de outras coisas. Não sei; não me considero um grande letrista. Deixo as ideias de molho durante muito tempo e eventualmente passo-as para o papel. Devia esforçar-me mais nesse aspecto. A resposta é sempre essa, “esforça-te mais”.

Preciso de saber se tenho de assaltar um banco. Planeiam trazer muito material para vender nos concertos?

Ian: Teremos cópias dos lançamentos mais recentes em vários formatos. Teremos também disponíveis alguns métodos de pagamento alternativos muito criativos!


sobre o autor

Ricardo Almeida

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