MENUMENU

Entrevista


JP Simões / Bloom

O inglês, língua mais abstracta - para nós -, mais maleável, serviria perfeitamente para este novo disco e achei que não encaixava como sendo um disco de JP Simões. E daí esta mudança toda.


Um nome carrega em si um mar de significados, e mudar o nosso próprio seria, a vários níveis, um renegar da nossa história e identidade: cortar as linhas tecidas com o passado, e simultaneamente enfrentar o futuro sem os laços pré-determinados por tudo o que aconteceu anteriormente. Perda e libertação. Pudéssemos fazê-lo sempre, quando conveniente! Esquecer ditos e construir tudo de novo – pessoa nova!

Algo do género se passou com JP Simões. Artista de aura boémia e cáustica sinceridade que mais recentemente ocupara espaço na memória colectiva com o hino Gosto de me Drogar, reinventou a sua arte e é agora Bloom; ainda com a fiel guitarra a seu lado, convidou Miguel Nicolau (Memória de Peixe) para seu escudeiro e partiu a desbravar caminho. Destino? O início, talvez: uma época distante onde o mundo não era assim ainda, enorme e complexo; quando o regaço maternal era pouso consolo inevitável e natural. Onírico, planante, pueril: assim é Tremble Like a Flower, nome colectivo deste grupo de canções, cantado em inglês por nenhum motivo específico além da sua naturalidade, tal como para nós foi, em tempos, pouco mais do que a mágica ‘língua que se fala nos filmes’.

“Esta mudança de forma e de nome foi uma coisa bastante importante para sair de uma espécie de rodopio, remoinho artístico e pessoal, e claro que não foi apenas mais uma mudança. Na verdade, as outras mudanças tiveram a ver com mudar de banda, e mudar de nome de banda. Em termos de entrega, e de mudança efectiva, é mais significativa que as outras. Quer dizer – houve outras mudanças significativas, nomeadamente começar a tentar cantar e escrever em português, que era uma coisa que, quando comecei nesta história de cantar e tocar e etc., escolhia sempre cantar em inglês, porque era a referência que eu tinha, a língua cantada na música de que eu mais gostava. Não achava que tivesse muito a dizer aqui ao nosso público. Esta mudança, agora, foi bastante fracturante para mim – tanto que agora nem sei muito bem o que faça a partir daqui. Estou com este projecto Bloom actualmente mas, às duas por três, não sei o que faça com a obra do senhor JP Simões.”

JP Simões / Bloom

“Desde o momento em que comecei a trabalhar sozinho e a esforçar-me para  compor e ser autosuficiente, acabei por ir, aos poucos, desenvolvendo outras técnicas e mais à vontade não só expressivo como enquanto compositor, e naturalmente que tive que percorrer esse caminho todo para poder fazer este disco e esta música. E sim, claro, o que acontece neste disco também, e é um ponto muito preciso no qual tocaste, é que durante parte da minha vida nos palcos e discos, sempre fui muito auto-irónico e defensivo, e nunca tive grande descanso – a minha consciência nunca me deu grande descanso e o meu modo de viver sempre foi um bocadinho on the edge. E portanto a única forma que encontrei para viver com este trabalho público e nesta sociedade, foi criar uma capa um bocado auto-irónica, cínica, entre o drama e a comédia que lhe está implícita. E este disco, de facto, foi uma viragem nesse aspecto – não é que não tenha feito coisas mais sinceras e ‘sensíveis’ -, uma espécie de ferida aberta, simples, uma coisa sem necessidade de subterfúgios. Tanto a música como as letras, a forma como tudo foi colocado… foi um processo extremamente… não que os outros não tenham sido honestos, mas este teve menos disfarces, menos couraça, menos cinismo e uma coisa mais cândida. E sim, como dizes, bastante mais inocente, no bom sentido. A inocência existe quando existe – quando se perde, acho que é para sempre. O certo é que para recuperar alguma serenidade, no meu caso, foi preciso andar um longo caminho. E este disco reflecte isso, de facto.”

Bloom

Aceita-se o passado com olhos postos no futuro; a metamorfose é uma possibilidade.

Para nós, ouvintes, desenvolve-se uma relação especial com o artista que nos aparece como genuíno; quando as suas acções são – ou parecem – reflexo da pessoa, e não parte de uma performance. E nesse sentido, JP Simões sempre foi um caso singular: a sua música acompanha o Homem, e ouve-se como uma porta escancarada para a vivência do indivíduo. Os seus problemas, as suas opiniões, e excertos da sua mundivivência: tudo se aproveitou para construir o repertório do cantautor. Mas eventualmente, o tempo há-de ditar algum distanciamento para o que já foi feito; pode acontecer – e sobretudo com mudanças pelo meio – de já não se identificar com o que sentiu e perpetuou nas letras das suas músicas.

“Não tenho dificuldade nenhuma em identificar-me com o que fiz. Simplesmente… – como é que eu hei-de explicar – sou muito circunstancialista. Ou seja, num determinado momento estou motivado para outras coisas e estou noutro período da minha vida – e isso é uma das características da vida – e naturalmente tento deixar as coisas para trás. Estão feitas, estão arrumadas. Tanto que às tantas tive alguma dificuldade em termos profissionais porque, de repente, dava por mim com um património de trabalho que só podia ser feito por uma ou por outra banda, ou porque as músicas já não me diziam francamente nada. Portanto, as coisas vão sendo feitas e vão sendo arrumadas. Há pessoas que, pronto, têm outra forma de construir a sua carreira, fazem mais ou menos dentro dos mesmos moldes – não digo estéticos, mas vejamos o Sérgio Godinho: ele hoje pode cantar os temas do último disco e os temas dos anos 70, e as coisas fazem sentido. Para mim é complicado, porque são coisas que aconteceram pontualmente, nomeadamente as bandas onde estive a trabalhar, os discos que fui fazendo a solo, tudo se tornou bastante díspar e cada disco acaba sempre por ser um caso isolado. Fui resolvendo isso quando comecei, por volta dessa altura – 2006, 2007 – comecei a esforçar-me para não precisar de ter bandas. Comecei a tocar com mais afinco e a fazer concertos a solo, e consegui juntar uma série de repertório variado, fazendo as minhas versões para guitarra, e isso permitiu-me criar algum fio condutor. Agora com este trabalho de Bloom, houve mudanças a vários níveis e bastante estruturais e profundas. Não só porque estava à procura de ter uma outra posição quanto à música – não a música em geral, em relação à minha música: preocupar-me mais com o som, com a autonomia da música, que não funcionasse apenas para a voz mas para que tenha também uma expressão da composição e da guitarra; e fui buscar a outras fontes que não me diziam muito no passado, tipo o blues, e música étnica especialmente a africana, e aí aos poucos o jogo começou a modificar-se. E também não me senti confortável a escrever em português, e quis fazer uma coisa mais alienada do meu mundo e da minha língua e da minha realidade. O inglês, língua mais abstracta – para nós -, mais maleável, serviria perfeitamente para este novo disco e achei que não encaixava como sendo um disco de JP Simões. E daí esta mudança toda.”

JP Simões / Bloom

Tal como um insecto ao sair do casulo, há liberdade e uma nova vida.

Tremble Like a Flower é, de facto, um trabalho distinto de tudo o resto que já foi feito pelo conimbricense. A primeira faixa começa com um coro de guitarras enredadas umas nas outras, ondulantes, às quais se junta a voz, tímida ainda.  A instrumentação é cuidada; nos seus detalhes há espaço que entretém o ouvido, enquanto discerne tudo o que há por ouvir. E enquanto, letra e música juntos: com sopros, cordas e percussão, sugerem a ida inocência do imaginário infantil: convocam-se crianças, que hão-de chegar tarde a casa – e são as mesmas crianças que outrora habitaram o universo de David Bowie, cuja partida se deu a meio do processo de composição do disco. E de resto, há neste disco pistas da receptividade de JP Simões a outras influências musicais: se Nick Drake paira na expressão da guitarra, há também Van Morrison na exploração da música como sensibilidade, e talvez Jim O’Rourke na expansividade de cada um dos momentos. A música sente-se solta – uma maravilha à espera de desabrochar.

É, tendo tudo em consideração, um disco especial numa fase especial da sua vida – essa que sempre nos chegou de forma tão crua, e despida. Reflecte-o em busca de mais música, e encontrou a preciosa ajuda de Miguel Nicolau – que transformou uma base completa de guitarra e voz no portento que se ouvirá no Sábado, no Theatro Circo – e também junto dos maiores: enumeram-se Bowie, os Beatles, Nick Drake, os primórdios do blues, a energia do jazz; encontrou, num sítio outrora inacessível, alegria e desprendimento que não lhe conhecíamos. Tremble Like a Flower faz jus à metáfora botânica e brilha, mexe consoante o vento, deleita os nossos sentidos. Uma viagem à inocência, apenas possível por estar, agora, mais apaziguado com a infinita agrura da condição humana.

Acho que já fui bastante mais atormentado por isso, numa altura em que a minha energia era 10 elevado a uma potência de n incalculável para uma pequena percentagem de capacidade de a gerir. Portanto, essas portas todas abertas da infância, da juventude, em que as pessoas um bocado mais inquietas, ou que tiveram a pouca sorte de ter uma composição química tendencialmente depressiva, são…pronto, forjam períodos muito difíceis. O problema não é com a morte: a morte aparece quando tu não consegues lidar com a vida. O que assusta mais é a tensão de estares a perder o teu tempo e inevitavelmente estares a gastar os teus cartuchos. Tenho estado a ler uma biografia do dramaturgo e jornalista brasileiro Nelson Rodrigues, feita pelo grande biógrafo Rui Castro, e há uma passagem interessante lá em que ele [Rui] defende, em relação a uma situação qualquer com o Nelson Rodrigues, em que diz algo como “ele já tinha mais de quarenta, e as coisas que tinham que o assustar já o haviam assustado”. E portanto, identifiquei-me bastante com isso. De facto há coisas, em determinado ponto da vida… a única coisa interessante agora é o optimismo. Certamente tinha algum gozo em desperdiçar a minha vida – por delicadeza, ou por despeito, ou por aborrecimento – quando era mais miúdo; agora eventualmente apetece-me fazer o contrário e encarar isto com um optimismo absoluto.

Bloom sobe ao palco do Theatro Circo no próximo Sábado, dia 23. Subirá ao palco JP Simões, mais Miguel Nicolau na guitarra, Marco Franco na bateria, Sérgio Costa na flauta e saxofone, João Gomes nas teclas, e um convidado especial no contrabaixo, António Quintino. O bilhete tem o custo de 12€ – 6€ se portador do cartão Quadrilátero.


sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa. (Ver mais artigos)

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