Entrevista


Galo Cant'às Duas

Foi um desafio interessante equilibrar a improvisação e a nossa liberdade com a estrutura que tínhamos criado.


© Joana Linhares

A viagem do duo viseense Galo Cant’às Duas começou como muitas outras. Nascida de um acaso feliz e de uma oportunidade que se criou (será a isto que se chama destino?), desde cedo primou pela liberdade com que ambos os elementos encaram a música e, sem grandes amarras, começaram a moldar o seu caminho. Longe de ter terminado, esta viagem chegou a uma das várias paragens que terão ao longo do seu tempo, com a edição do excelente álbum de estreia “Os Anjos Também Cantam“.

Olá, primeiro que tudo, obrigado por responderem às nossas questões. Podem-nos falar um pouco de quem são os Galo Cant’Às Duas e de como tudo começou?

Olá olá. Galo Cant’Às Duas é composto por duas pessoas, Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre – a música desde muito cedo que faz parte das nossas vidas, sempre procurámos a educação direccionada para a composição e instrumentistas. Ambos passámos por variadas experiências com bandas e tudo isto ajuda ao facto de agora estarmos 100% focados no nosso processo com o Galo.

Tudo começou na aldeia da Moita, Castro Daire – fazemos parte de uma associação cultural com sede em Lisboa e anualmente é organizado um encontro de artes nesta aldeia. É uma semana incrível, com variadas mostras de arte a acontecer diariamente. Acontece que à última hora um artista contactou-me a dizer que não ia conseguir estar presente para o concerto da noite – achámos uma boa oportunidade para abrir asas à criatividade. Contrabaixo e bateria foram os instrumentos com os quais iniciámos a nossa aventura. Correu tudo muito bem, uma jam/concerto, do qual nos orgulhámos. O feedback das pessoas que presenciaram aquele momento motivou-nos para agarrarmos o nosso Galinho com todas as energias. Passado um mês já estávamos fechados na sala de ensaios a compôr.

São de Viseu e fazem questão de o dizer, podemos ler na vossa apresentação. A cidade e a sua herança cultural influenciam-vos nestas composições?

É certo que sim. É a cidade onde passamos o nosso dia a dia – uma cidade com muitas pessoas interessadas em fazerem evoluir a educação e cultura da mesma. Está a acontecer constantemente, festivais com variadas expressões artísticas, bares com programações regulares, galerias … são exemplos de como essa educação está a evoluir. O que sentimos é que como é uma cidade pequena as pessoas acabam por dar muito valor ao que acontece, o que em cidades maiores isso é menos visível, por existirem inúmeros espaços idênticos e assim tudo passa mais rápido. Somos uns felizardos, temos um grupo de pessoas que nos adoram e seguem-nos para concertos com altas energias. Sempre atentas e a perguntar qual será o passo a seguir – é inevitável não ficar com o coração a explodir de felicidade.

Editaram recentemente o vosso primeiro longa-duração. Como é que se sentem por ver materializado este trabalho de estreia?

Obviamente um enorme orgulho. Estamos ansiosos para que possamos partilhá-lo com quem gosta do nosso trabalho. Juntámos uma boa equipa, com óptimos profissionais e pessoas que gostamos muito – quando assim é, o processo torna-se mais fácil.

A improvisação e a liberdade a que se propõem na construção das vossas músicas tornou-se de alguma forma um desafio ao tentar transpô-las para este disco?

Sem dúvida. Quando decidimos avançar com o projecto a nossa ideia inicial era sempre em formato de jam, sem qualquer estrutura ou chão. Estávamos nessa fase, de arriscar e de nos pôr à prova. Acabámos por não fazer nenhum concerto neste formato porque muito rapidamente as linhas de baixo e os grooves de bateria foram surgindo na sala de ensaio – uma estrutura mais concreta vinha ao de cima. Contudo, não queríamos ter essa estrutura e pronto, o nosso objectivo sempre foi criar uma viagem, em formato de jam ou não. Foi um desafio interessante equilibrar a improvisação e a nossa liberdade com a estrutura que tínhamos criado.

Foi também um factor decisivo na escolha do HAUS para gravar? Até que ponto foi importante o trabalho feito em estúdio na junção de todas as peças de “Os Anjos Também Cantam”?

O HAUS fez-nos crescer, não só pela parte musical mas também pessoal. Tínhamos 5 dias para sair dali com o disco concluído, ou seja, 2 dias para gravar e os outros 3 para a masterização e mixagem. Apesar de termos ido bem preparados para estúdio existem sempre coisas que correm menos bem ou são alteradas, o que faz todo um nível de pressão subir. O Makoto e o Fábio são uns óptimos profissionais e ajudaram-nos a encontrar ferramentas para seguirmos caminho. A direcção da improvisação para a estrutura ficou bem mais clara nas nossas cabeças – sentimos uma boa evolução depois de termos saído do HAUS.

A edição do álbum ficou a cargo da Blitz Records e a distribuição da Sony. Como é que eles chegaram até vocês?

Na verdade fomos nós que chegámos a eles. Estávamos naquele processo de falar com editoras para ver o que podia acontecer, batemos à porta de algumas que gostávamos mas não estava fácil chegar a uma conclusão animadora. Lê-mos num artigo da Blitz este novo formato de edição em parceria com a Sony, ficámos a pensar naquilo mas nem entrámos em contacto porque parecia-nos difícil pegarem no nosso disco. Temos a noção que o nosso tipo de música não é assim tão fácil de ouvir, depois cabe às pessoas decidir se é bom ou não. Era tudo novo para nós, já nem sabíamos o que pensar. Mais tarde resolvemos arriscar e foi incrível quando soubemos que estavam interessados na edição do disco. Ficámos muito orgulhosos.

Numa altura em que a música nacional parece respirar bastante saúde, esta aposta em jovens bandas na edição, distribuição e existência de oportunidades para tocar assume alguma importância. Como é que vêem o panorama musical nacional actualmente?

De há 5 anos para cá que se vê a olhos vistos uma grande evolução do que é feito em Portugal. Talvez seja por cada vez mais haver pessoas interessadas em estudar técnicas de composição ou a profissionalizar-se num instrumento. Não é que esse factor seja tudo mas é algo que nos parece importante para conseguirmos entrar noutras sonoridades, não tão exploradas até à altura. A informação e a partilha também acontecem de forma muito mais imediata e acreditamos que todos estes factores ajudem nesta evolução. Como referiste também existem mais entidades interessadas em distribuir e promover os novos trabalhos, e faz com que os artistas arrisquem mais. Sabemos que é difícil viver da música em Portugal mas acreditamos que com trabalho encontraremos o caminho certo. Se fosse fácil todos chegavam lá.

©Joana Linhares

Referem no “Faixa a Faixa” que nos prepararam sobre o disco que este tem cerca de 30 e poucos minutos, mas que ao vivo chega bem perto dos 50. Este espaço para expandir, transformar e possivelmente nunca replicar de concerto para concerto é aquela faísca extra que mantém tudo mais interessante para vocês?

Sim, é o que torna o processo mais interessante. Apesar de termos uma estrutura no nosso set mais presente deixamos sempre espaço para a improvisação e é verdade quando dizemos que o concerto de hoje não vai ser igual ao de amanhã. É algo que nos dá pica e nos mete à prova, gostamos de arriscar e sentimo-nos bem ao fazer isso. Somos Seres Humanos, não robots que têm aquele reportório e tocam aquilo igualzinho durante 1 ano. Acho que nos fartaríamos muito rapidamente da nossa música e não é isso que se pretende.

Imagino que para que isso aconteça os picos de concentração e comunicação entre os dois tenham que ser bastante elevados. Já vos aconteceu pensarem durante um concerto que foram longe de mais? Ou isso nem sequer é uma questão porque se foram por aquele caminho e não outro é porque sentiram que era até ali que a música vos estava a levar?

Já fizemos coisas bem loucas, como tocar o set do fim para o início, em concerto. Foi incrível, surgiram ideias que mais tarde aproveitámos para inserir no disco. Arriscamos sempre muito, por vezes corre bem e por outras vezes menos bem porque vamos sempre para onde estamos a sentir que devemos ir, depois o problema pode ser sair de onde te meteste. Mas é saudável, quer para nós quer para o público, crescemos imenso ao sair das zonas de conforto e essas energias passam para o público.

E por falar em concertos, e para terminar, onde é que poderemos ver em breve os Galo Cant’às Duas? Têm já datas agendadas para apresentação do disco?

Já temos algumas datas marcadas sim, andaremos por todo este Portugal. Fiquem atentos que tudo será dito na altura certa.

Os Galo Cant’às Duas vão apresentar o disco “Os Anjos Também Cantam” nas seguintes datas:

1 de Abril: Carmo 81, Viseu
10 de Abril: Fnac do Colombo, Lisboa
13 de Abril: Sabotage Club, Lisboa
14 de Abril: Fnac do Chiado, Lisboa
14 de Abril: Fnac do Vasco da Gama, Lisboa
20 de Abril: Club, Vila Real
21 de Abril: ¼ Escuro, Chaves
22 de Abril: Contemplarte, Braga


sobre o autor

Hugo Rodrigues

Multi-tasker no Arte-Factos. Ex-Director de Informação no Offbeatz e Ex-Spammer na Nervos. Disse coisas e passou música no programa Contrabando da Rádio Zero.

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