MENUMENU

Entrevista


Filho da Mãe

A música instrumental é uma espécie de bar aberto em ideias


© Vera Marmelo

Rui Carvalho é Filho da Mãe. Chega agora ao quinto disco editado a solo (pelo meio, uma colaboração com Ricardo Martins) e atinge uma interessante maturação artística na sua muito particular relação com a guitarra. De Lisboa para a Madeira, onde gravou, passando pela música africana e pela relação com o palco: falámos com ele sobre a sua música.

Água-Má foi gravado na Madeira, em mais uma residência, à imagem do que já tinha acontecido com o disco anterior, gravado em Amares, perto de Braga.

Gravei o disco todo na Madeira, embora tenha passado aqui primeiro por um estúdio em Lisboa, o Haus, perto de onde ensaio — é um estúdio de amigos, de pessoas dos PAUS e Linda Martini. Só que senti que aquilo não estava como eu queria, por um motivo que também não sei dizer qual é. Então tirei um tempo para pensar no disco e, de repente, surgiu a história da Madeira, de uma forma não planeada.  Foi depois de falar com o Hugo Valverde – que é quem grava o disco – e de repente os contactos começam a multiplicar-se para, passado umas semanas, estar num avião para a Madeira. Isto porque as pessoas são um pouco assim, funcionam todas um bocadinho com o impulso, e eu aceito isso — aliás, adoro essas situações. Portanto, acabei por gravar o disco todo na Madeira.

O facto de a sua música ser apenas instrumental levou-me a estabelecer alguns paralelos com alguma da música africana que conheço. Uma das questões que levantei prende-se com a quantidade de improvisação que levou a cabo no disco.

Eu ouço muita música africana! Há alguma coisa no continente africano que me faz adorar a sua música, tanto na parte da percussão como na parte das cordas. E há uma componente muito grande de improviso nessa música, embora haja alguma coisa planeada, uma ideia prévia. E eu faço isso um bocado, embora não o fizesse no início, quando fazia as coisas mais rock: ao vivo parecem mais intempestivas, mas são mais planeadas do que parece. As músicas em banda são mais pensadas, e quando comecei a tocar sozinho comecei a habituar-me a não pensar tanto, a não planear tanto as coisas e a improvisar um bocado mais, embora não seja de todo a minha escola. Gosto de não ter as coisas definidas e deixar que as coisas sigam o seu curso.

E há, então, uma evolução quanto a trabalhos anteriores, tanto na composição como no desprendimento de execução.

Este disco é um bocadinho diferente. Queria dele algo diferente mais em termos de composição do que resultados. Não sei se as pessoas vão achar o disco assim tão diferente, mas a forma de tocar guitarra é um bocado mais livre, e as músicas são mais flexíveis. Podem ser tocadas de trás para a frente, quase, como se fossem parte da mesma música. E nesse sentido, são improvisadas. Em discos anteriores, eu não sinto isso — é o motivo pelo qual já não toco coisas do primeiro disco, porque acho que já me abandonaram de alguma maneira. Antes seriam mais canções, no sentido em que tinham uma espécie de fórmula. E eu agora não sinto que haja tanto uma fórmula; parecem-me mais intuitivas.

O veículo narrativo dentro da música instrumental; a música como forma de comunicação emocional.

Não me considero um virtuoso nem um gajo da técnica. Não tenho aprendizagem formal e, sinceramente, sinto que faço tudo mal na guitarra clássica. Toco guitarra clássica como quem toca eléctrica, e antes disso tocava eléctrica como quem toca portuguesa. Portanto, passa por eu tocar um instrumento mas não necessariamente como ele devia ser tocado. E não o digo com orgulho; é um facto. Não acho que a falta de formação seja uma coisa boa, até pelo contrário. O que quero dizer é que isso me levou sempre a explorar a minha própria coisa na guitarra. A rapidez, os dedos, servem somente como uma ferramenta para explicar uma emoção às pessoas. Portanto, o meu registo é emocional, quase como uma tradução em simultâneo do que estás a sentir para a guitarra. E isso acontece no processo de composição, também. Depois há momentos que são intuitivos, e outros que não, quando uma pessoa pára, e reflecte um bocado mais. Sinceramente, sinto que o que faço tem menos a ver com virtuosismo e mais com a vontade de pôr isto que tenho cá dentro, do ponto de vista emocional, cá fora. E acontece mais ao vivo do que no disco, porque no disco preocupo-me mais com a narrativa, mesmo que não faça sentido nenhum para as outras pessoas: é uma história que conto a mim próprio. O facto de não ter voz faz com que tudo seja mais vago, necessariamente, mas vejo sempre uma história no disco. Neste caso, que até acho que é o melhor exemplo, já tinha a maior parte das músicas feitas, e tocadas de forma diferentes são músicas absolutamente diferentes. Consigo comparar gravações que tinha feito em Lisboa com as que fiz no Funchal e são coisas completamente diferentes. Tem alguma coisa a ver com o ambiente, com a emoção com que se toca, e com a história que se encontra para o disco. E para mim é importante, sentir que o disco faz sentido para mim, mesmo que não tenha repercussão para as outras pessoas. A música instrumental é uma espécie de bar aberto em ideias, e cada um consegue pensar o que quer. Eu sempre achei que a minha música era um pouco ansiosa e tensa, mas já tive gente a dizer-me que era música excelente para ir no comboio e relaxar, e não a vejo nada dessa forma. Mas tem uma narrativa. Neste caso, a gravação do Funchal… houve uma tempestade por trás, que a certa altura parece que engole o disco, de alguma maneira. É uma coisa um bocado visual, e que pode ter alguma coisa a ver com o disco anterior, o Mergulho. Mas eu colo as coisas assim, na minha cabeça, como se estivesse “a escrever um livro”. E os quatro discos que tenho são, de alguma maneira, parte do mesmo livro.

Filho da Mãe

À semelhança do que discutimos com Brian Chippendale dos Lightning Bolt, é interessante perceber a relação de Rui Carvalho com a guitarra: não existe o medo de se sentir limitado na composição?

Isso é um bicho, sabes? Eu vou-te dizer que penso nisso, e pensei nisso, e tinha medo que fosse assim, mas não foi, nem tem sido, e provavelmente nunca vai ser. A música diz coisas diferentes. Se ouvires de repente, e picares os discos todos, vais ouvir uma guitarra e sentir que os discos são todos iguais. Mas eles não são todos iguais, e têm momentos diferentes para ouvir. Eu não sinto que tenha sequer raspado a superfície para explorar o instrumento. Depende da superficialidade ou não com que olhas para a música. Se for muito por cima, as coisas tornam-se velhas muito rápido; se for por dentro, talvez não. Mas, claro que tenho este medo. Não vejo propriamente um fim. Estou a pensar fazer uma cena com guitarra portuguesa, ou outro tipo de guitarras, porque gosto que Filho da Mãe tenha a ver com um tipo a espremer-se todo para tocar guitarra. No dia em que achar velho e cansativo deixo de o fazer. Essa limitação acho que será mais psicológica que outra coisa. Sinto mesmo que há muito terreno a explorar numa guitarra.

A música ao vivo e a relação com o público.

Tenho uma relação quase obsessiva, na verdade, em relação a tocar ao vivo. Se eu não tiver concertos não sei muito bem o que faço. E gosto de tocar ao vivo, mesmo que não seja uma coisa calma e tranquila — nem nunca vai ser. As pessoas diziam-me “sentes-te assim agora porque são as primeiras vezes, depois passa”, mas não passa. Cada vez que faço aquilo, melhora, e sei o que estou a fazer, mas estar sozinho num palco com uma guitarra não é uma coisa natural. Há quem tenha jeito para isso, mas é uma coisa difícil, que se faz com alguma aprendizagem. E no início é sempre aterrorizante seja em que sala for. Ainda há pouco tempo estive nos Açores, num ambiente que não controlo tão bem por serem salas que não conheço, e assim que me sento com a guitarra sinto que estou mais completo. Daquilo eu percebo. Eu estava habituado a tocar em banda e não percebia porque é que as pessoas tocavam a solo. Acho que há um lado psicológico interessante, uma luta qualquer que é engraçada e que se renova de concerto para concerto. É uma experiência boa, sobretudo quando se tem um disco novo nas mãos.

Às vezes não sinto o meu público, nem sei muito bem qual é. Ainda há pouco tempo apresentei o disco em Lisboa, no Teatro Maria Matos, uma sala que já conheço bem e onde já fui algumas vezes. O público que lá vai também já me conhece. Naquela sala gera-se uma intimidade, e eu percebo o público e começo a sentir como está a reagir. Há algum feedback que vais recebendo das pessoas e que não consigo exprimir por palavras; não tem só a ver com palmas, na verdade. Esta história do público é uma coisa que me escapa um bocado. Não tem a ver com estar no palco e agir como se não estivesse lá ninguém — para mim não é isso, porque acho que o propósito da música é tentar emocionar as outras pessoas. Portanto, a preocupação com o público existe. 

No início, lembro-me que as pessoas falavam muito nos concertos, que agora já não acontece tanto. E gostava de ter a perspectiva um bocado mais aguda do rock de mandar calar as pessoas de alguma maneira. Porque o rock faz isso automaticamente: é tudo muito alto, não ouves ninguém até acabar o concerto, não há problema nenhum. Quando tocas um instrumentozinho acústico, tu ouves uma pessoa a fungar, a mexer nas chaves dos bolsos, e eu relacionava-me com isso de uma maneira mais agressiva — até para me divertir com as pessoas — e hoje em dia não me preocupa tanto isso. Quem quiser ouvir ouve, quem não quiser não ouve. Toco muitas vezes para público novo, continuo a sentir isso. E as coisas variam muito consoante toques num teatro, num sítio ao ar livre ou num festival. Eu sei que a média é surpreendentemente boa e as coisas resultam bem. A mensagem passa.

A influência de Carlos Paredes.

Isso não me preocupa muito; até já me preocupou mais. Eu tinha essas coisas noutros formatos em que tocava e o Carlos Paredes aparecia também, mas as pessoas não reparavam. Quando te disse há pouco aquilo da guitarra portuguesa, não estava a brincar: em If Lucy Fell, aquilo não sugere em absolutamente nada Carlos Paredes mas está lá, de alguma maneira. Carlos Paredes se jogasse futebol era o Eusébio. E eu ouvi muito em miúdo e na faculdade, andava sempre de eléctrico de um lado para o outro e ouvia esse disco constantemente, e é óbvio que fica alguma coisa, mas que acaba por ficar misturado com tantas outras coisas ao mesmo tempo. Neste caso, funciona bem com uma guitarra, mas não sei se numa banda resultaria, porque misturas muitas influências e aquilo fica esquisito. Quando tocas a solo as coisas podem funcionar, e isso está algures na minha personalidade. Não é como se estivesse a fazer uma referência — aquilo sai na altura, de entre as várias coisas que podem sair.

Filho da Mãe passa hoje, dia 25 de Maio, na Associação Convívio, em Guimarães, para o último de uma série de concertos de apresentação de Água-Má.

sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa. (Ver mais artigos)

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