Entrevista


Country Playground

Ao vivo entregamo-nos totalmente ao que estamos a fazer.


© Ricardo Graça

Com apenas um ano de existência mas já com muita música nas pernas, os Country Playground editaram o disco de estreia Turdus Merula no final de Julho, sem medos, e romperam um pouco do marasmo musical que se faz sentir nesta altura do ano. Agora que a banda começa a colher os frutos desse atrevimento e a preparar a digressão de apresentação deste álbum, falámos sobre ele com Fernando Silva (guitarra e vozes), uma das metades desta dupla, que se completa com Rodrigo Cavalheiro (voz principal e bateria).

Começando pela pergunta inevitável: quando e como é que surgem os Country Playground?
Os Country Playground surgiram por volta de 2008. O Rodrigo escreveu umas músicas em conjunto com a mulher e formatou o projeto para um ambiente intimista, apresentando-se sozinho, apenas acompanhado por uma guitarra acústica. As canções dessa altura bebiam mesmo muito do Universo Country americano. Entretanto, com alguns concertos, o Rodrigo começou a cansar-se de não conseguir transmitir o tal registo intimista que pretendia. Também não se sentia muito à vontade com a guitarra e estava demasiado exposto. Por esse motivo, resolveu a dada altura fazer uma pausa com o projeto, no entanto, nunca o deixou esquecido.

Apesar de amigos há vários anos e do vosso já longo percurso na música, só em 2014 se juntaram num projeto musical. Estava destinado a acontecer desta forma e naquela altura?
Pelos vistos sim. Às vezes há coisas que não se planeiam e acabam por correr bem. Como referi anteriormente, o Rodrigo nunca esqueceu o projeto, e em Maio de 2014 foi desafiado para o apresentar novamente em concerto. Como ele não queria voltar a repetir a fórmula, pensou em endurecer o projeto, aproximando-o mais ao rock e ao country-rock, passando ele para a bateria, que é o seu instrumento “natural” e voz, e convidando alguém para a guitarra. Como dizes, eu e o Rodrigo já nos conhecemos há muito tempo, mas nunca tinha surgido a oportunidade de tocarmos juntos. Quando ele pensou num guitarrista lembrou-se logo de mim e ligou-me. Ao fim do primeiro ensaio percebemos que estávamos os dois na mesma sintonia. Entendemo-nos perfeitamente e estávamos completamente extasiados com o que estava a acontecer. As coisas fluíram muito bem, com naturalidade, e ao fim de uma semana já estávamos a tocar umas 5 músicas… A seguir a esse concerto tivemos imediatamente a certeza que Country Playground já era uma banda e não mais um projeto arrumado na gaveta.

E porquê o country para este projecto? Sentem que é neste momento o vosso playground, se me permitem o jogo de palavras?
O lado country já vem muito do que o Rodrigo tinha composto. Se bem que na realidade, encontrámos muitas pontes em comum entre os dois: ambos adoramos Neil Young, Johnny Cash, Townes Van Zandt, os Stones da altura do Exile e do Sticky Fingers, Eagles, Willie Nelson… Essas influências vão acabando por vir ao de cima. Mas a verdade é que o Rock duro, sujo e cru também está muito presente no nosso som… tendo em conta tudo o que já fizemos musicalmente também seria de estranhar se isso não acontecesse.

©Ricardo Graça

A figura do melro está bastante presente neste disco, não só representado na capa do álbum, mas também no próprio título. Como é que ele surge e se liga a este vosso primeiro trabalho?
O melro começou por aparecer num dos nossos primeiros logótipos. A verdade é que gostamos muito de animais. O melro é uma ave elegante e imponente, que remete para um certo sentido de liberdade. Ao mesmo tempo também está muito ligado ao imaginário Country, muito ligado à natureza. Quando gravámos o disco, de modo a tentar unir de alguma forma as diferentes músicas, combinámos visualizar um melro preto sempre que estivéssemos a gravar o instrumental – na esperança que de alguma forma nos ajudasse a focar e a ter um fio condutor na coisa. Isto é um bocado para o metafísico, mas a verdade é que nos parece que resultou. No final do disco, já o nome não podia ser outro. Fazia sentido continuar ligar o disco à ave que esteve sempre presente desde o início.

Já falámos anteriormente no vosso percurso musical com outras bandas e em Country Playground funcionam como um duo. Como é que tem sido essa experiência?
Tem sido excelente. Nós já estamos numa idade em que é difícil combinar a nossa vida real do dia-a-dia com a música. E nem toda a gente tem a mesma disponibilidade ou vontade para abdicar dos tempos livres para se dedicar inteiramente à música. Neste caso temos muita sorte de ambos gostarmos mesmo muito de tocar e preferirmos fazer isso a outras coisas. Também estamos os dois muito focados no que queremos fazer tanto ao nível “estético” da música, como no caminho que queremos traçar com a banda e nos objetivos a perseguir. O que notamos é que é incrivelmente fácil fazermos as coisas os dois. Depois também há a vantagem da nossa logística ser extremamente simples.

E nesse sentido, como é que foi e correu o processo de gravação de Turdus Merula?
De todos os discos que gravei, este foi o mais simples de todos. As músicas estavam todas feitas quando começamos a gravar em Agosto do ano passado. Gravámos ao vivo os dois, e depois foi só fazer uns overdubs de guitarras e gravar a voz. Não houve qualquer tipo de correção ou “picagem” às pistas gravadas. Não complicámos e quisemos captar o som mais próximo possível ao que apresentamos ao vivo. Como vimos que conseguíamos captar a textura sonora que pretendíamos, acabámos por não envolver ninguém de fora no processo e acabei por ser eu a misturar e masterizar o disco. Nunca o tinha feito e foi uma experiência brutal.

Editaram este disco no final do passado mês de Julho, numa altura em que fazia praticamente um ano desde que ele estava pronto. O que é que vos levou a aguardar este tempo para a edição do álbum?
Quando terminámos de gravar no ano passado, falámos com algumas editoras, mas por um motivo ou por outro, não nos foi possível trabalhar com nenhuma. Começámos então a preparar tudo para lançar o álbum digitalmente, mas quando o estávamos para fazer, o Rodrigo teve de ir trabalhar para Coimbra, o que nos fez parar. Felizmente em Março deste ano o Rodrigo voltou a trabalhar em Leiria e aí retomámos o plano. Para fazer a edição digital, pedimos à Preguiça Magazine para nos ajudar com a promoção do disco. A Preguiça é uma publicação digital que tem muitos seguidores na nossa zona. Fomos então surpreendidos pela Preguiça com a proposta de serem eles a editar o disco. Seria a sua primeira incursão na edição de música. O facto deles o terem feito sem sequer ter ouvido o álbum também fez com que ficássemos motivados pela fé que depositaram em nós para a sua edição de estreia.

Acabaram por fazê-lo também numa altura pouco usual, em que está instalada a silly season. Temeram que isso pudesse ser um obstáculo a que o vosso disco chegasse ao maior número de pessoas possível aquando do seu lançamento e pudesse perder algum do interesse inicial que há nessa fase?
Muita gente nos disse que podia ser um contra editarmos nesta altura, mas a verdade é que acho que as coisas até nos estão a correr muito bem. Estamos em muitas rádios, tem havido muito interesse por parte de publicações online e até da imprensa escrita. Inclusivamente já conseguimos ter exposição na televisão e o vídeo deverá entrar na grelha da RDP já em Setembro. Na realidade acho que acabámos por beneficiar do facto de ninguém editar nesta altura. Provavelmente se esperássemos pelo final de Setembro não teríamos tanta oportunidade de expormos o nosso trabalho, uma vez que é natural que a atenção se divida pelas várias edições que vão aparecer.

Em Julho deram igualmente os primeiros concertos de apresentação de Turdus Merula. Sendo o country o ponto de partida, a verdade é que nestes temas há igualmente uma forte componente mais rock, isso faz com que as músicas tenham potencial para crescer ainda mais ao vivo? Como é que correram essas datas?
Ao vivo as coisas têm corrido muito bem. É verdade que só tocámos em “casa”, mas fizemos 6 datas no final de Junho e durante Julho e o interesse pela banda tem vindo a aumentar. Ao vivo entregamo-nos totalmente ao que estamos a fazer. Os concertos são bastante enérgicos e sentidos. Acho que essa entrega é notada pelo público que tem reagido muito bem aos concertos. O feedback que temos tido é muito bom e estamos extremamente gratos pela força que temos recebido.

Agora que o álbum está editado, o que se segue para os Country Playground? Têm já mais datas de apresentação confirmadas que possam divulgar?
Agora estamos a planear a digressão de apresentação do disco. Estamos desertinhos para começar a mostrar o Turdus Merula por todo o lado, até para ver como reage o público fora de “casa”. Isso só deverá acontecer a partir do final de Setembro – estamos agora a alinhar as datas. Também vamos fazer alguns showcases pelas Fnac, mas as datas ainda não estão todas fechadas, pelo que o melhor é estarem atentos ao nosso facebook para saberem as novidades assim que elas surjam.


sobre o autor

Hugo Rodrigues

Multi-tasker no Arte-Factos. Ex-Director de Informação no Offbeatz e Ex-Spammer na Nervos. Disse coisas e passou música no programa Contrabando da Rádio Zero.

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