MENUMENU

Entrevista


Noveller

A música é provavelmente a forma mais profunda pela qual me consigo expressar.


© Priscilla C. Scott

À distância de uma chamada de Skype apanhámos Sarah Lipstate a caminho do aeroporto para um voo que a vai levar até Filadélfia para o seu segundo concerto desde que A Pink Sunset For No One foi editado, o seu mais recente disco enquanto Noveller, projecto a solo que abraça à cerca de uma década. A ligação é boa e a nossa interlocutora simpática e descontraída falou-nos deste seu último trabalho, desta nova América de Trump e da sua vontade de vir apresentar o seu novo álbum numa digressão pela europa.

A Pink Sunset For No One saiu há poucas semanas. Como tem estado a correr? Segues as reacções dos teus fãs e críticos? Entusiasmada para começar a tocar estas músicas novas ao vivo?

Tem sido muito bom ver a reacção das pessoas, por exemplo no Instagram, a colocar fotos de quando receberam o disco por correio, outras fizeram vídeos do disco a tocar e isso deixa-me muito feliz. A minha editora também me envia as notícias da imprensa e gosto de saber que estão a prestar atenção, mas tento não ler tudo a não ser que seja uma crítica muito boa! (risos) Mas mesmo assim é difícil ler, seja uma boa ou má crítica. É complicado ler coisas que escreveram sobre ti, porque tenho uma ligação emocional tão forte com o álbum que se torna difícil ouvir qualquer opinião exterior a ele. Ele é uma parte de mim.

Vai ser muito divertido começar a tocar algumas das músicas novas em concerto. Esse é sempre o passo seguinte quando editas um álbum, primeiro gravas e lanças cá para fora, e depois tens de pensar em como vais construí-lo ao vivo. É o último passo no ciclo de vida de criar música e é onde estou neste momento e sinto-me bem.

Em entrevistas recentes falaste em como este álbum foi resultado de muitas mudanças na tua vida. Trocaste Nova Iorque por Los Angeles. Fizeste parte da digressão Post Pop Depression do Iggy Pop. Como tem sido esta viagem? A música é para ti uma ajuda ou um caminho?

Eu diria que a música é provavelmente a forma mais profunda pela qual me consigo expressar. Por isso sinto que todos os altos e baixos que vivi recentemente verteram directamente para este último trabalho. E é interessante perceber como uma parte dele diz respeito a emoções muito difíceis de lidar, tristeza, luto e como processar tudo isso, deixando-me absorver completamente, mais o final da experiência da digressão com o Iggy, pode resultar na criação de música tão bonita.

A música pode ser um caldeirão para qualquer emoção que jogues lá para dentro. Se ouvir o disco agora sou imediatamente transportada para as memórias que o ajudaram a criar e isso pode ser uma experiência muito pesada. Há tanta coisa envolvida e no final acabas com uma música de quatro minutos limpa e arranjada, mas se realmente mergulhar nela consigo ver tantas camadas diferentes. É muito complexo para mim.

E a música instrumental parece dar-nos espaço para imaginar e vaguear mais. Constróis narrativas para as tuas música quando compões? Consegues encontrar palavras para elas?

Para mim é sobretudo uma narrativa emocional. Eu percebo a música em geral, e a minha própria, de uma maneira mais abstracta. Tento imaginar uma viagem emocional para cada música que, quando chega ao fim, consigo encontrar uma espécie de resolução. Ou o contrário, quando chego a uma resolução então sinto que a música também chegou ao fim. É sempre relativamente abstracto e prefiro que assim seja. Sinto que assim também é mais fácil de transmitir a um público mais vasto. Tenho ouvido pessoas fazerem descrições muito detalhadas do que pensam que uma música significa, como se vissem um filme nas suas cabeças e gosto disso. Acho que se as músicas puderem ser amplamente interpretadas por um grupo muito diferente de pessoas, então vão cumprir o seu verdadeiro propósito.

É engraçado o que dizes porque a primeira vez que ouvi este teu último disco foi numa longa viagem de comboio e pareceu-me ser a banda sonora perfeita para a paisagem fugaz pela janela, como se estivesse a construir o meu próprio filme na minha cabeça. Também encontras este elemento cénico nas tuas músicas? Achas que vem da tua experiência a produzir bandas sonoras para filmes?

Sim. Antes de responder queria só dizer que ouvir música enquanto viajo, especificamente de comboio, é um dos meus ambientes preferidos para ouvir música. Sinto que pode ser uma experiência verdadeiramente transcendente, que te permite apreciar a paisagem ainda mais, elevando-a. É como se estiveres a viver dentro do teu próprio filme, fazendo-o ainda mais importante e significativo. Mas é interessante que quando estou a fazer bandas sonoras é todo um processo. Quando trabalhas com um realizador, que tem uma visão tão própria do que o filme representa, e tu tens de certa forma adicionar a última peça do puzzle é uma grande responsabilidade, porque a banda sonora é muito importante num filme. E adoro conseguir, com a minha música, adicionar algo à visão de outra pessoa e tornar tudo mais coeso. É diferente e muito mais desafiante que criar música para ti mesmo, porque há muitas mais pessoas envolvidas que tens de fazer felizes, mas quando funciona é uma bonita colaboração. Agora que vivo em L.A. espero conseguir trabalhar em bandas sonoras cada vez mais, fazendo contactos com mais produtores. É uma experiência verdadeiramente gratificante que adoro.

Noveller é um projecto a solo que já conta com mais de 10 anos. Quais são os prós e contras em não fazer parte de uma banda?

Toda a gente sabe que não é fácil viver da música. O maior benefício, de um ponto de vista prático, é que é muito mais sustentável, porque não tens de pagar uma banda inteira. Estar a solo fez com que fosse muito mais fácil para mim sobreviver a fazer música e isso é o mais importante. E por outro lado sinto que também é muito mais satisfatório criativamente. Pela minha experiência, em algumas bandas que integrei, fi-lo quando elas já existiam há algum tempo e nunca entrei para escrever música nova, ocupava apenas o papel da guitarrista feminina. E pode ser divertido tocar a música das outras pessoas, sobretudo se é um estilo musical diferente do teu, como rock ou electrónica, mas não é tão gratificante como compores e tocares as tuas próprias composições.

Por outro lado, agora que tenho viajado muito ultimamente, uma coisa que lamento profundamente de ser um projecto a solo é não ter companheiros de banda para me ajudarem a carregar todo o material! (risos) Vou apanhar um voo neste momento e tenho uma guitarra, a mala com os pedais e já estou no limite de bagagem permitida, não sobra espaço nem para roupa ou maquilhagem. É de loucos! Mas de todos os projectos em que participei, este a solo, enquanto Noveller, tem sido o mais o recompensador criativamente e acho que foi a escolha certa para mim.

Parece-me ser também uma questão de estar em completo controlo. Normalmente os músicos mais experimentais, que exploram a música construindo camadas sobre camadas, são muitas vezes projectos a solo.

Sim, para mim sobretudo quando toco ao vivo existe um elemento de coreografia. A forma como uso os meus pedais para criar as diferentes camadas é quase como se estivesse a esculpir som e, se tu tens uma visão muito clara em como queres que a composição soe, é mais fácil seres o único artista. O que não quer dizer que não goste de colaborar com outras pessoas e tenho tentado fazer isso cada vez mais. Não tanto ao vivo, mas agora que tenho a minha pequena casa em L.A. convido muitas vezes amigos guitarristas para tocarmos juntos. Mas para o projecto Noveller sinto que tenho ideias muito específicas para sons e adoro estar em palco e sentir que estou em completo controlo da música. É uma sensação maravilhosa que me faz sentir confiante nas minhas capacidades. Tocar ao vivo é provavelmente a parte mais divertida naquilo que faço.

Na música começaste por tocar piano e trombone em criança de uma forma mais clássica, até que os trocaste pela guitarra. Quando estás a compôr um novo álbum não sentes que poderias adicionar mais instrumentação ou tentas tirar tudo da guitarra?

O meu principal foco é a guitarra sobretudo porque as novas tecnologias nos pedais permitem expandir as possibilidades daquilo que consegues criar. Por isso não quero distrair-me trazendo muitos outros instrumentos porque quero forçar-me a continuar a explorar diferentes sons na guitarra. Mas ao mesmo tempo quando encontro e gravo esses novos sons, então sinto que é a altura em que posso experimentar adicionar outros instrumentos, que possam realçar e enriquecer a composição, tornando-a mais profunda e bela. Mas este ano, quando tiver algum tempo livre entre os concertos, penso em voltar um pouco ao piano. Tentar recuperar parte do que aprendi em criança e ver o que pode sair daí. Veremos se terei tempo para isso!

A tua sonoridade é bastante singular. É difícil encontrar ligações óbvias para outros artistas. Estou curiosa em saber que tipo de música gostas de ouvir no teu dia a dia. Que outros artistas e bandas são uma fonte de inspiração para ti?

A música mais importante para mim quando comecei a tocar guitarra, tinha 17 anos, foram bandas como os Sonic Youth que adoro e de onde tirei a ideia de começar a usar diferentes afinações na guitarra. Adoro os Pink Floyd e as sinfonias de guitarra de Glenn Branca que sinto que tiveram uma grande influência na minha música. Também adoro o Brian Eno, gosto muito dos seus álbuns pop mas acho os seus trabalhos de música ambiente essenciais e tiveram uma enorme influência em mim, sobretudo as colaborações com o Robert Fripp, que ouço a todo o momento em casa e são ainda uma enorme inspiração. Por isso é um misto de música rock noise, avant-garde, ambiente e também de bandas sonoras. Diria que neste momento ouço sobretudo música instrumental mas vim de um passado mais noise rock quando era adolescente que foi o que me levou a entusiasmar-me com a música em primeiro lugar.

Mudando o tópico e para uma pergunta inevitável da actualidade, como é viver nos Estados Unidos nos dias que correm com todas estas mudanças radicais políticas? De uma perspectiva exterior parece-nos um país extremamente dividido.

Sim é um país extremamente dividido e é quase sempre o primeiro tópico a surgir em qualquer conversa neste momento, seja num encontro de amigos ou desconhecidos. É um tema que surge quase de imediato porque toda a gente está a seguir o que se passa muito atentamente e a maior parte está muito descontente. Tem sido difícil para mim porque cresci numa cidade muito conservadora, de um estado muito conservador, Louisiana, no sul da América e tenho muitos familiares que votaram no Trump. Tenho tido muita dificuldade em lidar com isso, porque para além de estar num país dividido, tenho também a minha família dividida, da qual sou muito próxima e doeu perceber que eles apoiaram esta pessoa. Mas ainda ontem este assunto surgiu, enquanto falava com os meus pais e eles diziam-me o quão chateados estão com o Trump, descontentes com o que ele está a fazer, sentem-se desapontados e assustados pelo nosso país. Senti que foi um momento de avanço, em que conseguimos ter por fim uma conversa verdadeiramente honesta e encontrar um meio termo. E isto é algo de que todos precisamos de falar, mesmo que estejamos em lados opostos, conservadores e liberais, temos de falar e foi surpreendente perceber que afinal até tínhamos muitas opiniões em comum. E fez-me sentir esperança mas ao mesmo tempo há ainda um caminho muito longo para percorrer no nosso país e vão ser quatro anos muito assustadores. E é de loucos pensar em todo o drama que já aconteceu nestes dois meses e espero que possamos sobreviver a isto.

Não queria tirar mais do teu tempo mas tenho de perguntar-te se podemos esperar para breve uma visita tua à Europa e quem sabe a Portugal, para apresentar este teu último trabalho? Estiveste no Porto há cerca de dois anos no Amplifest como foi?

Foi tão bom mas foi tão curto, estive lá menos de 24 horas, apanhei o voo, dei o concerto e tive de ir embora logo cedo na manhã seguinte. Mas as pessoas foram tão simpáticas, a comida maravilhosa, o festival excelente, por isso já disse ao meu agente europeu especificamente que quero voltar a Portugal e ter um dia livre para poder realmente aproveitar. Espero que ele me tenha ouvido e acho que já está a trabalhar para algo no final deste ano. Toda a gente estava à espera que o álbum saísse por isso espero que agora consigamos boas oportunidades para agendar concertos. Tenho decididamente intenções de fazer uma digressão europeia mas não sei ainda os detalhes. Mas estou ansiosa por voltar à Europa!

O álbum acabou por sair e claro que agora é altura de desfrutar este momento mas quais são os próximos passos? Digressão? Outros projectos? Como vai ser o futuro próximo para Noveller?

Eu toco guitarra todos os dias e durante muitas horas, por isso estou sempre a ter novas ideias. Não comecei ainda a gravar material novo, prefiro dar tempo e não apressar as coisas, mas já estou a cozinhar novas músicas. Eventualmente quando tiver uma pausa entre digressões será muito divertido começar a trabalhar num novo projecto. Agora vou fazer parte de uma compilação muito fixe com vários músicos, como os The Melvins e o Mark Lanegan, em que cada um vai fazer uma cover de uma música do álbum The Wall dos Pink Floyd e eu vou fazer a cover de “Is There Anybody Out There?”. Vai ser algo completamente diferente colocar a minha assinatura numa música tão importante e fazer parte desta compilação. Vou fazer também a banda sonora de um documentário este ano e tocar em alguns festivais. O importante é estar sempre a fazer música, de formas diferentes e em diversos projectos. Gosto de me manter ocupada!


sobre o autor

Vera Brito

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