Entrevista


Cass McCombs

Não quero escrever a mesma canção que outra pessoa qualquer, quero contar uma história específica.


Aos 38 anos de idade, Cass McCombs é um dos herdeiros de pleno direito da folk norte-americana. Dono de uma voz doce, com alguma crítica social incisiva, encantam no músico os seus dotes de escrita e de composição desde o primeiro momento, quando lançou «A» em 2003. «Mangy Love» é o título do novo trabalho de originais, editado este ano.

A propósito deste lançamento, estivemos à conversa com Cass no NOS Primavera Sound 2016, que se apresentou ao público português com uma setlist mais curta, em que as músicas ganham maior profundidade. Tocaram “apenas seis malhas, pois perdemo-nos na improvisação“, admitiu revelando maior unicidade de cada concerto. O alinhamento é escolhido com cuidado e em parceria pois é “com a banda que decide o que tocar” em cada data. Afinal, apesar de brilhar em nome próprio, é com aqueles músicos que se afirma na estrada, “as músicas são escolhidas sem grande critério, de acordo com os sentimentos que vão gerando no público“.

Cass toca “desde sempre, desde miúdo“, confessando que teve uma banda de liceu bem popular mas sem desvendar o nome, daí o seu sucesso ter sido praticamente imediato, logo após o primeiro longa duração. Em 2003, gravou uma Peel Session. À minha curiosidade sobre esta passagem pelos míticos estúdios da BBC e o trabalho com John Peel, revelou que nem sequer conheceu o produtor britânico mas “colecciono muitas das gravações em que este participou (…) que acabaram por ser alguns dos melhores trabalhos desses artistas“. Perguntei-lhe se não tivesse seguido uma carreira como músico, o que estaria hoje a fazer: “não sei fazer mais nada!” exclamou com uma gargalhada, complementado com um “provavelmente seria um ladrão ou estaria preso” mantendo a sua abordagem humorística.

Nas suas composições, Cass McCombs não relata histórias em nome próprio. É um storyteller que relata as vivências de marginalizados, revelando uma enorme consciência social. Explica “há quem seja proscrito pela sociedade e mereça uma canção, talvez seja isso o que me interessa. Não quero escrever a mesma canção que outra pessoa qualquer, quero contar uma história específica“.

«Dreams Come True Girl» é uma presença habitual nos seus concertos. Saiu do trabalho de 2009 «Catacombs» e conta com a voz da diva do cinema norte-americano Karen Black (1939-2013), uma das mulheres mais bonitas que a indústria já conheceu – lá está, um sonho de carne e osso. Uma colaboração que aconteceu como fruto do acaso: “um amigo em comum estava em San Francisco a trabalhar com um realizador, que disse a este amigo para ir buscar a Karen ao aeroporto, por causa de um festival de cinema que estava a decorrer. (…) A Karen era alguém muito especial, que deixava um marca em quem conhecia, que se interessava pelo trabalho que os outros faziam“. O amigo – incrédulo – contou a Cass este pedido e perguntou-lhe se queria conhecê-la, visto ser um fã da sua cinematografia “dois dias depois estávamos num estúdio e foi assim“, fruto do acaso.

«Opposite House» é o primeiro avanço de «Mangy Love» (2016) e conta com coros da angelical voz de Angel Olsen. Perguntei-lhe o que pensa da afirmação do country norte-americano na Europa, especialmente nas franjas mais indie e revelou surpresa absoluta quanto a isso: “oh really?” seguiu-se de um sorriso incrédulo “are you serious?, glad to hear that“. Cass toca com músicos provenientes de diferentes géneros “do noise, do experimental, as pessoas com quem toquei hoje são do jazz“, enriquecendo ainda mais o seu trabalho musical.

No final de 2015 lançou «A Folk Set Apart» uma colectânea de “canções soltas, editadas individualmente” mas que acabaram por criar um trabalho coeso, “alguns dos meus temas favoritos, preferidos de amigos, malhas fixes mas que não receberam a devida atenção“.

Com o nono álbum na calha, o que une os trabalhos de Cass? “Nada. Nada em comum! Ouço os trabalhos mais antigos e penso ‘wow já nem conheço esta pessoa, é alguém completamente diferente’“. Muito mudou desde então, e quando se apercebeu já fazia parte desta indústria “dantes tocava na sala das pessoas, era um amigo que fazia o booking, muito mudou (…) mas nem perco muito tempo a pensar nisso, gosto é de fazer música“. E é tudo o que Cass McCombs precisa para ser feliz e nos deixar igualmente de bem com a vida.

«Mangy Love» é editado a 26 de Agosto. Eu já ouvi e dou-lhe um seguro 10/10, mais um clássico com selo de garantia Cass McCombs.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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