Entrevista


Anti-Flag

O elemento humano de empatia continua a ser o mais necessário.


© Megan Thompson

Há algumas coisas que sabemos garantidas quando escutamos um novo disco dos norte-americanos Anti-Flag: os grandes hinos punk rock estarão presentes, e bem vincada estará igualmente a consciência política e social da banda. American Spring, o seu décimo álbum, não é diferente, mas os dois anos e meio de esforço e dedicação que colocaram nele torna-o, nas palavras de Chris #2, como um dos melhores da sua carreira. E foi precisamente com o vocalista e baixista dos Anti-Flag que falámos sobre este novo trabalho…

Passaram cerca de três anos desde o lançamento de “The General Strike”, o que é que motivou este tempo entre edições? Estão satisfeitos com o resultado final?
Estamos mais entusiasmados com o American Spring do que com qualquer outro álbum nosso. Trabalhámos estas canções vezes sem conta para este disco, o artwork, os ensaios que as acompanham e as letras, tudo foi visto e revisto até estarmos satisfeitos. Foi um processo de dois anos e meio para completar tudo, mas é o nosso décimo álbum e o primeiro após o nosso vigésimo aniversário como banda, é importante para nós.

Intitularam este disco de “American Spring”, numa clara alusão à Primavera Árabe, e todo o artwork puxa também para o mesmo lado. Podes falar-nos um pouco da mensagem que querem passar com este novo trabalho?
A ideia de democracia directa. Além disso, a ideia de que a Primavera simboliza renovação e renascimento, tanto no mundo político como no mundo pessoal, para nós.

Em 20 e tal anos de banda também nunca fugiram de oferecer o vosso ponto de vista, de exporem questões sociais e políticas, de tentarem lutar por aquilo que acreditam ser justo e correcto. Algo que aliás vemos muito associado ao movimento do punk rock. Sentes que o público lida bem com estes assuntos? Ou no fundo não importa muito se a reacção é boa ou menos boa desde que ela exista?
Não é que cada pessoa que oiça o nosso álbum tenha que pensar, sentir ou reagir da mesma forma que nós nas mesmas situações, é mais sobre pertencer a uma comunidade com empatia. Alguém que se preocupa com algo mais que apenas consigo ou um indivíduo. Os concertos, os eventos e a sua organização, é tudo para celebrar o encontro entre pessoas que pensam de forma semelhante sobre o fim do racismo, do sexismo, da homofobia, das guerras e do ganho corporativo.

Achas que actualmente as pessoas também acabam por ser mais conscientes daquilo que as rodeia? A Internet trouxe um novo mundo de conhecimento à distância de alguns cliques e apesar de a apatia ainda ser um grande problema e de acharmos que “nunca é connosco”, há todo um potencial para isso mudar…
Absolutamente. Por outro lado também há muito mais informação e coisas que nos distraem e que nos mantém apenas focados em nós. Mas a habilidade para chegar a pessoas espalhadas por todo o Mundo está mesmo nas nossas mãos. Veja-se o que as redes sociais fizeram pela Primavera Árabe. O que fizeram pelo Freddie Gray e Baltimore. Podemos perfeitamente usar estes fóruns para nos juntarmos todos. No entanto, o elemento humano de empatia continua a ser o mais necessário.

Enquanto preparava estas perguntas li algo que disseste numa outra entrevista e que achei bastante interessante. Falavas na questão de quase parecer existir um limite de idade para prestar atenção ao punk rock e a todas estas questões. Com a vida adulta vêm as contas, as responsabilidades e passamos a focar-nos mais em nós, na nossa vida, e não tanto no Mundo em si. Daí às vezes ser bom recordarmo-nos destas coisas, é também esse um dos vossos objectivos?
Acho que não devia haver um limite de idade para viver de forma altruísta. Precisamos de forçar e subverter o status quo de forma a que nos dê o tempo e a habilidade para nos importarmos com o Mundo. O fosso entre ricos e pobres está maior que nunca. Acredito que será a próxima batalha e desafio do punk rock: tomar conta daqueles que não conseguem defender-se por si próprios.

©Megan Thompson

Voltando ao disco em si, como é que foi todo o processo de composição e gravação?
Foi longo. Pessoalmente tive muitas mudanças a acontecer na minha vida durante e antes de termos começado a escrita do álbum. Isso foi uma grande parte do processo para mim.

Referias também em várias entrevistas que este era um álbum mais pessoal. De que forma é que estas duas vertentes se unem e resultam em “American Spring”?
É mais sobre estar em sintonia e aberto às nossas emoções. Termos a empatia de nos colocarmos nas situações em vez de as comentarmos apenas como se as estivéssemos a ver de fora. Esforçarmo-nos realmente em nos colocar nessas situações para que as possamos compreender e viver da maneira mais real possível.

Nota-se que há um cuidado especial em acomodar estas canções e dar-lhes todas as ferramentas para que atinjam o seu potencial. Foi importante nesse aspecto adicionar a cada uma um pequeno texto com mais informações sobre os assuntos que abordam, para além da letra, no livrinho que acompanha o disco?
Sim, sentimos que uma canção punk de dois minutos é uma grande ferramenta. No entanto, devemos às pessoas a partilha das nossas inspirações. Temos a esperança que elas vejam onde queremos chegar, se isso faz ou não sentido depois depende de cada um.

Alguns dias antes de editarem oficialmente “American Springdeixaram-no em escuta através do site da organização Art for Amnesty. Como é que surge esta ideia e parceria?
Foi fácil, bastou apenas fazer uma chamada. Queríamos fazer algo menos tradicional com o streaming deste disco. Não fazê-lo apenas num site de rock, mas num local onde as pessoas pudessem realmente envolver-se em salvar vidas à volta do Mundo. A Amnesty foi o local perfeito para isso.

Disponibilizaram recentemente o vídeo para o tema “Bradenburg Gate”, que conta com a participação de Tim Armstrong (dos Rancid). Podes falar-nos um pouco desta colaboração e do conceito do vídeo?
Queríamos continuar na linha do tema do álbum e do seu artwork: renascimento. O desafiar a percepção da violência. Desafiar os nossos próprios preconceitos e privilégios. A canção em si é bastante pessoal para mim. Começou por ser uma canção sobre amor e perda. Acabou por tornar-se num tributo político para todos os americanos que desejam um programa de saúde social e um melhor programa educativo. O Tim foi a escolha perfeita para este tema e nem acreditamos que ele aceitou estar presente no vídeo, quanto mais cantar nesta música!

Vão embarcar em breve numa nova digressão europeia. Que expectativas têm para estas datas? Costumam ser bem recebidos na Europa?
Sim. Somos bastante bem recebidos em várias cidades da Europa. As pessoas preocupam-se com a arte, a política e o punk rock na Europa. É um óptimo local para nós. Um em que ganhamos uma grande dose de optimismo em relação ao Mundo.

Em 2011 estrearam-se ao vivo em Portugal, num concerto em Lisboa. Têm algum plano para um regresso?
Esperamos regressar no Outono, o nosso objectivo é levar o American Spring a todas as cidades onde alguma vez já tocámos.

Para terminar, neste verão planeiam trazer de volta o Anti-Fest, um festival montado por vocês com o apoio de várias organizações. Estão entusiasmados por o poderem fazer? O que é que nos podes contar sobre isto?
Estamos sempre à procura de fazer coisas que nunca fizemos antes. Há alguns anos atrás dissemos “nunca organizamos o nosso próprio festival… vamos fazê-lo!”, e foi assim que o Anti-Fest nasceu. Este ano vai ser espectacular e temos muitas surpresas pela frente!


sobre o autor

Hugo Rodrigues

Multi-tasker no Arte-Factos. Ex-Director de Informação no Offbeatz e Ex-Spammer na Nervos. Disse coisas e passou música no programa Contrabando da Rádio Zero.

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