Entrevista


Aki Onda

Em 1988 comprei um Walkman Sony num mercado em Londres, e nunca pensei que o iria estar a usar mais de duas décadas depois.


© Ilídio Marques / gnration

O artista sonoro japonês Aki Onda está por estes dias em Braga, numa residência artística no GNRation. “Cassette Memories” é o nome do projecto que irá apresentar, sendo possível conhecer o seu trabalho em três momentos distintos.

No dia 16 de Abril, poderás participar no workshop “Acoustics, Architecture and Energy on Sound Art Practices”; para o dia seguinte (sexta-feira), está previsto o concerto no GNRation, fruto do trabalho desenvolvido durante a residência; e, por fim, no dia 17 há uma soundwalk pela cidade de Braga.

O teu projecto tem uma identidade muito própria e única. É claro para ti o que te levou a começar este contínuo e sempre crescente jornal sonoro?
Não. Em 1988 comprei um Walkman Sony num mercado em Londres, e nunca pensei que o iria estar a usar mais de duas décadas depois. Foi mesmo antes de partir para  Marrocos e pensei que seria uma boa maneira de gravar a minha viagem. Era apenas um fotógrafo naquela altura, a máquina fotográfica que usei durante alguns anos tinha acabado de avariar e não tinha dinheiro para a substituir por uma nova. Por isso decidi-me por um Walkman barato em vez de uma câmera já que queria documentar a minha viagem como um diário. De alguma forma, até mesmo agora, uso o Walkman como se fosse uma câmera, tanto para imagens paradas ou em movimento. Ainda para mais sou bastante influenciado pelo cinema avant-garde, aliás, a minha música é essencialmente “cinema para os ouvidos”.

Quando começaste o “Cassette Memories” há duas décadas provavelmente era mais fácil para ti arranjares cassetes e Walkmans. Como é que lidas com a cada vez maior escassez desta tecnologia?
A Sony parou oficialmente de produzir cassetes Walkman há um par de anos, e outras companhias seguiram o exemplo. Por isso este aparelho barato está a desaparecer aos poucos do mercado. Ainda podes comprá-lo no Ebay, mas não é fácil conseguir um em boas condições. Mas como actualmente tenho provavelmente mais de 50 Walkmans, devo ficar bem por algum tempo.

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Quando chegas a uma nova ou desconhecida localidade quais são as estratégias principais para implementar este projecto? Tens alguns alvos preferidos ou pré-determinados para buscares sons?
Apenas ando pelos locais e vejo o que consigo encontrar e continuo nisto até juntar sons suficientes. Aliás, nunca fui a nenhum lado específico com o intuito de gravar, sou um bocado preguiçoso nesse sentido. Se me cruzo com algum som interessante, apenas carrego no botão para gravar. Mas tenho uma natureza um bocado nómada, e isso ajuda-me a encontrar novos sons. A gravação local acaba por ser a prática perfeita já que consigo trabalhar em qualquer lugar em qualquer momento.

Dado o teu trabalho e viagens anteriores, consegues apontar algumas semelhanças nas características do som entre dois locais diferentes, apesar das diferentes distâncias e culturas?
Os sons ambiente conseguem ser bastante diferentes em cada cidade, apesar de terem algumas características em comum. Já agora, eu documento sons concretos, mas uso-os como materiais não para descrever a realidade mas sim para criar uma alternativa. Sou como um mágico realista, e a cassete é um meio perfeito uma vez que modifica os sons gravados numa forma bastante característica. O som gravado pode ser bastante diferente do original uma vez que o alcance da frequência vai ser comprimido, a textura irá ser distorcida e alguns tons superiores e ruído de fundo irão ser adicionados.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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